sábado, 29 de julho de 2017

A Única Memória de Flora Banks, Emily Barr


Opinião: Flora Banks tem amnésia. É incapaz de formar novas memórias: tudo o que vive desaparece após umas horas. Mantém as suas capacidades cognitivas, mas é um pouco difícil ser independente quando nem se lembra que ainda não comeu, não é? Bem... errado. O problema da Flora é definitivamente uma desvantagem, e será frustrante para ela e para os que a rodeiam, mas a Flora é uma personagem deliciosa.

Pois a Flora é resiliente e inteligente, e muito capaz. E tem uma doçura e candidez naturais que encantam toda a gente. É amorosa, e apaixonada, e fabulosa. Criou uma série de mecanismos para se ajudar a recordar do essencial, como escrever num caderno e fazer pequenas notas escritas nos braços, ou distribuindo post-its em seu redor. 

Um dia, Flora e os amigos estão a fazer uma festa de despedida para o futuramente-ex-namorado da melhor amiga, que se vai mudar. E ele e a Flora beijam-se. Problemas morais à parte, essa é uma memória que fica, a única que fica num mar de memórias que se lhe escapam entre os dedos. E Flora fica fixada nela.

E apesar de o conteúdo da memória dirigir as acções da Flora no decorrer da acção, não é propriamente o mesmo que a guia. É mais o facto de a ter. Pois isso causa uma impressão nela que parte à aventura, procurando ver uma parte do mundo tão diferente; a sua incapacidade dificulta-lhe as coisas, mas a sua resiliência fá-la conquistar os obstáculos mais simples que se lhe põem.

Uma das coisas que apreciei na história e na escrita é a maneira como a autora escreve esta personagem com amnésia. A narrativa é algo fragmentada, com muitas repetições de acções e pensamentos, e por vezes alguns saltos temporais. Pode parecer aborrecido, mas faz incrivelmente sentido para manter o leitor no escuro, tal como a Flora.

Outra coisa a destacar é a dinâmica familiar da Flora. Ela tem um irmão, que está afastado por certas e determinadas razões, e os pais escondem uma coisa que pode afectar a saúde da Flora - e cuja revelação me lembrou de um outro livro que já li este ano. (Se bem que aqui a mentira faz mais sentido e não me fez comichão: a evolução da revelação é natural e credível.) É um pouco distorcida, a dinâmica entre eles, mas assim que descobrimos a verdade, faz muito sentido.

E pensar no mundo que se estende perante a Flora, as oportunidades que terá, é bastante recompensador. Gosto de pensar que o mundo está a seus pés. Pois este é um livro que não é convencional em muitas coisas, e não termina de forma convencional: o que é melhor ainda, pois não infantiliza uma personagem como a Flora e confia nas suas capacidades, e eleva-a a tudo o que ela pode fazer. É inspirador.

Título original: The One Memory of Flora Banks (2017)

Páginas: 288

Editora: Topseller (20|20)

Tradução: Ana Mendes Lopes

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