sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Onde Estás, Audrey?, Sophie Kinsella


Opinião: Sophie, estás perdoada. Há muitos anos atrás, a minha irmã comprava os livros da Shopaholic em português, e eu lia depois dela. Acho que aguentei dois. Até era bastante divertido ler as peripécias da Becky, mas depois a autora passava um limite para além do qual a pancada da Becky era doentia, e era dolorosa de ver. Especialmente porque ela nunca aprendia com os erros. E isso para mim não era nada interessante, era cansativo de ler. E por isso, desisti, apesar de até me divertir na maioria com os livros em si.

Pois bem, tenho de lhe tirar o chapéu: a Sophie aqui faz um excelente trabalho em apresentar um problema, uma doença mental, sem ser desrespeitosa nem pateta, sendo credível, e ao mesmo tempo mantendo a levidade que caracteriza a sua escrita. (E da qual honestamente já tinha saudades.)

A Audrey é uma jovem adolescente que à medida que a narrativa avança, nos damos conta que vive quase reclusa, só contactando com a família. Pois a Audrey tem uma ansiedade extrema no que toca a sair de casa, e contactar com estranhos; algo que evoluiu a partir de um episódio de bullying no seu passado que chegou a um extremo tal que ela foi hospitalizada com uma crise e as miúdas responsáveis expulsas da escola.

A situação nunca é explorada; só descobrimos os contornos dela e a sua importância para o estado presente da Audrey - mas lá está, o passado não precisa de ser detalhado para compreendermos a sua situação actual, nos identificarmos com ela e entendermos o que a move. (Ou não move.) E tenho a dizer que a autora faz um trabalho fantástico a desenvolver esta situação. Sim, a Audrey vive em família e interage com eles, mas não se intromete nos conflitos, é mais uma observadora em muitas das interacções familiares... e para ela, chega. Não lhe é possível envolver-se mais. O contacto humano, é-lhe impossível.

E ainda assim, a Sophie consegue dar um tom de leveza à narrativa. A família da Audrey é como todas as famílias: um pouco disfuncional, cheia de dramas familiares e idiossincrasias particulares, mas todos se adoram, e todos adoram a Audrey e querem que fique melhor. Torna-se claro que toda a família mudou um pouco com aquilo que a Audrey passou; mas ainda são uma família, e ainda têm as suas questiúnculas.

Por favor, toda a saga da mãe da Audrey contra os videojogos que o Frank, o irmão joga? Hilariante. A situação escala duma maneira brutal, e a autora consegue descrever dum modo que nunca exagera. As minhas partes favoritas passam pelo jantar dos pais, em que eles vão sair e o Frank devia fazer os trabalhos de casa, mas simplesmente continua a jogar, e é apanhado duma maneira épica; e a cena da destruição do computador, que abre na verdade o livro. Céus, estou-me a rir só de me lembrar disso.

E depois tenho de mencionar o Linus. Não é uma daquelas situações "o amor salva tudo", porque isso não é verdade, e não faria sentido no contexto da história. Mas gosto de como a Sophie o apresenta: é um amigo do Frank, e a Audrey está ciente dele, e talvez por ser amigo do Frank, é mais seguro interagir com ele do que se arriscar ao contacto com alguém fora de casa.

E o Linus cruza-se com ela lá em casa, e bem, é difícil para ela começar a contactar com outros para além da família, mas vejo o Linus mais como o mote, o motivo de interesse que a faz começar a querer sair da concha em que se encerrou. É algo que a própria Audrey acaba por procurar sem se dar conta.

O próprio Linus é adorável. Não nasce ensinado, e por isso há partes da doença da Audrey que ele não compreende, mas o mais importante? Ele interessa-se, e está disposto a aprender. O que é que funciona para ela, e como comunicar com ela, mesmo que seja da forma mais simples e remota que há. Ele interessa-se, e preocupa-se, e desafia-a a superar-se, e não, isso não resolve os problemas da Audrey. Mas sentir-se amada pelos que a rodeiam é um bom passo na direcção correcta, e uma ajuda para se sentir mais confortável na sua pele.

