sábado, 31 de outubro de 2015

Este mês em leituras: Outubro 2015

Mais um mês que termina. Um mês calminho, no que toca à minha vida literária, mas ainda assim agitado na vida real. Como sempre, lá vou gerindo a coisa conforme posso, e aproveitando os momentos livres para ler, ou descansar e fazer outras coisas, quando a vontade me leva nessa direcção.

Livros lidos

Falta o livro de contos da Meg Cabot, que é um e-book.

Opiniões no blogue

  • Queen of Shadows, Sarah J. Maas;
  • Meg Cabot: Boy Meets Girl, Every Boy's Got One;
  • Harry Potter e a Câmara dos Segredos, J.K. Rowling;
  • Curtas: Poderosos Heróis Marvel: Capitão América: Sonhadores Americanos, Ed Brubaker, Steve McNiven, Giuseppe Camuncoli, Travis Charest, Ed McGuinness, Frank Tieri, Paul Azaceta; Wolverine: Ilha da Morte, Frank Cho; Demolidor: Partes de um Todo, David Mack, Joe Quesada, David Ross;
  • Imunidade, Eula Biss;
  • Every Word, Ellie Marney;
  • Curtas: BD: The Unbeatable Squirrel Girl vol. 1: Squirrel Power, Ryan North, Erica Henderson; Batwoman vol. 3: World's Finest, J.H. Williams III, W. Haden Blackman; Batgirl vol. 3: Death of the Family, Gail Simone, Daniel Sampere; Hawkeye vol. 4: Rio Bravo, Matt Fraction, David Aja, Chris Eliopoulos, Francesco Francavilla;
  • Volta Para Mim, Mila Gray/Sarah Alderson.

Os livros que marcaram o mês

  • Harry Potter e a Câmara dos Segredos, J.K. Rowling - oh, descobri que gosto mais deste livro do que me lembrava... é mais sério e escuro do que lhe dava crédito, e adoro o mistério em torno da Câmara dos Segredos;
  • Imunidade, Eula Biss - surpreendentemente, gostei da abordagem da autora ao tema, e as ideias que traz à area;
  • Every Word, Ellie Marney - este livro, esta série e esta autora acertam em todos os items de uma checklist imaginária sobre coisas que eu gosto de ler, fazendo de mim uma fã incondicional e ligeiramente histérica;
  • Hawkeye vol. 4: Rio Bravo - é o fim desta série, e terminou com um estoiro... vou ter saudades.

Aquisições

As aquisições de ficção do mês. Uma série de livros muito esperados (Six of Crows, Carry On, The Rose Society), mais uns quantos que me deixam curiosa, e não podia resistir a ter a edição portuguesa do Trono de Vidro, um dos meus favoritos.

As aquisições de BD do mês, com livros da colecção Poderosos Heróis Marvel, e o primeiro livro duma colecção nova em estilo fascículos da Salvat (a Colecção Oficial de Graphic Novels Marvel). Mais o segundo livro de Lumberjanes, e uns livros da Panini Brasil que vi à venda na Fnac, e por isso quis espreitar.

A ler brevemente

Livros a ler para o próximo mês: alguma BD que adquiri este mês; Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, para o meu desafio improvisado de releitura da série; os livros da Meg Cabot, para o meu desafio da autora. Junto ali mais umas aquisições do mês, e estou com esperança de ler o Winter, que sai este mês, e o Saga vol. 5, que me está quase a chegar, creio eu.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Volta Para Mim, Mila Gray/Sarah Alderson


Opinião: Estou contente por finalmente ver um livro da Sarah Alderson em português (Mila Gray é um pseudónimo), ainda que gostava tanto que publicassem o Hunting Lila. Esse livro era fabuloso. Contudo, as editoras portuguesas descobriram foi a onda New Adult, e como podem vender estes livros como um qualquer romance, lá terá de ser assim.

Estava a pensar no que havia de escrever para esta opinião e não me ocorria nada. A sensação geral com que fiquei depois da leitura foi de que foi giro, e tal, mas não deixou marcas, não mudou o meu mundo e não fez de mim uma totó que acha que nunca poderá ler mais nada, porque mais nada se comparará. Eu sei que nem todos os livros podem ser assim, e há muitos que não sendo assim ainda me agradam muitíssimo, mas deste ficou uma sensação geral de "meh".

