terça-feira, 16 de maio de 2017

Magia de Papel, Charlie N. Holmberg


Opinião: Curiosamente, quando este livro me chamou a atenção, por volta da altura do seu lançamento, fiquei com uma ideia ligeiramente diferente do que esperar. Não sei se foi da sinopse, ou das opiniões que li, ou do que quer que seja...

... as boas notícias são, acho que gostei mais dele assim. Achei um livro amoroso e fofo; pode não ser a maior invenção desde a roda, e tem espaço para melhorar bastante, mas tem aquela faísca, aquela coisa mágica que me faz gostar dum livro.

Pode ser do worldbuilding. Estamos em 1902, em Inglaterra, num mundo com uma base vitoriana, mas tendencialmente mais progressivo que a época equivalente que conhecemos. Possivelmente deve-se ao sistema de magia: alguém que deseje praticar magia parece livre de o fazer, tenha a idade que tiver, estudando durante algum tempo e depois tornando-se aprendiz dum mestre.

O aprendiz de mago liga-se a um material feito pelo homem - papel, vidro, plástico ou borracha resultam, pedra não, sangue... é curioso mas não inesperado, pois resulta. A partir daí o aprendiz dedica-se a aprender como manipular o material. Achei esta ideia tão única e inteligente, e acho que tem tremendo potencial, por isso só isso deixou-me com vontade de continuar e ler e saber mais.

Pode ser dos personagens, principalmente da protagonista. Ceony Twill vem de uma família pouco abastada, e esforçou-se muito para terminar a escola de magia o mais depressa possível, sendo uma das melhores alunas. Imaginemos então o desânimo dela ao saber que não pode escolher o material que vai trabalhar, que a professora a recomenda para o papel. O papel é aborrecido! Não é?

A reacção da Ceony no seguimento disto é muito interessante. Ela fica desanimada, e inicialmente reage duma maneira toda espertalhona, lança uns comentários resmungões e algo inconvenientes... mas não se arrasta pela miséria. Adapta-se. Ela é esperta e engenhosa, e não se resigna, mas aceita as circunstâncias e aproveita para aprender. Atrevo-me a dizer que começa a gostar. E quando um desafio se lhe põe, ela mostra-se à altura.

A Ceony vai estudar com um mago chamado Emery Thane. A personalidade dele revela-se ao longo do livro devido à sua premissa; mas achei engraçada a maneira como ele lidou com a relutância inicial da Ceony. Responde aos comentários inconvenientes dela mostrando-lhe como o papel funciona, e algumas das suas potencialidades (frágil mas versátil, e fiquei com vontade de me pôr a fazer origami), e faz um esforço para a fazer sentir-se bem-vinda.

Thane é misterioso e reservado, mas uma pessoa gentil. É relativamente jovem, mas com uma vida já bastante preenchida. E Ceony vai-se ver involuntariamente envolvida quando uma mulher do seu passado irrompe casa adentro e rouba o coração a Emery. Literalmente. Aqui é que a coisa parece virar para o domínio do estranho, mas dentro deste mundo, faz perfeitamente sentido.

A Ceony consegue manter Thane vivo com a magia do papel, mas é uma solução temporária. Frustrada com a inacção dos seus professores e magos mais experientes que ela, parte à procura de Lira, a mulher ladra de corações no sentido físico (e ex-mulher de Emery, já agora), numa tentativa de recuperar o coração roubado.

Um feitiço que corre de forma inesperada, e zás! Ceony vê-se presa, bastante literalmente também, no coração de Thane. O interessante desta situação é como a magia funciona neste mundo e neste situação em particular. Para sair, Ceony tem de percorrer as quatro câmaras do coração, nas quais vai encontrar alguns detalhes privados da personalidade do mago: os seus momentos mais altos e mais baixos, os seus desejos e as suas dúvidas.

E pronto, em termos de enredo o livro não é particularmente ambicioso, descreve a chegada de Ceony ao seu aprendizado, os primeiros tempos do mesmo, e depois o coração é roubado e o que se segue são uma série de flashbacks que esclarecem a personagem Emery Thane. Adorei esta parte porque amo ler sobre desenvolvimento de personagens, mas também pelo efeito que tem na Ceony.

Se somos expostos ao que se passa nas profundidades do coração de outra pessoa, diria que a ficamos a conhecer bastante bem, mas também corremos o risco de nos identificarmos ou envolvermos com o que vemos. E pronto, vamos dizer que gosto da ideia nesta particular apresentação. É uma ideia adorável, e achei cativante ler sobre o depois, quando a Ceony volta e resolve tudo e os personagens conversam sobre o que aconteceu. Dou por mim a torcer pela ideia com muita força.

E no fim, mais um livro para a pilha dos "estou a suspirar pela sequela, quero ler já imediatamente, como não posso???". Que dura é a vida duma leitora inveterada.

Título original: The Paper Magician (2014)

Páginas: 256

Editora: Estação Imaginária

Tradução: Sónia Maia

Sem comentários:

Publicar um comentário