Gosto da evolução da própria Audrey. De nenhum contacto a aceitar lentamente aproximar-se dos outros, de viver a vida como uma testemunha a passar a envolver-se. Ajuda, por exemplo, que a psiquiatra lhe sugira fazer filmagens da família, do que a rodeia, como uma forma de a levar a envolver-se. E resulta, em parte. As filmagens são das minhas cenas favoritas.

Também gosto que a evolução dela tenha altos e baixos, como é reconhecido no próprio livro. Não é uma escalada até ao tipo; às vezes as coisas correm menos bem. E no caso da recaída da Audrey, gosto que não tenha chegado ao extremo (finalmente aprendemos subtileza, Sophie), nem sempre a vida cai no mais dramático que pode haver, e gosto que haja um reconhecimento da importância da medicação (e de deixar de a tomar) na evolução da Audrey.

[No último livro que li que tinha alguém com uma doença mental, o autor escreve a personagem como "yah, miúdos! não tomem os medicamentos! eles matam a vossa personalidade!", sem mostrar o quão perigoso isso é. Ugh. Que irresponsável. Portanto, pontos bónus, Sophie.]

Portanto, parabéns, Sophie Kinsella. Já não estás banida das minhas estantes. Ainda não morro de vontade de voltar a ler a Louca por Compras, porque aquilo era demais; mas talvez um dia venha a ler outros livros dela. Gostei muito (e tinha saudades) do humor doido dela, e gostei mesmo de como retratou uma fatia da vida de uma personagem com um problema, e como ela evolui ao longo da história em relação a esse problema.

Nota: nada a apontar na tradução. Diria até que é boa. Talvez destaque o uso de termos demasiado tradicionalmente portugueses? Exemplo, usam ali pelo meio a expressão "algaraviada", e como toda a atmosfera do livro para mim é bastante inglesa, soou-me... estranho.

Título original: Finding Audrey (2015)

Páginas: 272

Editora: Porto Editora

Tradução: Paulo M. Morais

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Picada Mortal, Rex Stout


Opinião: Era uma vez, há muitos anos atrás, apanhei uma série a passar na televisão. (Abençoada RTP2 quando passava um sem número de séries.) Não me lembro do título que lhe deram em português, mas era esta. Gostei mesmo do conceito e da execução, e do ambiente e dos personagens, e até da maneira como os mistérios se desenrolavam.

Resultado: andei nos meses (anos? não consigo precisar) a caçar livros do Rex Stout que pudessem ter o detective Nero Wolfe, e que foram publicados em Portugal pela colecção Vampiro na Livros do Brasil; só que já nessa altura, muitos dos livros eram difíceis de encontrar. Ainda li umas quantas coisas, e diverti-me com elas, mas infelizmente acho que não posso dizer que tenha adquirido e lido sequer o equivalente a metade da série. Uma pessoa cansa-se de andar a caçar livros impossíveis de encontrar, e parte para outras coisas.

Tinha saudades, no entanto. Há algo que a série de TV captou tão bem, que é o tom e o sentido de humor do autor. (Pelo menos penso que sim. Vi a série há tanto tempo.) Mas pronto, posso dizer que fiquei contente por ver que esta "reedição" ou lá o que é da colecção Vampiro inclui o Rex Stout; pode ser que desta vez eu consiga ler a série toda do Nero Wolfe.

Nero Wolfe é um detective peculiar. Obeso, reclusivo, não sai de casa para resolver casos; os casos vêm ter com ele. Nero interessa-se e desinteressa-se de casos com a mesma rapidez com que mudaria de camisa; mas quando um tem o seu interesse, é implacável. A investigação fora de casa deixa ao cargo do seu assistente/secretário/homem-dos-sete-ofícios, Archie Goodwin, sarcástico a tempo inteiro e sério apenas quando está inclinado para isso, e ocasionalmente, a outros detectives que contrata para ajudar num caso.

