segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Curtas: Mixórdia de Temáticas, Baby Blues, Inside HBO's Game of Thrones

Mixórdia de Temáticas, Ricardo Araújo Pereira
Um livro que compila os argumentos da rubrica com o mesmo título da Rádio Comercial, o que é em si a força e a fraqueza do livro. Fraqueza porque os textos foram claramente para ser lidos em voz alta, encenados, e lidos simplesmente não têm tanta piada.

No entanto, ajudou eu ler apenas alguns por dia, e a força do livro foi por um lado eu ter presente a voz dos locutores intervenientes, que me ajudava a imaginar as vozes em cada texto; e por outro lado houve alguns textos que me pus a ler em voz alta à minha irmã, tentando imitar os tons e timbres, o que deu pelo menos uma sessão de risota pela parvoíce.

O humor presente é o típico do autor, por isso quem conhece sabe ao que vai. A sua análise é por vezes muito certeira, e aponta certos problemas com um humor impagável, revirando a situação duma maneira que é impossível não rir. Recomenda-se, mas em doses pequenas e com a noção de que estes textos são mesmo para serem representados. Melhor mesmo é ouvir os podcasts ou ver os vídeos no YouTube.

Cama Supra, Rick Kirkman, Jerry Scott
aqui falei bastante de Baby Blues, e não sei que mais posso dizer. Gosto bastante deste tipo de álbum de tiras, e aprecio que continuem a publicar algumas coisas deliciosas. Só não leio mais porque não há mais disponíveis em português. No caso de Baby Blues, a editora tem feito um trabalho notável a publicar os livros que recolhem as tiras diárias, estando praticamente actualizados com o que está publicado em inglês.

A piada das tiras é mesmo a vida familiar de Wanda e Darryl MacPherson, e dos seus três filhos, Zoe, Hammie, e Wren. A Zoe e o Hammie estão em idade escolar, o que permite muitas piadas à volta disso, e a volta da relação fraternal, das partidas que fazem um ao outro e das rivalidades normais para um par de irmãos. Já a pequena Wren está numa fase de desenvolvimento muito gira, entre aprender a andar e falar, e também gera algumas tiras engraçadas, especialmente com os irmãos.

Por outro lado, os autores equilibram a oferta com tiras sobre o Darryl e a Wanda, sobre como ele se esquece às vezes da trabalheira que os miúdos dão, ou sobre como os dias são um vendaval para ela. Também há tiras em que tentam sair sozinhos (e preocupam-se com os miúdos a cada minuto), ou sobre como se sentem um pouco desactualizados em relação aos filhos, à tecnologia e à cultura popular.

É fascinante como a vida familiar não deixa de conseguir gerar piadas e situações engraçadas, e continuo cativada por esta família e os pequenos dramas e comédias do dia-a-dia. A única coisa que me resta apontar é que os miúdos estão estagnados em termos de idades há alguns livros... este é o 5º livro de Baby Blues que opino aqui no blog, e ainda não cresceram praticamente nada; espero que brevemente possa vir a ver a Zoe a passar para o 5º ano, numa nova escola, ou a Wren a começar a falar mais.

Este volume acompanha as primeiras duas temporadas da série que adapta os livros do George R.R. Martin. (Recentemente saiu um volume que acompanha as temporadas 3 e 4.) Dividido em capítulos que agregam núcleos do elenco por local geográfico, explora em cada capítulo os personagens, locais e acontecimentos importantes das duas temporadas.

Por um lado, é um volume magnífico. A encadernação é muito boa, robusta, o design das páginas é de encher o olho, é profundamente ilustrado com fotografias, e faz um bom trabalho em apresentar pequenos detalhes sobre o mundo, o que é muito útil para quem viu a série mas não leu os livros. (Ou quem, como no meu caso, leu há algum tempo e precisa de refrescar o conhecimento sobre este mundo.) Também apresenta muito bem a perspectiva dos actores sobre os seus personagens e dos produtores da série sobre como é filmar algo tão grandioso, dando alguns detalhes curiosos sobre as escolhas de produção.