O problema é que aprofundando a coisa, ele tem tantos ingredientes que me agradam, que eu gosto de ver numa história, que gostei de ver nesta história, que é quase paradoxal este sentido de quase-indiferença.

Ora vejamos: os protagonistas começam a história cientes da atracção entre ambos, e não andam a dança à volta da coisa. Agem de acordo com essa atracção. Gosto quando os casais de um romance (e consequentemente, a autora do livro) não andam a engonhar, e foi delicioso simplesmente poder acompanhar a "corte" do Kit e da Jessa, sem grandes dramas.

Depois: gostei do uso dos militares na história. A forma como isso condiciona o romance dos protagonistas, como afecta o pai de Jessa - foi bastante impressionante, ver o comportamento dele, que apesar de nunca ser violento fisicamente, era-o psicologicamente, e deixava toda a gente aterrorizada de pôr um pé fora da linha. Achei interessante ver como ele tentou sair dessa, finalmente, pela sua família, e como a tragédia o ajudou a ganhar juízo. Ainda na mesma linha: como a relação da Jo e do Riley é afectada pelo serviço militar dele. Surpreendentemente fiquei fã destes dois.

Gostei da introdução de uma certa tragédia e de como condiciona o comportamento dos nossos personagens. (Ainda que fosse bastante óbvio como ela ia resultar, por isso o suspense não era necessário.) Gostei de acompanhar o longo caminho até à recuperação, à superação, ainda que preferisse que esta secção fosse mais longa. Houve partes com saltos temporais que eu gostaria de ter visto preenchidas.

Ponto bónus: a mãe do Kit era portuguesa, e ensinou-lhe a fazer pastéis de nata. Quase morri de animação ao ver este detalhe.

Pontos negativos da edição: por amor da santa, paremos de comparar todos os romances à Nora Roberts ou ao Nicholas Sparks (no caso deste livro). Não tem nada a ver; o campo do romance é tão vasto que estamos a comparar alhos com bugalhos.

Ponto negativo para a tradução: credo, acho que nunca mais ponho as mãos num livro traduzido por esta senhora. Dei conta de várias frases traduzidas à letra, em vez de traduzir o contexto; traduz coisas que não devia, como "Madonna" (nome artístico) para "Madona" (até me atirei para o chão com esta), ou "Portia" (do Mercador de Veneza) para "Pórcia" (ainda que perceba se houver historial de se traduzir o nome nas traduções da peça, tenham paciência, traduzir nomes próprios é normalmente feio e errado).

E por fim, compreende muito mal o público-alvo. Traduz aquilo que eu agora sei que deve ser "Second Coming" por "Parúsia". Tive de ir ao Google para esta. O que havia de errado em pôr "Segunda Vinda de Cristo"? Ao menos a expressão é auto-explicatória, e evita-se usar um termo obscuro que pouca gente vai saber o que é. Só complica a vida ao leitor, em vez de lha facilitar, como era suposto que a tradução fizesse. Enfim. São estas as parvoíces que eu tenho de aturar. Não admira que eu passe a vida a queixar-me dos tradutores em Portugal.

E por isso, em suma, vê-se que foi realmente uma leitura normal, na média, ainda que tenha feito várias coisas que me agradaram bastante. Continuo a gostar da Sarah Alderson, ainda que pense que ela tem mão mais apurada para outras coisas; de qualquer modo, as capacidades dela deram para escrever uma história que me entreteve, e gosto de como ela pensa a escrever a sua história, notando-se isto mesmo assim aqui.

Título original: Come Back to Me (2014)

Páginas: 304

Editora: Presença

Tradução: Manuela Madureira

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Curtas: BD

Oh, céus, isto é tão divertido. Boa aposta, Marvel. Não é muito usual as grandes editoras de BD apostarem neste género de coisa, tão fora da caixa, e pelo menos não me recordo de ter lido sequer algo neste estilo - por isso, foi uma bela oportunidade e uma boa surpresa.

A Doreen Green é adorável, na sua dedicação aos seus amigos esquilos e no modo como vê o mundo. Gosto que ela tenha uma visão tão positiva do mundo, que seja tão determinada, e mais importante - resolve os problemas e conflitos a discutir as coisas, antes de partir para a porrada. (A não ser quando saca a armadura do Homem de Ferro e a refaz à sua imagem. Brilhante.) Dois dos vilões que enfrenta ela "derrota" a argumentar com eles. E um é o Galactus. Fantástico.