Sempre gostei muito desta dupla e de como o Rex os escreve. O Nero Wolfe é um tipo sisudo, impenetrável, quase misantrópico. Tem horários rígidos (ai de quem o queira interromper das 9 às 11 da manhã, e das 4 às 6 da tarde, quando dedica tempo ao seu hobby, jardinagem de... orquídeas), é um gourmet inveterado, e revira este mundo e o outro se isso impedir que tenha de sair de casa.

O Archie faz uma piada de tudo, mas é imensamente observador e reconta perfeitamente o que observou, interrogou, encontrou ao Nero, e por isso é essencial ao processo de investigação, ainda que nenhum dos dois provavelmente o admita. Além disso, o Archie, com o seu sarcasmo e piadinhas, é a pessoa perfeita como contraponto ao Nero; diria que o atiça, puxa por ele, mantém as coisas interessantes.

Creio que o Rex Stout fez uma caracterização excelente com estes dois. Nunca faz parecer que um é mais que o outro; são iguais, de certo modo, apenas pessoas com capacidades diferentes e que se complementam bem. O Nero nunca seria capaz de sair de casa e andar a interrogar pessoas e facilitar certos acontecimentos; tal como o Archie também detestaria ficar fechado em casa e e fazer conexões impossíveis entre coisas aparentemente não relacionadas.

Outra coisa que apreciei no autor quando o li no passado, e novamente com este livro: o sentido de humor. Não só nas observações e comentários do Archie (que é o narrador da história e absolutamente hilariante), mas nos próprios acontecimentos, na domesticidade da casa-prédio (uma brownstone, que sonho) de Nero, nas interacções dele com o Archie, e ocasionalmente com as pessoas envolvidas no mistério.

O mistério em si contado neste livro parece-me ser um bom exemplo das histórias contadas por Rex Stout, pelo que me lembro: um acontecimento banal revela ser um mistério convoluto, com reviravoltas sobre o método do assassinato, o papel do assassino e até do assassinado. E curiosamente, o culpado é estabelecido bastante antes de o livro terminar: o interesse prende-se mais com a maneira como vai ser apanhado, e a história resolvida. (E a solução deste é bastante interessante. A acusação que o Archie faz ao Nero no fim, ainda mais.)

Ah, espero que não demorem muito até publicar o próximo livro do Rex Stout na colecção Vampiro. Que vontade de matar saudades outra vez.

P.S.: Pergunto-me se a tradução é nova ou a original da Livros do Brasil? Achei ali umas coisas estranhas no meio que precisavam de tradução e revisão cuidadas. (Como a referência aos anos 50 que apanhei - a história passa-se em 1933.) Preguiça much, Porto Editora? Não é só comprar uma editora mais pequena e aproveitar-se da colecção literária que eles já têm; bem que podiam juntar algum valor literário à aquisição, usando as vossas capacidades para melhorar o produto que apresentam. E um livro é sempre um produto, por mais que queiramos fingir que não.

Título original: Fer-de-lance (1934)

Páginas: 296

Editora: Livros do Brasil

Tradução: Eduardo Saló

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Este mês em leituras: Outubro 2016

Ah, Outubro, Outubro... andei a fazer uns horários estranhos de trabalho, que foram algo repetitivos e me deixaram pouco tempo para opinar. Agora no fim do mês bem queria recuperar o atraso nas opiniões, mas o próximo a opinar é o The Midnight Star e os bons livros são sempre os mais difíceis de opinar.