Por outro lado, sabe a pouco. É provavelmente um livro melhor para os fãs da série que para os dos livros. Cada personagem, local ou acontecimento é explorado com alguns comentários dos membros do elenco e da equipa relevantes, só que os comentários parecem tirados de uma entrevista, sem conexão entre si; quase preferia ver o DVD das entrevistas.

Além disso, adoraria ter visto melhor explorados os aspectos de produção, o como se fez, no que toca a locais, vestuário, efeitos especiais, etc.. Além disso, por vezes as fotografias ocupam duas páginas e não tinham claramente resolução para tal, porque ficam com pouca definição - é uma pena, porque muitas valeriam a pena observar ao detalhe.

sábado, 20 de dezembro de 2014

All Broke Down, Cora Carmack


Opinião: Cora Carmack, já te topei. O teu primeiro livro duma série é sempre divertido e fofinho, e depois nos seguintes, quando já cativaste o leitor, pegas em todas as armas emocionais ao teu dispor e disparas com toda a força... até tenho medo do que esperar para o terceiro livro. Bem, talvez não para o terceiro, que será dum personagem bem divertido, mas se o quarto for o livro prometido para a Stella e o Ryan, então, sim, prevejo que vou morrer do coração.

Adiante. Este é o livro dum casal no mínimo inesperado. Temos a Dylan, que cresceu educada por uma "boa família", e que é apaixonada pelo seu trabalho em activismo, mas que vai parar à prisão durante um dos protestos em que participa. E temos o Silas, bad boy residente, líder na equipa de futebol americano, mas que devido a uma luta vai parar à prisão, e cujo comportamento pode emperigar a sua posição na equipa.

Acho que o mais interessante na jornada que ambos partilham é que apesar de terem percursos diferentes, e perspectivas diferentes sobre eles, a Dylan e o Silas acabam por ter o mesmo tipo de problema a enfrentar, e torna-se duplamente interessante ver como cada um lida com isso. A Dylan focou-se em ser a menina perfeita para compensar um passado difícil, sem se permitir tempo para respirar; o Silas contentou-se com a fama que tem e nunca espera ser melhor que o seu passado, e por isso nem tenta.

E por isso, o retrato psicológico que a autora faz dos dois é impressionante, e cativante. É possível compreender porque é que a Dylan se sente insegura quanto ao que tem na vida, querendo sempre provar que o merece; no entanto, o retrato do Silas é ainda mais fascinante. No primeiro livro ele parecia apenas um bocado idiota, e feliz por assumir o papel. Aqui, é possível ver por trás da fachada, e é até aflitivo perceber a extensão da falta de auto-estima dele quanto ao seu passado e à sua origem, e em como acredita não poder ser melhor, nem merecer melhor.

Acaba por ser delicioso ver como as suas perspectivas distintas quanto à vida os desafia mutuamente para fora da zona de conforto de cada um, e de como isso os ajuda a entender melhor as suas dificuldades e a perceber que podem querer, e alcançar, coisas bem diferentes do que até então tinham projectado. É tão bom vê-los terminar num melhor estado do que aquele em que começaram. Além disso, como casal são absolutamente explosivos e têm uma bela química.

Uma coisa que percebi que até gosto mesmo muito é o cenário da equipa de futebol americano. Eu posso não perceber uma ponta de futebol americano, mas bolas, aquilo parece tremendamente excitante. Contudo, o melhor mesmo é o ambiente entre as pessoas que jogam e treinam a equipa, entre os treinadores e os jogadores (balneários cheios de testosterona, how exciting), como se forma ali uma família: podem ser chatos de aturar, mas são a nossa família, e estão connosco para o bem e para o mal.

Lembra-me quando via Friday Night Lights (se o Carson será um Matt, que até anda com a filha do treinador e tudo, o Silas é totalmente o Tim Riggins), cujo foco não era exactamente no futebol, mas mais nas relações humanas e nas emoções daquelas pessoas que navegavam em torno do futebol. A sensação de camaradagem e rivalidade entre os jogadores é bem engraçada, e os personagens vão-se revelando aos poucos.