Também gostei bastante da amiga e companheira de quarto da Doreen, a Nancy, graças à sua dedicação ao seu gato e a fanfiction do Cat Thor. O sentido de humor é brutal (adorei a música-tema da Squirrel Girl). Já a arte é engraçadita, toda cartoonesca, no geral divertida, mas não sou fã das caras. (São sempre as caras que me lixam.)

Pontos bónus para a edição, que tem uma profusão de capas, e o material que vem normalmente nas revistas - as cartas dos leitores, bem divertidas por sinal. Além disso, este volume tem a história com a primeira aparição da Doreen, também bem engraçada, com o Homem de Ferro, e a derrota do Dr. Destino às mãos de... esquilos.

Batwoman vol. 3: World's Finest, J.H. Williams III, W. Haden Blackman
Acho que tinha dito no comentário ao volume anterior que estava um pouco aborrecida com a história, porque não se conseguia fazer um puzzle coerente nem encontrar interesse na coisa, e que o que me mantinha a ler o livro era a personalidade da Kate e as peripécias que lhe acontecem - pois bem, plot twist, conseguiram recaptar a minha atenção.

Oh, a mitologia aqui toma um rumo muitíssimo interessante e as coisas finalmente fazem algum sentido, e por isso adorei seguir o desenvolvimento do enredo. A isso não é estranho terem introduzido fortemente mitologia grega (a minha pancada por mitologia revela-se), e juntado em equipa a Kate com a Wonder Woman. As duas a trabalhar juntas fazem uma equipa fantástica, e gosto mesmo da relação que se desenvolve entre elas.

Ambas quase descem aos infernos, ou pelo menos ao mais escuro e complexo que a mitologia grega tem para lhes oferecer, e a imaginação dos autores nos detalhes é fabulosa e fascinante. Gostei muito de ver a arte nestes pontos, porque se excedem, no melhor dos sentidos.

Outros pontos altos: uma Hidra (yep, o monstro mitológico) no meio de Gotham, a Medusa (sim, outro monstro mitológico) no meio de Gotham, a Bette Kane - qual fénix renascida - no seu novo uniforme, verdadeiramente impressionante, que miúda rija, a relação da Kate e da Maggie, que (apesar de eu lhes ver um ou outro problemas) são adoráveis.

Destaque ainda para o número zero da revista, um número publicado após um ano (ou o número 12), se bem compreendi. É uma retrospectiva da Kate sobre como se tornou a Batwoman, o que fez para lá chegar, para obter o treino necessário, com ajuda do pai. Enquadrada como uma espécie de carta ou mensagem para o pai, é comovente, pelo estado da relação dos dois, e impressionante, pela relação que tinham antes, que levou o pai a tentar protegê-la da maneira que sabia, ensinar-lhe a defender-se e a suportar uma série de coisas terríveis.

A arte, como sempre, deixar-me um pouco apaixonada por ela, e aqui nas partes da mitologia então é linda, intrincada, obrigando-nos a pensar e a esforçar. O final é ligeiramente cliffhangeresco, e estou tão curiosa em ver como eles vão descalçar esta bota.

Batgirl vol. 3: Death of the Family, Gail Simone, Daniel Sampere
Ao contrário da Batwoman, a Batgirl tem conseguido manter-me super interessada no desenrolar da sua história ao longo destes livros, e este volume não é excepção. Entre o término do enredo das Corujas, uma reaparição tétrica do Joker, e a presença cada vez mais ominosa do seu irmão, James Gordon Jr, a Batgirl (Barbara Gordon) tem as mãos cheias.

As fraquezas do volume prendem-se com as partes em que é suposto haver uma ligação com os eventos maiores a acontecer simultaneamente em várias revistas. No caso do fim da história das Corujas, a aparição da assassina Talon é mesmo interessante, e adorei a colaboração da Batgirl com a Catwoman. Mas é uma história que ficava melhor no volume anterior, com o resto desse evento.

No caso do segmento Death of the Family, again, mesmo interessante. O Joker volta, decidido a aterrorizar novamente a Barbara, mas ela recusa-se a ser um joguete nas suas mãos e lida fantasticamente com a situação. A parte chata é quando é necessário meterem no meio deste volume um número da revista Batman para terminar a história. (Se não estivesse aqui, o salto entre números da revista Batgirl não faria sentido.) Ugh. Uma revista devia valer por si própria, poder-se ler sem muletas de outros lados.