Livros lidos


Opiniões no blogue


Os livros que marcaram o mês

  • 9 de Novembro, Colleen Hoover - depois de há um par de meses ter batido no ceguinho até mais não, isto é, queixado-me de tudo e mais alguma coisa que me desagradava no livro da autora que tinha acabado de ler, e nos livros dela... eis que vem um outro dela que me faz gostar dele quase por inteiro - o que é desconcertante - esta autora parece ser por altos e baixos comigo;
  • O Lar da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares, Ransom Riggs - para um livro tão conhecido e que até deu em filme, esperava algo... mais - e que fosse menos sensaborão, já agora;
  • Crooked Kingdom, Leigh Bardugo - ai meus ricos meninos, a Leigh é uma má, uma torturadora... conseguiu fazer-me adorar seguir os seis protagonistas da duologia, e amar cada minuto da leitura - sou fã de histórias com uma "golpada";
  • The Midnight Star, Marie Lu - um fim de uma trilogia, algo inesperado no rumo que tomou, típico da Marie, na verdade, mas muito interessante... e sobretudo, com um fim melancólico, que me fez pensar na anterior trilogia dela;
  • Picada Mortal, Rex Stout - quando era mais nova andei a cirandar pela obra do autor e a ler algumas das aventuras que escreveu com o par detetivesco Nero Wolfe e Archie Goodwin... foi bom matar saudades, são personagens cativantes e o escritor tem uma maneira curiosa de desenvolver o enredo;
  • Onde Estás, Audrey?, Sophie Kinsella - li alguns livros da Sophie sobre a Shopaholic, mas cedo enjoei de tanto drama com a Becky nessa série... fiquei agradavelmente surpreendida com o retrato mais nuanceado e credível deste livro, sobre uma adolescente com ansiedade e depressão devido a um episódio de bullying no seu passado.

Outras coisas no blogue

  • Hmmm, nada, outra vez? I sense a trend here...

Aquisições

Três aquisições em português, todas adquiridas com desconto em cartão. (A Sophie Kinsella, a Cynthia Hand, e o Rex Stout.) Em inglês, os livros de Avalon High para o meu desafio Meg Cabot. Já achava que não ia conseguir lê-los em Outubro, tendo em conta que o primeiro manga levou horrores a chegar, já estava pronta a dá-lo como perdido... chegou na sexta, só para me torturar. E eu para me vingar, li tudo. (Era para deixar para Novembro os volumes 2 e 3 do manga.)

De resto, basicamente autores e séries que sigo. (O Gemina, o Crooked Kingdom, o The Midnight Star.) No caso do Between the Lives, dei-me conta este mês que a Jessica já tem mais uma série a sair nos EUA, e cheguei à conclusão que não me quero atrasar nos livros dela que forem sendo lançados, já que gosto muito da autora.

No caso do Every Move, tenho andado a agonizar por causa dele há uns meses. Tenho os outros dois da autora na versão americana, em capa dura, mas descobri que a editora pondera não publicar o terceiro (alguém anda a ver se imita as editoras portuguesas), por as vendas dos outros dois não serem as esperadas. (Culpa inteiramente deles. Os livros já tinham saído na Austrália, podiam bem ter saído nos EUA com intervalos menores... assim com o longo intervalo de um ano entre livros, o resultado é que os fãs foram comprar a edição australiana para continuar a ler.)

A piada da coisa é que eu quando descobri isto andei louca à procura do e-book para comprar, para não ter a colecção em edições diferentes na estante... mas não havia e-book em lado nenhum. Como é possível? Eu pronta a atirar-lhes o meu dinheiro para cima e este pessoal parece que me quer é empurrar para sacar o livro de forma menos legítima.

As colecções de BD do mês. Colecção Graphic Novels da Marvel, e uma nova, a Sandman, pelo jornal Público e pela Levoir. Os livros em cima, dos contos da Temas e Debates/Círculo de Leitores, até adquiri em Setembro, mas tinha-me esquecido de os adicionar no mês passado a este post. Encontrei os livros a 5€ cada na Fnac. Ainda estão a esse preço, pelo menos no site.

Fora isso, um livro que me pareceu giro e era barato, sobre divulgação científica, e um livro que é uma espécie de catálogo/companion a uma exposição sobre BD no Reino Unido. Já o tinha tido debaixo de olho, e uma promoção do Book Depository fez-me aproveitar.