O final deste livro traz uma situação complicada, acerca de cujo timing eu não estou certa que seja o melhor (percebo porque aconteceu, e de certo modo faz sentido, mas creio que narrativamente falando devia vir um pouco antes), todavia é uma adição muito boa por parte da autora, porque é infelizmente uma situação que se vê vezes de mais, e a maneira como se lidou com ela fez-me pelo menos ter orgulho das pessoas que estão à frente da equipa.

O próximo livro promete pelo menos ser divertido, porque o protagonista é o Torres, que parece ser um grande maluco, e a protagonista é a Nell, que é toda estudiosa e certinha. Vai ser volátil. O livro seguinte, que espero que a autora possa vir a publicar (ainda não tem contrato), seria sobre o Ryan, que é adorável, por isso pergunto-me qual será a sua história, e a Stella, que tem um caminho duro e difícil à frente, mas a autora tem aqui uma grande oportunidade para um desenvolvimento de personagem fantástico, e espero que não o deixe escapar.

Páginas: 368

Editora: William Morrow (Harper Collins)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Landline, Rainbow Rowell


Opinião: Eu tencionava mesmo esperar pelo novo ano para ler este livro, em particular tencionava esperar pela edição semelhante às minhas outras da Rainbow, mas que se lixe, não resisti. Percebi que valia a pena aproveitar esta edição, a que chamam edição internacional, e que é bem grande e baratinha. Além disso, encaixa perfeitamente no meu mini-desafio de leituras natalícias, e tem o bónus de eu ter acabado por ler toda a obra publicada da autora este ano, por isso juntou-se o útil ao agradável.

Depois de ter a oportunidade de ler toda a sua obra, creio que uma das melhores coisas da Rainbow Rowell, possivelmente a que mais me cativa, é a maneira como ela escreve os seus personagens e as relações entre eles. Não importa o ponto em que estejam na vida, ou o tipo de problemas que enfrentam, ela escreve-os de maneira tal que é tão fácil empatizar com eles, compreender aquilo por que passam, e acompanhar a sua evolução.

É fascinante. Já tive oportunidade de acompanhar um primeiro amor e problemas familiares (Eleanor & Park), a saída da zona de conforto ao entrar para a faculdade (Fangirl), o firmar da vida adulta, entre trabalho e amor (Attachments), e agora de ler sobre um casamento em crise (este Landline). E sendo possivelmente aquele com o tema mais afastado das minhas vivências, não pude deixar de imergir na vida dos personagens, analisar as suas decisões de vida, e entender o que correu mal.

Georgie McCool é argumentista de televisão em Los Angeles, e tem finalmente a oportunidade por que tanto esperou: a de ter a sua própria série produzida. Mas isso implica que fique em LA durante o Natal, quando a família já tinha planeado visitar os pais do marido, Neal, durante as festas. Neal parte para o Nebraska com as filhas de ambos e sem Georgie, deixando-a a perguntar-se se o seu casamento não terá chegado ao fim.

Um ponto bem interessante na história é a ideia detalhada que dá da relação da Georgie e do Neal. Através de flashbacks acompanhamos o nascer da sua relação, e os pontos importantes da mesma, os altos e baixos, as suas personalidades, o que os atrai e afasta, as suas qualidades e defeitos, e é uma descrição fascinante, porque não se podem apontar dedos.

São precisos dois para dançar o tango, e um casamento é um encontro de partes a meio do caminho. Tanto um como o outro têm algum tipo de responsabilidade no caminho que tomaram e ao ponto a que chegaram. Georgie é deleixada e alheada, não só com o marido, mas também consigo própria, contudo sempre o foi, mesmo antes do casamento, assim como sempre foi trabalhólica. O Neal é um doce de pessoa, mas nunca teve objectivos claros, e é péssimo a comunicar. O resultado é este impasse que faz perguntar se o amor chega para manter estas duas pessoas juntas.

A questão do telefone "mágico" é curiosa. Não interessa tanto o como ou o porquê, apenas a maneira como afecta a Georgie no seu percurso. O telefone é apenas um meio para ela se aperceber do estado a que o seu casamento chegou, e para lembrá-la do amor que sente pelo Neal, e do bom que o casamento lhes trouxe, e para a ajudar a perceber o que fazer agora.