Mas, atenção, continua a ser uma storyline fascinante. O Joker, coitado, não tem mais nada que fazer, e passa o tempo a ver se inventa maneiras de chatear o Batman, e o ataque a todos (quase todos) os (anteriores e presente) Robins e a à Batgirl é só mais uma. É uma boa história pelas questões que coloca sobre a relação do Batman com os seus protegidos.

O último segmento do volume é sobre o irmãozinho psicopata da Barbara, o James, e o caos que ele gera, os dois tentando-se superar um ao outro. Uma história que traz algum drama quanto ao passado da família Gordon, e que gera mais drama no presente. Pelo final stressante, pontos bónus.

A escrita é quase toda feita pela Gail Simone, que escreve duma maneira que me faz mesmo gostar da história e da personagem; menos em dois números, numa altura em que a DC meteu a pata na poça e a despediu por duas semanas. (O drama nos bastidores dos comics é melhor que qualquer revista de cusquices.) Nota-se bastante que é um escritor diferente. Ele tenta fazer algo diferente, que não se cole à Gail, e não é mau, mas perde na comparação com ela, coitado.

Quanto à arte, gostei bastante do trabalho deste artista, captou-me o olho, e gostei em especial do trabalho da equipa no primeiro número do volume, o das Corujas, porque o trabalho de cor é lindo, quase parece uma pintura.

Hawkeye vol. 4: Rio Bravo, Matt Fraction, David Aja, Chris Eliopoulos, Francesco Francavilla
Ah, acabei de ler esta série e já estou com saudades. Foram alguns momentos bem passados com esta série, que me tornou fã de toda a gente envolvida, autores e personagens incluídos, e foi um belo fim para a história desenvolvida ao longo dos quatro volumes.

Acho que posso dizer, depois de ler, que não sou muito fã da divisão entre o volume da Kate (o 3) e este volume do Clint. Faz sentido, a divisão, mas sinto que preferia ter lido os números da revista pela ordem em que foram publicados. Teria sido mais fácil acompanhar certas transições e certas referências, e mais fácil localizar onde é que as histórias encaixam.

Este volume começa com uma história que se passa no Natal, durante a primeira história do segundo volume. Nela, o Clint fica a acompanhar a vizinha e os filhos numa visualização de "Winter Friends", um desenho animado que os miúdos adoram. O Clint rapidamente se deixa dormir, e a sua imaginação constrói um mundo que reflecte o seu, só que com os personagens de Winter Friends.

Foi superdivertido ler a história, para encontrar os paralelos entre a vida real e a imaginada. Adorei particularmente ver as versões das mulheres na vida do Clint Barton, a Jessica, a Bobbi e a Natasha. Oh, e a Kate. Totalmente adorável, a versão dela. Dá uma boa ideia de como o Clint a vê. A sidekick fofinha, demasiado animada. Eh. Acho que a Kate teria um problema com isso.

Outros destaques do volume: a aparição do irmão Barton, o Barney, e a exploração da relação dos dois. A completa falta de jeito e clareza do Clint para lidar com as mulheres da sua vida. (A cena dele a escrever à presente ex-namorada e telefonar à ex-mulher para saber como se escreve uma palavra... pateticamente hilariante.) O showdown final, que me fez ficar a roer as unhas. O final do número 15 e o número 19, que são tocantes à sua maneira.

A arte continua deliciosa para o olho. O número 17, dos Winter Friends, é um pouco diferente, mas muito adequada. O número 12 tem o Francesco Francavilla, com um estilo mais escuro, mas que encaixa. E o resto é David Aja. O número 19 tem muitas imagens com linguagem gestual, e é brilhante, pela desconexão que transmite, e as dificuldades de uma pessoa com surdez que mostra. Mas tudo o resto enche-me o olho, também, e continuo a admirar o trabalho de cor.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Every Word, Ellie Marney


Opinião: Wattscroft, estão proibidos, ouviram bem, PROIBIDOS, de voltar a fazer-me passar por uma destas! Isso inclui-te a ti, Ellie, criadora e gestora de tanto stress pelo destino dos nossos personagens, sua malvada.

...

Oh pá, quem é que eu estou a enganar? Adoro isto. E já estabelecemos que sou uma leitora masoquista, por isso têm permissão para continuar a torturar-me, seus desgraçados.