A ler brevemente

Vou ler a colecção Graphic Novels da Marvel, e quero muito ler estes quatro livros que estão deitados. São de autores que aprecio e juntei-os à minha estante porque estou muito interessada em lhes pegar. Além disso, espero receber durante o mês o Heartless da Marissa Meyer. Estou tremendamente curiosa acerca do que ela vai fazer aqui. Provavelmente não vou ler nada para o desafio Meg Cabot, já li dela em Outubro o que tencionava ler em Novembro. Mais tempo fica para outros livros que queira ler.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Curtas BD: Dog Mendonça e PizzaBoy

Filipe Melo, Juan Cavia, Santiago Villa

Ah, diria que a este ponto estes livros deviam ser indispensáveis em qualquer estante. (Portuguesa, pelo menos. Mas world domination também não era mau.) Uma série que começou quase por acidente, sendo que originalmente a história do primeiro volume foi concebida como o argumento de um filme. Apercebendo-se que em Portugal não é propriamente possível criar filmes de pendor paranormal ao nível do que se vê lá por fora, o argumentista Filipe Melo virou-se para a banda desenhada, aliando o trabalho no traço de Juan Cavia com a cor de Santiago Villa, dois argentinos. O que ainda é mais interessante tendo em conta que a história tem um tom tão... português.

E não digo isso no mau sentido. Digo porque a acção se passa em Portugal, o que é tão refrescante. (Uma das taglines dos livros era algo do género "o destino do mundo vai ser decidido em Lisboa".) Ver(ler) uma(s) história(s) de acção, terror e paranormal no nosso país não é muito comum, mas é muito bem vindo.

Digo-o também porque apesar de nunca terem vindo a Portugal antes da criação do primeiro livro, os dois argentinos criaram em desenho uma fantástica Lisboa atmosférica, muito impressionante e realista na medida do possível (afinal é uma história com zombies). Adorei ver retratadas as ruas características de Lisboa, bem como sítios como o Marquês de Pombal, a Ponte 25 de Abril, ou até o Centro Comercial Colombo, que é destruído numa certa altura, ou a Assembleia da República...

Digo-o ainda porque adoro o tom simplesmente português da narrativa e dos acontecimentos. O Pizzaboy e o seu nome (Eurico), o quão azarado e cronicamente atrasado é, as expressões típicas (ainda me estou a rir duma referência a fazer "um bicho de sete cabeças" no segundo volume, o do Apocalipse, e em linha com este último, aparecer literalmente... um bicho de sete cabeças) - isto é o tipo de coisa que traduzido não tinha piada nenhuma. Que tradução é que se pode fazer duma referência ao Inspector Max? O livro capta tão bem referências da cultura popular portuguesa, é genial.

E as piadas? São lançadas em todas as direcções, à burocracia (particularmente a Segurança Social e à fuga complexa que o Dog faz) e ao governo (o terceiro volume é particularmente interessante, pois é desenhado o primeiro-ministro da altura, e acontece-lhe uma coisa que imagino que muitos portugueses terão imaginado também), à publicidade crónica (os contos fazem umas piadinhas giras)... o segundo livro nem se esquiva a brincar um bocadinho com o terceiro segredo de Fátima e com a Nossa Senhora de Fátima.

O sentido de humor é realmente abundante e de encontro ao meu gosto. A forma demoníaca do Pazuul? Tão engraçada. E pronto, há uma certa atmosfera evocada que é claramente uma homenagem ao gosto autoral por certo tipo de filmes de horror... não estou assim tão familiarizada com eles, provavelmente, mas dá para apanhar umas referências, e gosto do tom, por isso achei isso cativante.

O que também é interessante é ler os livros e ver uma certa evolução dos autores ao longo deles. A história é fantástica, a arte cinco estrelas, ninguém lhes tira isso, mas no primeiro livro e talvez um pouco no segundo se note uma certa infamiliaridade com a BD, com a maneira como se conta a narrativa neste formato, como o enredo evolui, como se apresentam as coisas visualmente. O que não estraga nada a coisa, mas dá para ver o salto na maneira como a história é apresentada.

O terceiro volume nesse aspecto é bem mais completo e complexo, por exemplo. Consegue combinar a acção com um tom intimista e reminiscente, evocando o passado dos protagonistas e as suas aventuras, como forma de lhes terminar as aventuras. (Gosto bastante de ver o Eurico já mais velho, é muito interessante ver um tipo que já se estabeleceu voltar às loucuras de juventude.)