Depois de o Neal partir com as meninas, a Georgie não consegue perceber o que aconteceu, se acabou tudo, e por isso fica algo descontrolada, o que gera algum tipo de interacções engraçadas - com os que estão à sua volta e com o telefone. No entanto, a coisa que mais me fascinou acerca do telefone é o modo como no fim de contas aquele pequeno loop temporal acabou por encaixar perfeitamente. (Gosto muito de histórias que mexem com a linha temporal, mas tem tudo que fazer sentido.)

Dos personagens secundários, destacaria as miúdas da Georgie e do Neal, a Alice e a Noomi, que são tão fofas, particularmente a Noomi, que cumprimentava as pessoas com "miaus"; ou o Seth, o parceiro de escrita da Georgie, e um daqueles tipos que acha que é a melhor coisa do mundo, e por isso foi tão divertido vê-lo entalado numa espécie de existência Peter Pan.

Destacaria também a família da Georgie, cheia de pequenas idiossincrasias bem engraçadas - gostei especialmente da irmã Heather, que por ser tão mais nova tem uma perspectiva de vida tão diferente, e consegue mesmo assim ser uma personagem tridimensional e interessante. (E já agora, adorei o momento do parto da cadela da mãe da Georgie. Hilariante.)

Gostei bastante do fim, porque obriga a Georgie a perceber umas coisas que lhe tinham passado completamente ao lado, e porque a faz perceber o que é realmente importante, e que às vezes o "grande gesto" tem um certo peso. Não é tudo perfeito, não nos é prometido um felizes para sempre, porque a vida real não funciona assim, mas creio que o que nos é dado chega, uma vontade de fazer melhor e de fazer resultar as coisas. É tudo o que posso pedir.

Entre as pequenas coisas que me frustraram, destacaria a personalidade da Georgie. Primeiro, porque o Neal vai de férias com as miúdas, e ela começa logo a fazer um grande filme, sem saber exactamente o que é que ele tem em mente. Depois, porque ela é tal e qual um gatinho recém-nascido, é incapaz de cuidar de si própria. Não se lembra de comprar roupa nova quando precisa, não sabe cozinhar nem para se salvar, não anda com uma carteira sequer (só um cartão de crédito e a carta de condução no porta-luvas do carro, que me parece super-bizarro, mas enfim) e quando vai à aventura no fim do livro, vai completamente despreparada, e era capaz de morrer congelada se não fossem dois bons samaritanos.

O Neal também é um bocadinho frustrante por um lado por andar ali à deriva em 1998, e nunca saber bem o que quer da vida. Era um bom cartoonista, aparentemente, e tenho pena que nunca tenha tentado profissionalizar-se. Seria algo bastante compatível com a sua vida em 2013. Por outro lado, ele é mesmo introvertido, e nunca abre a boca, e é impossível perceber o que lhe vai na cabeça. Não sei se teria resultado, mas gostava que ele tivesse deitado cá para fora as suas frustrações para com a Georgie, não me parece nada saudável guardar tudo lá dentro. Suponho que já ficava contente se pudesse ler qualquer coisa do ponto de vista dele.

E falei dos bons samaritanos ali em cima: eu sabia que o livro tinha um cameo de personagens do Fangirl, mas durante a leitura e quando cheguei à parte que aparecem nem me lembrei disso. Sabia que me eram familiares, e que eram importantes de algum modo, mas só cheguei lá bem depois de terminar este livro. Sou uma esquecida. Contudo, até foi engraçado, ler essa passagem sem ideias pré-concebidas.

Em suma, é um livro delicioso, muito ao estilo da autora, e quem é fã vai provavelmente gostar, quem não conhece, também não recomendaria começar por este. (O melhor para começar mesmo é o Eleanor & Park, que por acaso até vai sair em português em Janeiro. *winkwink* Depois, talvez o Fangirl.) É uma história bastante realista, e mesmo quando os personagens me irritavam um pouco, era impossível não os compreender, ou perceber o que estavam a passar. O ponto forte da autora é escrever bem sobre os tons de cinzento que constituem a vida, e este é só mais um bom exemplo disso.

