segunda-feira, 22 de agosto de 2016

If I Was Your Girl, Meredith Russo


Opinião: Este livro... pessoal do Book Mail YA, muito obrigada por se lembrarem dele. Provavelmente seria uma coisa que não teria pegado, não por causa do tema, mas porque tenho restringido as minhas leituras em inglês a séries e autores que sigo, e portanto outras coisas que me chamem a atenção acabam por ficar numa lista imaginária chamada "talvez um dia... quando eu ganhar o euromilhões e me reformar prematuramente". Mesmo que possam vir a valer a pena. O que é uma pena.

De qualquer modo, fico contente por ter tido a oportunidade de o ter lido. É um livro bastante importante. Uma autora transgénero, com uma história sobre uma adolescente transgénero, com uma modelo de capa transgénero. O esforço por reconhecimento e aceitação de minorias faz-se assim, com passinhos de bebé, e vejo este livro como mais um passinho.

Não é perfeito nem fala por toda a gente que pudesse ser representada por ele, mas faz um bom trabalho em apresentar e normalizar uma experiência de vida, tanto a alguém que possa passar pelo mesmo, como alguém que nunca tenha contactado com a mesma.

A Amanda é uma jovem de 18 anos que vai fazer o seu último ano da secundária numa nova terra, onde ninguém a conhece. Vai viver com o pai, que teve dificuldades de aceitação em todo o processo, aliás, desde sempre; saiu de casa da mãe e do local onde viveu nos últimos anos devido a uma situação complicada em que foi exposta e agredida, como demasiadas vezes é a realidade de uma pessoa transgénero.

Um novo começo permite-lhe dar-se a conhecer sem preconceitos, e a Amanda começa a enturmar-se, fazer amigos, apaixonar-se. A descobrir-se como pessoa, sentir-se bem na sua pele, sem medo. Alguns dos momentos mais impressionantes foram aqueles em que ela morria de medo de ser descoberta, ridicularizada, agredida.

A coisa mais fixe da história é ver a personagem desabrochar, é inspirador ver alguém tão jovem e que passou por tanto, encontrar um tanto de "normalidade", se posso usar essa expressão, da qual não sou muito fã, especialmente no contexto. Mas ver a Amanda conhecer um rapaz, sentir aquelas borboletas no estômago, fazer um grupo de amigas que a apoiam... gostei de acompanhar.

A crítica que tenho a fazer é algo que a própria autora reconhece na nota no final do livro. Em muitos aspectos, a experiência da Amanda é algo "abençoada", no sentido em que passa por alguns desafios que se põem a alguém transgénero, mas não tem de enfrentar muitos deles, ou simplesmente certos pontos da transição são "facilitados" para a história e para o leitor. Por um lado compreendo, o mais importante aqui é a viagem emocional, que é muito boa e me envolveu completamente, por outro lado, também gostaria de ler mais sobre esses desafios.

Outra coisa a apontar é o facto de ser um livro de uma autora que está a começar, e em alguns detalhes nota-se. Oh, acho que emocionalmente fez um óptimo trabalho a detalhar a evolução da personagem, e adoro certos pontos como os flashbacks, para entendermos como a Amanda chegou aqui, ou a lenta aceitação dos pais, especialmente do pai, que no fim estava completamente focado em proteger a filha de tudo e todos, ou a irmandade feminina que se forma entre o grupo de amigas, especialmente depois da revelação (adoro a reacção da Anna, educada num meio hiper-religioso e conservador).

O que queria apontar que se nota de mais inexperiente é... talvez uma certa falta de complexidade no enredo, na narrativa? É bastante simples, e no caso é suficiente, mas também é o tipo de coisa que eu notaria seja em que história fosse. Além disso, a própria história, mesmo tendo os seus dramas, corre muito melhor do que provavelmente seria a realidade, e nisso há um pouco de wishful thinking, suponho, de que seja esta no futuro a realidade para uma pessoa jovem numa situação semelhante. É importante normalizar este tipo de experiência, mas ao mesmo tempo como ainda não chegámos lá, como sociedade, não é inteiramente realista.

Gosto muito de como a história acaba, bastante em aberto, num tom positivo e empoderador, cheia de possibilidades. Faz-me ficar orgulhosa da Amanda e do caminho que percorreu ao longo da narrativa.

Páginas: 288

Editora: Flatiron Books (Alloy Entertainment)

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