No meio disto tudo acho que tenho pena é que o quarto livro, o dos contos, seja tão curtinho. Reúne 4 contos de 8 páginas que foram escritos para a Dark Horse, e é muito divertido ver a origem do Dog e ver como ele lidou com o monstro de Loch Ness... mas sabe a pouco, raios. Até seria divertido ler mais mini-contos do género.

Ah, e agora já estou com saudades de ler isto outra vez. Suspeito que são mesmo livros merecedores de releituras, porque acredito que me dêem o mesmo gozo a ler, que sejam igualmente divertidos em releituras, e que não percam a piada. São uma pequena estrela cadente que iluminou por um bocadinho o panorama editorial português... é pena que não apareçam pérolas destas mais vezes.

domingo, 23 de outubro de 2016

Crooked Kingdom, Leigh Bardugo


Opinião: Ahhh não acredito que me fiz isto a mim própria, e tenho de opinar dois livros extraordinários um atrás do outro. Primeiro o Empire of Storms, agora o Crooked Kingdom. Cada um me apaixonou e torturou à sua maneira, e por isso foram, cada um à sua maneira, leituras emocionantes, e acredito que opiná-los também o será.

Estou tão orgulhosa da Leigh, porque tenho acompanhado a sua escrita desde o primeiro livro, e tem tido uma evolução fantástica ao longo dos anos. De cair o queixo. Alguém que comece a ler o Shadow and Bone não saberá a complexidade que este último livro dela tem. Tanto em termos de enredo, como em personagens e a riqueza de caracterização que lhes imprime - e a Leigh gere qualquer coisa como seis POVs ao longo do livro, mais o POV ocasional extra de um ou outro personagem.

Crooked Kingdom começa apenas uns dias a seguir ao primeiro livro da duologia, Six of Crows. Neste último os seis protagonistas levaram a cabo um golpe dificílimo, mas a recompensa devida foi-lhes subtraída, e uma traição destas não se esquece facilmente. Especialmente quando as vítimas da mesma foram este grupo de jovens extraordinários.

As surpresas, no entanto, não param de vir. Primeiro porque uma pessoa esperaria que um autor normal usaria este livro para resolver a questão levantada no livro anterior; mas a Leigh trabalha num nível bastante à frente. Não só esse problema é resolvido para aí no primeiro terço do livro; não, a fasquia é elevada para além dele, os problemas continuam a empilhar-se ao longo da narrativa, e a ambição dos Crows leva-os a tentar dar um novo significado à expressão "a vingança serve-se fria". (Eh. E bem condimentada.)

Depois porque esta duologia é uma espécie de carta de amor a qualquer livro ou filme que meta uma golpada. Credo, a complexidade dos planos deste pessoal!... É impressionante os esquemas em cima de esquemas preparados pelo Kaz, o "cérebro" do grupo, as contingências preparadas... mesmo quando os planos vão para o Inferno porque tudo correu mal, eles recuperam e aplicam-se a executar outra coisa ainda mais complexa e ambiciosa.

O melhor de tudo é ver as coisas desenrolarem-se, roer as unhas a pensar que está tudo a correr mal, mas estar bastante convicta que as peças vão encaixar e resolver-se tudo duma maneira linda. (E complicada. E retorcida. Mesmo à moda do Kaz.) E eu termino babada e impressionada com a maneira como as coisas realmente se desenrolam.

É claro que uma parte importante, gigante mesmo, de eu gostar destes livros é os magníficos personagens e a genial caracterização que a Leigh faz deles. Tendo de gerir tanta gente, é incrível que ela lhes dê personalidades e passados tão detalhados e cativantes. Ainda melhor, ela consegue pôr-me a torcer por todos! Estão a modos que todos emparejados, e é a coisa mais adorável de sempre.

Nina e Matthias: ahhh que engraçados que eles são os dois juntos. A Nina é bastante confiante na sua pele, apesar das suas capacidades estarem a mudar inesperadamente, e adora meter-se com o Matthias e flirtar até o fazer corar. É tão giro. Ele é todo estóico e vem duma sociedade mais conservadora, e quase que cai para o lado com isso. Além disso, apreciei a personalidade dele mais honesta que os outros Crows. É a bússola moral deles, e a sua coragem retira-os de situações complicadas. Já a Nina, é um bom contraponto a ele, inventiva e adaptável, debatendo-se com um novo desafio, mas retirando conforto dos amigos.