Páginas: 320

Editora: St. Martin's Press (MacMillan)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A Revelação, Lissa Price

Sinopse

Opinião: Em retrospectiva, relendo a minha opinião do primeiro livro desta duologia, foi uma história que gostei (não amei), mas que tinha alguns problemas fundamentais que me deixaram na dúvida. Aliás, foi por isso que levei tanto tempo a ganhar coragem para adquirir o livro e lê-lo. Tinha curiosidade em saber o que vinha a seguir, mas não confiava na capacidade da autora para o executar em condições. Pois bem, os meus instintos revelaram-se correctos, para grande pena minha.

Primeiro, temos a Callie. Uma miúda que me agradou no primeiro livro, porque tomava opções ousadas, e era corajosa e determinada e desenvolta. Não sei para onde é que ela foi neste livro. Eu andava há tempos a queixar-me que a Layla do Stone Cold Touch era a heroína mais too stupid to live que eu jamais tinha encontrado, mas não te preocupes, Layla, já tens companhia. O que é mais grave quando a Callie parecia ter pelo menos dois dedos de testa no livro anterior.

É que se torna ridículo. A Callie atira-se para as situações de cabeça, sem pensar no perigo que advirá delas; a Callie confia num tipo que acabou de conhecer só porque ele lhe diz "não te preocupes, eu odeio o mauzão tanto como tu"; a Callie descobre algumas verdades difíceis sobre alguém, que a fazem questionar os seus motivos, e em que a reacção normal seria mandá-lo dar uma volta, mas não, a Callie acha boa ideia voltar a confiar nessa pessoa. Não há uma única decisão razoável tomada pela Callie neste livro.

Quando é ela a tomar decisões, porque que grande parte das vezes parece que é a acção a arrastá-la a ela, em vez de ser ela a determinar o curso de acção. Demasiadas coisas acontecem na história que não têm explicação ou sentido, que não determinam a evolução da narrativa, que nada fazem para a alterar.

O enredo, simplesmente, parece que não tem pulso, que a autora não lhe tomou as rédeas e o levou para onde fazia sentido, para criar uma história coerente. Parece que se limitou a adicionar cenas que lhe pareciam giras, sem pensar se fariam realmente sentido no grande esquema da história. As fraquezas de Lissa Price no primeiro livro, na criação do enredo, pioraram, em vez de melhorarem. Seria de esperar que quanto mais se escreve, mais se aprende a escrever; Lissa parece que desaprendeu com este segundo livro.

E sobre o Hyden, um novo personagem... que hei eu de dizer, e que não seja spoiler ou me dê vontade de atirar o livro pela janela? Ugh. É um personagem ridículo na sua concepção. Há a coisa de a Callie confiar imediatamente nele, apesar de admitidamente ter ligações ao vilão. Há a questão de insta-love, em que de repente eles estão aos beijinhos e abraços sem termos direito a ver sequer uma relação ser desenvolvida entre eles.

Há o problema de ele estar relacionado com os acontecimentos do primeiro livro, com motivos e ética questionáveis. Mas não, a Callie volta a confiar nele, afinal ele tinha boas intenções, não importa que os métodos que usou sejam eticamente errados, e que se tenha aproveitado de um monte de pessoas, pois estava só a tentar ajudá-las, coitadinho do rapaz. *facepalm* E questiono muito a ciência da "condição" dele, e da sua evolução.

Falta-me falar do Michael, sobre o qual foi sugerido no primeiro livro, e até neste, que gostava da Callie, e que tinham alguma química. Não esperava que ficassem juntos, porque não tivemos suficientes cenas que o sugerissem, mas esperava que a situação fosse ao menos abordada directamente entre os dois. Nem que fosse para concordarem em manterem-se amigos.

Porque assim, não faz sentido ele ter sido desenvolvido como potencial interesse amoroso. Mais valia que fosse apresentado como um bom amigo desde o início, e ser assim como que a prova que um rapaz e uma rapariga também podem ser amigos, sem romance pelo meio. E também preferia que o Michael não fosse afastado da narrativa cada vez que não dá jeito ele ali estar, ou quando a Callie precisa de um babysitter para o irmão Tyler.

