Opinião: Tive este livro debaixo de olho o ano passado, quando saiu, mas esperei para ler algumas opiniões, a ver se me poderia interessar. Por alguma razão, as opiniões nunca me incitaram a pegar-lhe, o que é uma vergonha, porque eu agora estou a perguntar-me "porquêêêêêê? porquê é que eu nunca li isto?". Se bem que se o tivesse lido mais cedo, estaria cheia de comichão para ler o segundo livro. Este primeiro livro deixa a história não exactamente num cliffhanger, mas num ponto muito "irresolvido", e eu terminei o livro quase a trepar às paredes de curiosidade e impaciência.
Também é um livro um pouco difícil de definir, diria. A autora tece uma história com uma miríade de temas e influências, quase a transbordar, mas acho que consegue criar uma história coesa com elas. Gostei muito de como incorporou elementos da história da Cinderela com alguns pozinhos de Sailor Moon, situando o enredo numa Nova Pequim do futuro, com cyborgs, andróides, e uma ameaça latente dos Lunars (povo da Lua), que não podia ser mais diferente dos Earthens (terrestres). Diverti-me imenso a reconhecer os paralelismos com o conto da Cinderela e com o anime da Sailor Moon, ainda mais porque a autora conseguiu incorporar muito bem o seu mundo futurista com os mesmos. (O "sapato", a abóbora, a fada madrinha, o vestido, o baile, a madrasta e as meias-irmãs... está tudo lá!)
Gostava que a autora tivesse desenvolvido mais o cenário, isto, que nos tivesse fornecido mais dados sobre o passado, o que levou ao presente estado de coisas, quanto tempo passou desde o nosso presente, ... há algumas revelações, mas eu estou esfomeada de conhecimento deste mundo que me pareceu tão potencialmente interessante.
O enredo corre a um ritmo alucinante, dei por mim e pensar que precisava mesmo de virar mais uma página, mais um capítulo, para saber o que ia acontecer a seguir. Adivinhei muito cedo uma certa informação que a autora só revela no fim, mas para ser honesta acho que ela não estava sequer a tentar escondê-la, apenas a atiçar-nos a curiosidade ao percebermos o que se passa - o que resultou, sabendo esta coisa li algumas cenas doutra maneira.
A minha personagem favorita foi a Cinder, por razões óbvias - é a personagem principal e com maior tempo de antena -, e menos óbvias - adorei o ser uma miúda desenrascada, que ganha a vida como mecânica, que é dependente da madrasta mas lhe resiste, que também sonha com coisas mais femininas, mas reconhece a realidade da sua situação. A Iko recebe muito carinho nas opiniões por aí, e justamente, porque aquilo que lhe sai da boca é hilariante. Também achei piada ao Kai e à relação que ele desenvolve com a Cinder, de flirt e amizade, com o potencial de algo mais, mas também a consciência de muito que os separa (a Cinder mais que ele, mas isso já são spoilers). Acho que hoje em dia qualquer autor que NÃO meta instalove nas suas histórias ganha a minha devoção eterna.
Gostei de ver a maior parte dos personagens descritos com alguma nuance (a madrasta não é sempre má, e a Cinder não é uma fonte de bondade eterna), com excepção da rainha Levana. Oh, como eu adorei odiar esta personagem. Ajuda que ela seja uma manipuladora obcecada com a aparência, que mantém o seu povo refém da adoração que lhe prestam. Espero mesmo vir a ver a Cinder a dar-lhe um chuto no real traseiro.
O fim, bem já disse que me deixou pendurada. Foi um bocadinho triste, porque finalmente se revela (quase tudo) o que a Cinder é, especialmente aos olhos do Kai, e a reacção dele podia ser melhor. Compreendo essa reacção (se aturei a Neryn em Shadowfell, que se debateu com uma coisa parecida, tenho que o aturar a ele), mas espero que veja brevemente a luz. Oh, como eu quero ler o Scarlet (o segundo livro).
P.S.: Andei a escavar pelo antigo blogue da autora e descobri que ela anunciou que a venda dos direitos deste livro para Portugal no fim de Janeiro de 2011. O livro só foi publicado nos EUA um ano depois. Huh. Claramente estava a gerar muito interesse ainda antes de ser publicado.
Páginas: 400
Editora: Feiwel & Friends (MacMillan)