Every Word começa algumas semanas depois do livro anterior, o primeiro da série. Aparentemente as coisas estabilizaram, mas um crime ocorrido em Londres, com circunstâncias bem semelhantes àquele que lhe levou os pais, leva James Mycroft a atravessar meio mundo sem dizer água vai. É claro que a Rachel Watts fica furiosa, primeiro, pelo subterfúgio, e depois preocupadíssima, sem saber como ele vai reagir a estar tão próximo de um acontecimento, uma época e um local que lhe trazem tanto sofrimento - e larga ela também para Londres, num repente de decisão e engenho como poucos.

Oh, céus. Passei uma semana a obcecar com o que iria dizer deste livro. Nos primeiros dias nem conseguia formular um pensamento coerente. (A não ser que coerente seja agora uma torrente histérica de fangirlismo, melhor dizendo.) Tive que me obrigar a afastar, a começar a ler outros livros, porque parece-me que hoje em dia só isso me permite a clareza de espírito para, bem, conseguir um mínimo de coerência depois de ter lido um livro que me encha particularmente as medidas.

Creio que o que eu gostaria de destacar mais, acima de tudo, é que amo a maneira como a Ellie Marney escreve as suas personagens. Se eu alguma vez escrevesse um livro, gostava de o fazer como ela, com o nível de realismo e credibilidade que lhes imprime.

É que os nossos protagonistas são adolescentes, e fazem todo o tipo de acções impensadas, e alimentadas a hormonas que qualquer pessoa da sua idade faria. Mas também... não são tontinhos nenhuns. Às vezes parece que os adolescentes de livros contemporâneos são um cliché, ou patetas irracionais, ou demasiado infantis ou assim. Parecem uma caricatura do que as pessoas pensam saber sobre adolescentes. (Digo dos adultos que escrevem, que geralmente já passaram por isso há algum tempo, e a sua memória deve ser selectiva o suficiente para os levar a isto - afinal, quem é que quer lembrar-se de toda a sua adolescência? O horror.)

Com isto quero dizer que a Rachel e o James são também relativamente maduros em algumas decisões que tomam, são relativamente razoáveis e racionais nas suas acções, e o seu processamento de emoções está próximo da idade adulta. Faltando-lhes só um bocadinho assim, um pouco mais de experiência e amadurecimento para poderem entrar nessa idade mística e elusiva que é a vida adulta. Oh, não sei se estou a fazer sentido, mas acho-os brutalmente credíveis, nunca infantis, é muito fácil empatizar com eles, e compreender o que fazem e porque fazem. Só lhes falta aquele bocadinho assim, que é o bocadinho que lhes permite ainda fazer uns disparates de vez em quando.

A outra coisa que eu adoro, e que acho que a Ellie faz fantasticamente bem, é escrevê-los como equipa e como casal. Há um equilíbrio nas atitudes deles, e entre as mesmas, que simplesmente faz sentido. A Rachel vai para Londres apoiar o James, mas nunca o deixa ser palerma com ela e nunca o apaparica. O James tem, compreensivelmente e merecidamente, momentos de tristeza e desespero em que tenta afastar a Rachel, por não se achar merecedor de coisas boas, mas nunca resvala para terreno de idiota paspalhão. Acho mesmo que tem um "spideysense" para nunca chegar a ser palerma. Podia ser tão facilmente o bad boy com uma bagagem que dava para encher um avião e que chega a ser mau para com a protagonista. Mas não é, há um pouco mais de nuance que isso. (Já disse que te adoro, Ellie?)

Oh, e como equipa detetivesca são fantásticos. As suas capacidades e formas de pensar complementam-se, e os mistérios que resolvem são complexos o suficiente, mas não impossíveis. Chegam lá com deduções, estudando as provas e testando teorias; e ainda, com uma sorte ou azar inenarráveis para se meterem no pior sarilho possível. (Mais sobre isso mais à frente.)

Acho que a Rachel tem uns desafios interessantes que lhe são colocados, como pessoa. Primeiro a reacção dos pais a ela basicamente fugir do país atrás do namorado, que compreensivelmente não será a melhor. Não que a Rachel não venha a ter razão, ao perceber muito cedo que as coisas podiam ter ficado mesmo más, mas podia haver melhores maneiras de lidar com a situação.

