sábado, 10 de janeiro de 2015

Predestinados, Josephine Angelini


Opinião: Em 2011, e como se já não tivesse lenha suficiente para queimar, meti-me num desafio cujo propósito era ler autores que se estreavam nesse ano nas faixas etárias YA (Young Adult, 12-18 anos) e MG (Middle Grade, 8-12 anos). A piada da coisa é que quatro anos depois, ainda ando a encontrar livros que me interessaram nesse desafio, e ainda ando a actualizar-me com eles. Predestinados é um desses livros.

Foi uma leitura curiosa, por várias razões. A principal é que tenho a sensação que foi a leitura certa na altura certa. Tem montes de coisas que eu gosto de ler, mas também uma ou outra coisa com que eu poderia ter implicado noutras circunstâncias, por isso acho que posso dizer que me apanhou num bom momento, mas também que tem os ingredientes certos para me cativar e manter-me assim durante toda a série.

A maneira como adapta a mitologia grega deixou esta taradinha da mitologia bastante animada. Gostei de ver como os semi-deuses ainda andam por aqui, como estão organizados, a herança que o passado lhe traz e como constrange as suas acções, e em como certos temas e situações se repetem, como as Fúrias controlam os acontecimentos e como a vida destas pessoas é uma autêntica tragédia grega.

O início é um pouco lento. Dá para ver as fraquezas da autora como escritora, ainda no início da sua carreira, em termos de exposição e do desenvolvimento dos personagens e acontecimentos - aqueles momentos iniciais foram algo frustrantes, por não ser claro o que se passava, e toda a gente se comportar duma forma meio irracional e inexplicável (bem, mais tarde veio a ser explicada, suponho).

O bom disto tudo é que, assim que as coisas encarrilaram, e a acção começa verdadeiramente, e toda a questão dos semi-deuses começa a ser mesmo desenvolvida... foi tãaaoooo difícil parar de virar as páginas. Há muita coisa boa entre as páginas deste livro, e o todo apagou a impressão inicial menos boa. A história e os personagens acabam por se revelar uma delícia de acompanhar nas revelações que trazem, e achei que a autora tinha um certo sentido de humor e boa onda a escrevê-los.

O par protagonista é tão engraçado de acompanhar, porque faz jus ao material de origem e é tão tragédia grega. No papel, gosto tanto deste aspecto deles, e como o destino tem uma parte importante na questão, e em como é tudo tão intenso. É fácil deixar-se levar. Em retrospectiva, reviro um pouco os olhos com certas partes do drama, e da relação deles, porque escorrega no cliché, mas é um testamento a como o livro me entreteve que nem me dei conta disso na leitura, nem lhe liguei nenhuma.

O elenco de personagens secundários é demais. Adorei conhecer a família do Lucas, toda a gente com uma boa química entre si, com uma bela união familiar, com um óptimo sentido de humor, com as suas pequenas idiossincrasias. Muitos têm nomes gregos com uma certa carga e uma certa história, e aterroriza-me pensar que a autora lhes vai fazer o mesmo que aconteceu aos seus homónimos. Gosto deste pessoal e não tenho assim muita vontade de lhes ver acontecer coisas terríveis.

Outra coisa que tenho a destacar são os amigos da Helena. Agrada-me que eles não fiquem de fora, e que não se lhes tente esconder coisas. São sempre enredos forçados, quando isso acontece, e aqui acredito que possam dar algo à história. Particularmente a Claire, que é uma miúda fantástica. Desconfiava, quase sabia, de tudo, e sempre apoiu a Helena - melhor, chegou a fazer "experiências" para comprovar aquilo que achava. Grande miúda.

Já o disse, quando o enredo começa a ganhar ritmo, a história torna-se fantástica de acompanhar, e adorei cada revelação, cada pormenor da mitologia incorporado. A narrativa tem na manga algumas revelações surpreendentes, mas acho que posso dizer que não tive dificuldade em diviná-las.

Creio que o que me surpreendeu foi aquele final. Não estava definitivamente à espera que as coisas descambassem daquela maneira, e falo dos vários problemas que se põem. (Já agora, o "drama" da Helena e do Lucas é o menor dos males. Então os deuses gregos eram totalmente "coisos" uns com os outros - e uso "coisos" não porque me falta a palavra em questão, mas porque o seu uso seria spoilerento -, e achamos que esta revelação é horrenda, o maior drama de todos? Tenham paciência. Enfim, acho que por já ter visto este tipo de coisa noutro sítio, não parece tão dramático assim.)

Não sou fã da tradução. Por vezes usa uns termos pouco coloquiais, que faziam fluir mal a leitura, e era desnecessário serem usados. O melhor exemplo é penduricalho. Não sei como está no original, mas a Helena tem um colar com pendente, e anda sempre a mexer naquilo, e cada vez que acontecia o livro dizia-me penduricalho para aqui, penduricalho para ali, e por uma razão qualquer isto buliu-me com os nervos.

Também não são fã de traduzir os nomes, mas aqui não posso propriamente exigir que estejam em grego, porque não leio grego, por isso vou fparar de me queixar. A não ser do penduricalho. Desse, vou lembrar-me para o resto da vida. Até tenho comichão só de pensar nisso.

Portanto, apesar dum começo turbulento, acabei a devorar o livro, e a adorar a leitura. Não é um livro perfeito, mas passei um óptimo tempo com ele. Diverti-me com os personagens, encantei-me com a mitologia, vibrei com as reviravoltas. Estou mesmo expectante acerca de onde é que isto vai parar.

Título original: Starcrossed (2011)

Páginas: 368

Editora: Planeta

Tradução: Inês Castro

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