domingo, 5 de abril de 2015

Uma imagem vale mil palavras: Insurgente (2015)

Eu não fiz aqui opinião do Divergente quando saiu o ano passado e fui vê-lo; e não tencionava também fazer opinião deste. Mas depois vi a opinião da Christine sobre o filme (que, já agora, é tão fixe e divertida a falar sobre livros, e por isso é a única pessoa que consegue fazer-me dar ao trabalho de a seguir semiregularmente no YouTube), e ela disse tanta coisa com que eu concordava, que acabou por me incitar a pôr por escrito os meus pensamentos e opiniões sobre o filme.

Contudo, primeiro, e brevemente, algo sobre o Divergente e porque é que não o opinei na altura: na sua maioria foi um filme que se manteve fiel ao livro, ou fez adaptações que faziam sentido dentro do mundo, e gostei de acompanhar os personagens. No entanto, não foi um filme que me arrebatou como o livro tinha feito. E credo, mudaram tanta coisa no fim, na ordem dos acontecimentos e no modo como se deram, que saí do cinema completamente confusa, a tentar perceber para que é que aquilo tinha sido inventado, quando o final do livro resultava perfeitamente.

Sobre este Insurgente, bem, até pode ser considerado uma história contada de maneira bem sucedida, do ponto de quem vai ver um filme só pelo filme, ou de quem não conhece os livros. Quanto ao resto dos espectadores, aqueles que leram e vão ver uma adaptação dum livro que gostaram... ehhhh. Não sei se vão encontrar aqui grande coisa para gostar.

É que a sensação com que fiquei é que as pessoas envolvidas na produção deste filme não se deram ao trabalho de ler e estudar o texto-base, ou simplesmente estavam-se a borrifar para fazer uma adaptação relativamente fiel. Quero dizer, ao fim de tanto tempo a reflectir sobre as adaptações de livros que li e que não li, aceito bastante bem modificações feitas que ajudem ao contar da mesma história noutro meio.

Só que sinto que a única modificação que fez sentido neste filme foi simplificarem o enredo, em comparação com o livro. Sou a primeira pessoa a admitir que o Insurgente tem um enredo convoluto, e que os sítios todos aonde os personagens vão, ou todas as coisas que acontecem, podem não fazer sentido num filme, que ficaria demasiado confuso.

O problema é que o livro também é um muito marcado pela viagem interior da Tris, a sua luta com as suas acções passadas, a culpa que sente, e como isso influencia o seu posicionamento como Dauntless, Abnegation, e Divergent, as características que exibe ou pensa exibir de cada facção. E, oh meu, fizeram um PÉSSIMO trabalho a espelhar isso no filme.

A Tris tem pesadelos, o que como técnica de storytelling podia ser bem útil no filme, mas estão mal colocados, há partes deles que não fazem sentido, e não dão uma sensação ominosa, um peso emocional que nos permita perceber onde está a cabeça da Tris. O resultado é que chegamos à cena onde ela é obrigada a contar a verdade entre os Candor e aquilo é mais patético do que triste e aflitivo.

Não digo que a Shailene não se esforce, mas também não tem muito por onde trabalhar. E no seguimento disto, credo, nem sequer desenvolveram em condições a relação da Tris com a Christina, o conflito óbvio e subjacente às revelações feitas. No livro ela já não é trabalhada da melhor maneira, mas aqui tinham uma oportunidade para fazer melhor, e nop, decidiram ser medíocres e ainda fazer pior.

No primeiro filme conseguiram transmitir bem a atmosfera deste mundo, um com alguma tecnologia, mas que não era muito presente, pois nem todos tinham acesso ou necessidade dela, numa cidade meio destruída e em ruínas. Aqui, bem, de repente este pessoal evoluiu tanto tecnologicamente que até admira que se mantenham em Chicago em vez de irem explorar lá para fora ou assim. (A tecnologia é tão boa que a Tris nunca tem uma escova de cabelo, mas consegue rímel ou pestanas postiças ou lá o que é, ao ponto de se tornarem distractivas nos close-ups.)

É que eu não consegui levar a sério aquelas coisas que se apontavam para as pessoas e diziam de que facção eram, ou que percentagem de Divergentes eram. Primeiro, er, lol? Percentagem de Divergente? Estão a brincar comigo? Ou se é, ou não se é, não há cá meios termos, minha gente, mas que parvoíce é esta? (Se usarem a explicação do terceiro livro para se ser Divergente, ainda faz menos sentido. Mas a lógica foi janela fora nem meia hora de filme tinha passado, por isso...)

Eu até consigo perceber porque é que inventaram isto, para justificar a obsessão da Jeanine pela Tris, só que no livro a obsessão baseava-se mais no facto da Tris ter gorado os planos da Jeanine e ter conseguido escapar sucessivamente. Não vejo porque é que isso não haveria de resultar no filme, se bem explicado.

E depois, esta tralha da percentagem de Divergente leva a que a Tris tenha 100%, o que é completamente ridículo e hilariante. De repente parecia que a Tris era o chosen one duma profecia qualquer dum livro de fantasia épica, e eu perguntei-me se ainda estava a ver o mesmo filme.

Depois, ainda no que toca a tecnologia... as simulações. Para que fique claro, eu gosto do conceito das simulações, e de como vão dar acesso ao endgame do filme. Gosto da ideia de um Divergente enfrentar simulações de todas as facções, e gosto porque toda a trilogia se baseia no uso de soros e simulações, e esta invenção para o filme, talvez a mais inspirada, faz muito sentido dentro disso.