Depois porque os acontecimentos da parte final têm um efeito muito pesado sobre ela, e já conseguimos ver vislumbres disso. É uma questão que estou interessada em ver explorada no terceiro livro, porque ninguém passa pelo que eles passaram, pelo que ela passou, e sai sem marcas. Vai ser curioso, até agora o torturadinho era o James, mas penso que agora a Rachel tem direito a vestir um pouco esse papel.

Além disso, ela reconhece no final que algo mudou, que não consegue falar com os pais da mesma maneira, e isso é tanto um reconhecimento do como eles têm direito a estar zangados, como de que as suas experiências a mudaram. Que talvez esteja um pouco mais perto da idade adulta.

O James, oh bolas, coitado do rapaz, aquela cabeça está uma confusão. (És tão má, Ellie, com o rapaz.) A história dele é pesada e trágica, mas mais merecedor de atenção e compaixão é o que esse acontecimento fez a um rapazinho de dez anos que cresceu para se tornar um jovem de dezassete muito determinado e focado na área criminal e forense, precisamente por causa dessa tragédia - mas também cresceu para alguém que tem dificuldade em se determinar para além dessa tragédia, que não se sente merecedor de querer e esperar melhor, não enquanto não se resolver, e não resolver esse mistério. Certas cenas em que ele se expõe e revela são de arrancar o coração do peito.

A investigação ganha tracção na segunda parte, e eu nem queria acreditar que íamos passar o último terço do livro numa espécie de clímax da história, por encontrarmos o vilão do livro. Mas funciona. E adoro mais daquelas pequenas referências ao cânone sherlockiano. Como o Coronel, claramente um Sebastian Moran. Tão divertido na sua concepção, e tão assustador. Também há uma Irina Addington (Irene Adler, duh), e ela aqui tem um pequeno papel, tão pequeno que me pergunto se não aparecerá no terceiro livro, talvez com maior destaque. Talvez para fazer o mesmo que esta personagem faz em Elementary? (Ideia que eu adoro, já agora, mas aqui talvez não funcione tão bem.)

Esta recta final é cheia de emoção, e oh, tantas cenas deliciosas da equipa Wattscroft. O reencontro deles, a razão para se reencontrarem, o que passam naquele armazém, as confissões do Mycroft - que só tenho pena que a Watts não estivesse em condições de registar tudo, porque o que apanhamos é adorável. Oh, e a coisa da explosão, tão assustadora, e o retorno abastecido a adrenalina, e as reacções da Rachel a tudo. Que intensidade de acção, e que certeza me dão que vai tudo deixar sequelas.

Apreciei bastante a mudança de cenário, porque Londres é uma cidade fantástica para se dar a conhecer, e as descrições são vívidas o suficiente para evocar as cenas. Também gosto da ideia de toda a gente falar com sotaque britânico ou australiano. Adoraria ler/ouvir o audiolivro disto.

Gostei bastante da Alicia, porque foi um bom apoio para a Rachel, quando precisava, e uma boa conselheira, sem se impor. O Professor Walsh também foi alguém que se revelou interessante, e muito preocupado e interessado no futuro do James, sem ser condescendente. Senti falta da Mai e do Gus, que só vemos na cena inicial (a do roller derby, que soou muito fixe).

Também senti falta do Detective Pickup, que preferia realmente que Wattscroft parassem de se meter em sarilhos, portando-se como "adolescentes normais", mas que por trás se vê que se preocupa. Tem um pequeno papel recompensador nos últimos capítulos. Oh, e o director Conroy! Cheguei à conclusão que o imagino como o director da escola da Veronica Mars, e que imagino que o exaspero deste com ela é o mesmo do Conroy com o Mycroft.

E por fim, aquele tipo chamado Mr. Cole disse uma coisa tão intrigante no último capítulo, que eu simplesmente sei que tem de ser explorada. É sumarenta. Além disso, certas coisas anunciam um pretenso Moriarty para o nosso par de detectives, e a coisa promete. Estou a morrer de curiosidade. Venha lá o próximo livro. (Daqui a um muito longo ano, isto é.)

Páginas: 352

Editora: Tundra Books (Penguin Random House)

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Imunidade, Eula Biss


Opinião: Um livro tão pequenino e aparentemente tão simples, e ainda assim tão informativo e com uma introspecção singular, bastante impressionante no sentido em que a autora leva as ideias. Se pudesse, punha toda a gente a ler este seu livro, porque escreve muito bem, explica maravilhosamente as suas ideias, e nunca se torna aborrecida ou morosa, mesmo a explicar conceitos científicos.