Quando ao final, credo, tanta parvoíce. Os protagonistas descobrem onde está o vilão, e vão-se meter na toca do lobo, sem planos, sem apoio, sem nada. Andam a correr pelo quartel-general do vilão como galinhas, sem rumo, sempre a tropeçar nos malfeitores, a serem apanhados, e a safarem-se de maneiras estupidamente fáceis.

Se os vilões fossem realmente competentes, metade daquela gente estava morta. (E se não o fossem, já deviam ter sido derrotados há muito.) E para cúmulo, num verdadeiro deus ex machina, a Callie consegue meter-se a fazer uma coisa extremamente difícil, com sucesso, sem qualquer treino, que nunca tinha conseguido, e que só tinha experimentado fazer duas ou três vezes.

Para terminar, li o livro porque queria mesmo saber como acabava. A autora apresentou bons pontos suficientes no primeiro livro para manter o meu interesse, e achei que valia a pena continuar a série. Não estava com grande fé que fosse melhor que o primeiro, mas não esperava que fosse pior, e muito mais frustrante.

O que é verdadeiramente trágico, porque a premissa da série tem potencial para discutir questões éticas e morais muito interesssantes, tanto no que toca à guerra química, e à utilização das vacinas dos esporos, como no que toca à tecnologia dos chips de ocupação de outros corpos. No entanto, esse potencial nunca é completamente explorado, e diria que aqui é totalmente abandonado, infelizmente. Não é uma série que vá deixar saudades, e não é de todo uma autora a que queira regressar.
P.S.: Oh meu Deus, mas que capa é esta??? A primeira capa era gira, mas esta é um horror. Minha gente, modelos com raccoon eyes e cabelo esvoaçante não fazem boas capas.

Título original: Enders (2013)

Páginas: 280

Editora: Planeta

Tradução: Catarina F. Almeida

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O Diário da Princesa I e II, As Lições da Princesa, Meg Cabot

Meg Cabot

Título original: The Princess Diaries (2000) / The Princess Diaries II: 
Princess in the Spotlight (2001) / Princess Lessons (2003)

Páginas: 250 / 232 / 144

Editora: Bertrand

Tradução: Mário Dias Correia / Mário Dias Correia /
Irene Daun e Lorena, Nuno Daun e Lorena

E pronto, chego finalmente à série do Diário da Princesa para o meu desafio pessoal Meg Cabot. Que saudades. Saudades desta gente toda, das neuroses da Mia, das esquisitices da Grandmère, dos dramas da Lily... bons tempos.

O primeiro livro conta como a Mia descobre que o pai já não pode ter filhos, e sendo o monarca de Genovia, ela é a sua herdeira, e por isso princesa de Genovia. Adoro a reacção da Mia à notícia: qualquer outra rapariga adoraria descobrir ser uma princesa, mas ela passa-se dos carretos. Já não lhe bastava ser uma anormal com um metro e oitenta e sem peito (palavras dela), agora é uma anormal princesa.

E portanto, a reacção dela a tudo isto, e ao que a sua nova posição implica, é divertidíssima. O tentar esconder de toda a gente, o choque quando tem de receber "lições de princesa" da Grandmère, o ter de andar com um guarda-costas atrás... a sua vida não mais será a mesma.

Por outro lado, a Mia tem muitas outras coisas com que se preocupar, e por isso não admira que seja uma miúda à beira de um ataque de nervos. Primeiro está a chumbar a Álgebra, depois a mãe começa a andar com o seu professor de Álgebra, e além disso, a miúda má da escola - a Lana Weinberger - faz-lhe a vida negra.

Para não falar de que está a desenvolver uma séria paixoneta pelo irmão da melhor amiga, Lilly - além de que esta não compreenderia a coisa de ser princesa. Hmm, e já no primeiro livro as duas têm uma zanga das boas.

O segundo livro foca-se mais no ajuste da Mia à coisa de ser princesa, pega na sua primeira entrevista (que podia ter corrido melhor), e ainda é marcado pela notícia de que a mãe da Mia está grávida do professor Gianini, e que se vão casar.

Entretanto, a Grandmère mete na cabeça que há de organizar o casamento em menos de uma semana, o que leva a Mia à loucura. Nem tudo é mau, no entanto: Mia tem um admirador secreto, e não faz ideia de quem seja. (Mas sabe quem gostava que fosse.)