O problema é que tive muita dificuldade em levar a sério aquelas cobras mágicas aqueles cabos mágicos que descem do tecto e se introduzem na pele duma pessoa em vários pontos aleatórios. Porque, como é que funcionam? Querem mesmo que eu acredite que cabos tão frágeis suportam o peso duma pessoa de 50 ou 60 quilos e a fazem pairar no ar, dar voltas e cambalhotas, e sei lá que mais? Caramba, que isto não faz sentido nenhum.

E depois as próprias simulações são tão exageradas que também é difícil levá-las a sério. Quero dizer, não consegui ver perigo nenhum numa casa mágica voadora a arder (simulação dos Dauntless). Podia ser algo igualmente perigoso mas baseado na realidade dos personagens, porque o que a casa voadora conseguiu fazer foi afastar-me da história perante a irrealidade da mesma, em vez de me envolver. Aqui seria mais efectiva uma situação que me fizesse duvidar se aquilo não era mesmo real, como a dos Erudite mais à frente tentou fazer.

É claro que depois os criadores do filme dão um tiro no pé e mostram que não percebem nada das facções ou do mundo que estão a trabalhar. A "simulação" que a Tris passa como sendo Abnegation é ridícula. Abnegation é sobre viver para o outro, tomar acções que não partem duma motivação egoísta. E, tenham paciência, poupar o Peter naquelas circunstâncias é tudo menos Abnegation. Talvez Amity, mas claro, quiseram guardar Amity para a cena seguinte. Que também não faz sentido, porque se a Tris já estiver completamente resolvida no que toca aos seus problemas, não há enredo para a terceira parte dos filmes. (Ainda por cima dividida em dois. Yeeeeah. Isto tem ar de que vai correr mesmo bem.)

Acho que só me falta cascar no final do filme. A revelação massiva, em vez de compartimentalizada, que acontece... bem, vai ser o caos. Começo a perguntar-me se vão ter enredo para sequer um filme, quanto mais para dois. Ou isso, ou vão tentar fazer uma coisa tão grandiosa, tão diferente do que o livro é, que eu não vou reconhecer a história. Já a canibalizaram para este filme, porque não fazê-lo para a esticar para dois filmes? Bolas, cada vez gosto menos da ideia destas adaptações, que me estão a estragar os livros. Ao menos com os Jogos da Fome têm feito um melhor trabalho.

Coisas que gostei: bem, se ignorar o contexto, visualmente o filme até está bom. Gosto muito das paletas que escolheram para o vestuário das facções. O visual da cidade em ruínas, o contraponto com o espaço dos Amity, entre a Natureza. Até as simulações. A dos Dauntless parecia feita por alguém que andou a ver muito Inception, mas no bom sentido, suponho.

O elenco é bastante decente, se bem que a produção parece não saber o que fazer com eles. O actor do Marcus quase não aparece, a Octavia Spencer só faz uma perninha que não lhe dá muita margem. O Uriah parece que só foi introduzido porque os fãs pediram por ele, porque não fazem com ele nada de relevante, e as cenas com ele seriam iguais estivesse ali ou não. O actor do Caleb teve um par de momentos interessantes. Já a Kate Winslet nem sempre me pareceu a 100%, às vezes parecia que faltava ali qualquer coisa para eu acreditar completamente nela como Jeanine.

A Naomi Watts só me fazia pensar "mas como é que uma mulher tão nova tem já um filho homem matulão como o Theo James?", portanto creio que podiam ter trabalhado um pouco melhor a caracterização dela. No entanto, gostei tanto do que fizeram com o Peter. Ele continua a ser desprezível, mas conseguiram, num dos raros momentos de inspiração dos criadores, fazer das atitudes dele o comic relief do filme, encontrar o humor no vira-casacas e cobarde que ele é, e fazer-nos rir com isso.

Acho que no meio disto tudo o que me mete mais medo é que vão continuar com o mesmo realizador deste filme para o Allegiant. Se eu já não gostei da maioria das escolhas dele agora, o que irá acontecer no futuro, quando a base é uma história ainda mais controversa? Volto a dizer, aceito mudanças que favoreçam o contar da história num meio tão diferente da leitura como é o cinema, mas peço que façam sentido dentro do mundo que se está adaptar, ou não vale a pena de todo pagar os direitos e adaptar. Foi aqui que este filme falhou para mim, e tenho pouca fé de que melhore, apesar de ser (ou tentar ser, pelo menos) eternamente optimista nestas coisas.

2 comentários:

  1. Ai a sério já andava com pouca vontade de o ver por ter ouvido tantas críticas negativas, mas depois de ler a tua fiquei mesmo sem nenhuma. Ainda por cima adoro estes livros. :( odeio quando estragam tudo

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    1. Ooops, sorry! Custa-me cascar numa coisa que gosto, mas passei tanto do tempo da visualização do filme a questionar as coisas, que me apercebi que tinha gostado efectivamente de muito pouco no todo. :/ É das adaptações mais... estranhas a que assisti, definitivamente. Normalmente, as adaptações mudam coisas pequenas, ou de menos significado, e esta é das poucas que muda coisas mesmo grandes e importantes, e não muda para melhor. :(

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