Gente, toca a ir ver isto. Vão ter de despender 3 horas da vossa vida, vão passar um bocado a aclimatizar-se às histórias, e a tentar perceber o que se passa e o que liga esta gente em tempos e espaços tão diferentes, mas no fim vai ser recompensador e engraçado ligar as 6 histórias, e hão de estar como eu, possivelmente, aqui a escrever a minha opinião e ainda a perceber paralelismos e maravilhar-me com o filme.
Ou então, se preferem acção e explosões e coisas que não vos façam pensar muito, saltem para a sala de cinema do lado e vão ver o Amanhecer Violento ou assim. (E, já agora, que obsessão é esta dos americanos com a violência? Ultimamente é demais. É só filmes em que um bando de tipos pega em armas, toma
uma posição e vai dar tiros aos maus [ou os que eles acham que são os maus]. Mudem de cassete, por favor.)
De volta ao tema. Não li o livro, está na calha - porque a história é tão rica que gostava de ver o que o autor imaginou, e comparar ambos os meios. Sei que a estrutura narrativa do livro encaixa as histórias umas nas outras como uma matrioshka, mas calculo que seja uma coisa que não resulte muito bem em filme, por isso o modo como os criadores decidiram intercalar as várias histórias acaba por funcionar muito bem.
A narração de 6 histórias no mesmo filme é ambiciosa. Dá-nos muito menos tempo para nos ligarmos aos personagens, ou sequer para perceber o que se passa. Mas a existência de temas e percursos comuns torna as 6 histórias numa só, a história de seres humanos a tentar evoluir, melhorar e libertar-se da opressão das circunstâncias e da sociedade. Não é sobre um grande significado da vida. É sobre pequenos gestos, momentos das nossas vidas que têm repercussão através dos tempos, apesar da sua aparente insignificância.
A ideia de usar os mesmos actores nas diferentes histórias acaba por dar uma coesão narrativa interessante. Cria ligações mais significativas entre as histórias, quase como uma corrente kármica de reencarnação, ainda que não literal. E é tão divertido identificar os actores quando lhes mudam a etnia ou o sexo. A Doona Rae como ocidental tem um ar tão exótico. Não reconheci o Jim Sturgess na sua encarnação asiática. E as versões femininas do Hugo Weaving, do James D'Arcy ou do Ben Whishaw são tão engraçadas. A Halle Berry e o Tom Hanks também têm umas transformações curiosas.
Ironicamente, as minhas histórias favoritas são as que acabam menos bem. Gosto muito da narrativa passada em 2144. Agrada-me o seu tom distópico (as possibilidades que este mundo teria para se criar um livro à volta dele) e a viagem de descoberta por que a Somni passa. Também gosto da história do Robert Frobisher, um artista torturado decidido a terminar a sua obra-prima. Uma história passada em 1936, triste e dramática, apertou-se-me o coração por causa do Frobisher e do Sixsmith.
Mas as outras histórias têm também momentos fantásticos. Ri-me muito com as atribulações do Timothy Cavendish (2012)... aqueles idosos são tão fofos, as enfermeiras eram de doidos e a cena do bar foi hilariante. A história do Adam Ewing (1849) é algo comovente, estava mesmo a torcer para que ele sobrevivesse e chegasse aos braços da mulher. Gostei, na história do Zachry (2346), do aspecto pós-apocalíptico, duma escassa humanidade abandonada na Terra. O dialecto era bem giro, e o cenário era magnífico, quando sobem as montanhas. A história da Louisa Ray (1973) foi a que menos me interessou, o género thriller/mistério que toma interessa-me menos, mas gostei de como liga à história anterior, do Frobisher e do Sixsmith.
Os cenários são magníficos. Adorei a ilha do Pacífico e o navio em que o Adam Ewing viaja, gostei muito da Neo Seoul de 2144, e da ilha do Havai em que o Zachry vive em 2346. As caracterizações, também já disse, são impressionantes, ainda que não perfeitas (a textura da pele de algumas próteses era estranha), mas também são divertidas (já falei dos actores masculinos que viram mulher, mas também o Tom Hanks de 2012 é bem engraçado).
Também já falei do quanto o filme me pôs a pensar. Há uma riqueza de pormenores, detalhes e motivos que se repetem, e um monte de coisas que gente mais habilidosa que eu já pôs por aí na net, é só procurar. Mas acho que vale a pena espreitar o filme e verem por vocês próprios.
