Foi muito bom rever a história dos livros, e relembrar muita coisa que já estava esquecida. E reparar, em retrospectiva, já sabendo como as coisas acabam, numa série de coisas ou pistas plantadas desde o início. A amizade de Mia e Lilly já desde o início que mostra como é frágil.

A própria Mia tem pânico de dizer à Lilly que é uma princesa, porque a Lilly não compreenderia. Se a Lilly fosse sua amiga, e se a Mia confiasse na Lilly como sua amiga, não haveria este problema. E discutem pelas coisas mais parvas, como a mudança de look e estilo da Mia, o que era uma pista sobre como não estavam destinadas. Sempre achei a amizade delas um pouco estranha, e vi que tinha razão, mais à frente.

Por outro lado, a fofa da Tina é uma miúda que faz clique com a Mia mal começam a falar, têm gostos e feitios mais semelhantes, e é uma delícia vê-las tornarem-se amigas. Aliás, é muito bom ver o grupo que se forma em torno da Mia, que vai crescendo aos poucos, à medida que largam os preconceitos e vão entrando novas pessoas.

Já a mãe da Mia, bem, aquela mulher é um perigo. Quero dizer, anda com o Frank Gianini umas semanas ou meses, e vai engravidar acidentalmente dele? *facepalm* Não que as coisas não tenham corrido bem para o lado deles (são um casal adorável, e o puto também), mas é um pouco irresponsável.

Quanto ao Michael, caramba, apetece-me bater-lhe. Aquele rapaz gosta dela desde o início, e não é capaz de a convidar para coisa nenhuma, céus! Primeiro é ultrapassado pelo pateta do Josh Richter, depois o Kenny Showalter mostra-se mais romântico com a coisa do admirador secreto.

E não é que o Michael não dê pistas - canta à Mia, no fim do primeiro livro, uma música que pela descrição dela é sobre os dois, e sobre gostar dela. (Só que a Mia não percebe a pista.) Michael, querido, não te apaixonaste pela Mia por ser esperta. Tens de ser mais óbvio, por favor.

Quanto à própria Mia, gosto tanto da maneira como o diário está escrito. Ela fazia imensas listas, e incorporava coisas que escrevia para a aula de Inglês, o que se tornava divertido de acompanhar. E a Mia fartava-se de dar calinadas, sem vergonha nenhuma, e é divertido tentar descobrir as trocas e baldrocas que ela faz. Além disso, o escrever no diário quase em tempo real, escrevendo aula a aula, se preciso fosse, para relatar o que tinha acabado de acontecer, dá um imediatismo à história que a torna bem mais real.

Gosto muito do tradutor destes livros iniciais, o Mário Dias Correia, porque no geral toma umas opções de tradução fantásticas (a revisão é que é fraquinha), e não se inibe de fazer notas se achar que é preciso explicar algumas das referências que a Mia faz. E melhor, faz as notas num tom deliciosamente divertido, que é muito giro de acompanhar.

Detestei quando os livros passaram para os tradutores seguintes, que salvo erro são os do As Lições da Princesa (Irene e Nuno Daun e Lorena). Lembro que dava a sensação que nem se deram ao trabalho de ler os livros anteriores, e que mudaram uma série de opções deste tradutor que deviam absolutamente ter sido mantidas.

Quanto ao As Lições da Princesa, é um livro complementar, não essencial à história. Tenciono ler as novelas e contos e livros complementares todos da série, se puder, e achei que podia pegar logo neste, já que mais para a frente aparecem muitos destes livros ao mesmo tempo.

É um livro engraçadinho, escrito pela Mia e pelos que a rodeiam, sobre vários assuntos que devem ser abordados nas ditas lições - etiqueta, moda, carácter, educação, ... é um complemento bem giro, pela contribuição de tantos personagens da série, e que reflecte bem as personalidades de cada um. Além disso, o livro é de boa qualidade. A minha edição, em português, tem capa dura, e o papel é melhor que os outros livros da série, não estando praticamente nada amarelado, ao contrário dos outros livros.