Este livro faz mais sentido no seu país de origem, é verdade. Há uma corrente anti-vacinação nos EUA, presa a estudos que comprovadamente eram falsos e/ou errados, mas que persiste nas suas ideias. E aqui a inteligência de Eula Biss é que ela nunca se radicaliza, apesar de podermos facilmente lê-la como pró-vacinação.

A autora fala da sua experiência com a maternidade e como isso a pôs a pensar nestas questões, e é ao escrever do ponto de vista de uma mãe preocupada, para outras mães preocupadas, que ganha autoridade para discutir a questão sem extremismos ou histeria. É-lhe muito mais fácil captar a atenção do leitor porque ela nunca insulta quem não vacina os filhos, e valida as suas preocupações, ainda que lhes mostre porque estão errados. Gosto muito do tom dela a discutir a questão precisamente por isso, é caridosa mesmo para quem tem uma posição diferente da dela.

Achei muito interessante os pontos que ela fez sobre a vacinação, porque é o tipo de coisa que nunca nos ocorreria no dia-a-dia, mas que está tão integrado no subconsciente das pessoas e na sociedade que simplesmente faz sentido. Como as origens da vacinação na inoculação de varíola nos séculos XVIII e XIX, um procedimento menos seguro e mais "sujo", acabam por levar a que subconscientemente a vacinação seja vista como um procedimento invasivo e mais perigoso que realmente é.

O paralelo com o Drácula e com as transfusões de sangue, e com as práticas médicas de sangramento também é curioso. As questões políticas e económicas por trás de muitas mudanças na área também são abordadas, e formam mais uma razão para rejeição da vacinação. Ainda mais num país como os EUA, com uma história tão recente e tão baseada na rejeição da autoridade, e essa saudável desconfiança da autoridade torna-se numa não tão saudável desconfiança da vacinação, que está associada a essa autoridade, pois é geralmente o estado que promove a vacinação.

O ponto alto, no entanto, para mim, foi a ideia de vacinação como um serviço que não fazemos só a nós próprios, mas como um serviço público, para os outros. Como a imunidade prevalente numa sociedade com altas taxas de vacinação impede a circulação de certas doenças e protege assim aqueles com problemas imunitários, ou que não se podem vacinar por alguma outra razão.

E como esse aparente egoísmo da não-vacinação promove a circulação e ressurgimento dessas doenças, o que enfraquece a imunidade de grupo, e em última análise, o próprio. É uma questão fascinante de observar, especialmente (e ainda) nos EUA, com uma filosofia muito própria e focada no eu e na responsabilidade própria e individual, e com falta de foco na sociedade e na integração do indivíduo nesta. Há aqui ainda uma questão social e de classe que é abordada, e é bastante importante que seja abordada.

Ainda tenho a apontar o argumento que a autora faz acerca da percepção de risco. Todos os dias se faz tantas coisas muito mais perigosas sem pensar muito nisso, mas no entanto obcecamos com os cenários mais incomuns, mas que percebemos como mais perigosos e mais prevalentes. Também um argumento bastante válido para a questão da não-vacinação.

Por último, só tenho a apontar, e faço isto porque a editora abriu a porta a isso, apresentando uma breve biografia dos tradutores no fim - então deram-se ao trabalho de contratar dois tradutores da área das letras (para traduzir um ensaio de não ficção relativamente curto, ainda por cima), mas nenhum das ciências? Num livro com tema e conceitos científicos?

Porque, sim, dei por algumas ocasiões em que achei que as expressões traduzidas não eram as mais correctas para explicar e transmitir o conceito científico. Não que dificultem a compreensão do texto, mas a cientista em mim revolta-se contra incorrecções e imprecisões científicas.

Se eu, que estudei Imunologia básica, dei por isso, que mais valia não teria sido arranjarem alguém que estivesse à vontade na área? Nem que fosse para ler o manuscrito traduzido e dar uma opinião e/ou sugestões. A sério, não percebo a preguiça das editoras na área da tradução. Porque de resto a edição parece-me bem produzida, por isso não vejo porque não se há de ter esse cuidado.

Título original: On Immunity: An Inoculation (2014)

Páginas: 224

Editora: Elsinore (grupo 20|20)

Tradução: Joana Caspurro e José Pinto de Sá