Jasper e Wylan: outros bastante fofos de acompanhar. O Jasper também se diverte a dizer coisas para fazer corar o Wylan, por isso é muito giro de ver. O Jasper tem um aprofundar da sua personalidade aqui, percebemos porque é que ele "funciona" assim, conhecemos o pai e o seu passado e entendemos a sua irrequietude e leveza. Não quer dizer falta de conteúdo, apenas que é melhor a esconder os seus problemas. E o Wylan, pobrezinho, debate-se com a sua identidade não ser exactamente a sua identidade, e pior, com descobrir a extensão da ruindade do pai, algo que ninguém merece.

Kaz e Inej: ahhh estes levam o bolo. A Inej é tremendamente corajosa e capaz, mas tem um lado compassivo e doce que faz uma combinação explosiva. Ela passou por muito, mas nunca deixou que isso destruísse esse seu lado. Já o Kaz pegou nos momentos menos bons que passou e usou isso para forjar alguém mais duro, mais cruel, mais retorcido e mais forte apesar das suas desvantagens. De certo modo são opostos, mas funcionam tão bem juntos. Há uma cena deles que a Leigh escreveu extraordinariamente, porque aquilo que passaram significa que a intimidade é uma coisa difícil para eles, mas que a abordam de formas diferentes. Intenso e emocional e tão verdadeiro. Orgulha-me ver o Kaz, tão frio e calculista, fazer certos pequenos gestos de bondade. Significa muito vindo dele.

O que é que eu posso mais dizer? Ah, tenho uma coisa. vemos gente da outra trilogia, e a minha excitação não conheceu limites. Foi tão bom ver a Genya e a Zoya, e melhor, o Sturmhond! A casa foi abaixo com a animação. Eles acabam por não ter papéis assim tão pequenos como isso, porque o conflito principal da duologia mete algo que pode vir a ser importante para os Grisha, e assim claro que eles tinham de estar presentes. (Melhor foi a Nina quase reconhecer o Sturm: "eu conheço este tipo... quase que parece o... bah, não pode ser". Ehehehe.)

Ok, aquele final? Estranhamente, lembrou-me o final da trilogia. Não nos pormenores, mas na sensação de que a vitória foi arrancada a ferros e que foi conseguida com grande perda. As coisas estavam a correr tão bem, e a Leigh tinha de vir e estragar-me a festa. Não foi bonito, Leigh. Leigh má. Leigh tortuosa. Sei que a maior parte dos personagens está num melhor lugar do que começou, mas aquilo que se perdeu parece inestimável. E nada justo. O que é provavelmente o objectivo.

Ah, depois disto eu espero, eu rezo, eu torço para que ela ainda escreva mais qualquer coisa neste mundo. Há personagens que ficam com a história muito em aberto. (Não posso falar de todos, mas eu morria se o Sturm tivesse direito a algo, a história dele não parece nada resolvida...) Há pormenores que ela apresenta sobre a mitologia, as capacidades Grisha, certos detalhes sobre o mundo, o mapa ainda tem tantos lugares inexplorados... há um manancial de coisas que ela pode fazer, e eu torço para que venha a fazê-lo. A história dos Grisha não me parece terminada, de certo modo.

Enfim... este livro manteve-me completamente cativada página após página, com um enredo delirante e cheio de reviravoltas, adorando os personagens a cada minuto, e ficando bastante impressionada com a expansão do mundo e da mitologia. A sério, Leigh, por favor, por favor, por favor. Escreve outro livro/série neste mundo. I beg you. Seria fantástico ver algo na sociedade Shu. Ou em Fjerda, mas esses já tiveram um pouco de tempo de antena. Por favor. *faz figas*

Páginas: 560

Editora: Henry Holt & Co. (MacMillan)