terça-feira, 29 de novembro de 2016

A Empregada, Laura Amy Schlitz


Opinião: Não sei porquê, não esperava muito deste livro. Uma parvoíce, na verdade. Tem os seus altos e baixos, mas no todo é um conjunto muito agradável, e escrito duma forma inteligente e sensível.

Joan é uma jovem sonhadora e inocente que trabalha na quinta do pai, em nenhures (vamos chamar-lhe assim). Um homem rude, cruel e bruto, o pai não vê uso para a instrução, e por isso afasta a Joan da professora, das aulas, e por fim dos livros que adora. E por isso, pela destruição dos seus amados livros, Joan ganha coragem e põe-se na alheta, deixando a quinta e esperando encontrar um trabalho numa grande cidade como Baltimore.

Diria que este livro vive e respira apoiado na força da caracterização da protagonista, a Joan. Afinal, este é  diário dela que estamos a ler. E posso dizer que na maioria, gostei bastante da Joan e da sua caracterização. Ela é uma jovem com pouca instrução, mas esperta, e com um desejo ardente de saber mais, ler mais, conhecer mais. É ambiciosa nesse aspecto, e é óbvio que a quinta onde vive com o pai e os irmãos mais velhos é demasiado pequena para contê-la.

E então a Joan, mesmo sabendo pouco do mundo, arrisca-se e sai de casa, querendo encontrar um emprego como empregada doméstica numa casa da cidade, esperando que no futuro possa continuar a sua instrução e tornar-se professora. Do seu pensamento, em parte pela idade, em parte pelos seus desejos, longe estão ideias de casamento.

A chegada à cidade não é desprovida de peripécias, mas a Joan também tem sorte, e acaba empregada na casa duma família judia. E a partir daí vai crescer e conhecer uma nova realidade, muito diferente da sua; com avanços e recuos e boa vontade, a Joan vai-se esforçar para alcançar os seus sonhos.

Entre as melhores partes do livro está mesmo isso: a vivência da Joan entre uma família judia. A Joan é uma fervorosa católica, mas talvez por ter vivido tão isolada, ela não conheceu qualquer tipo de sentimento antisemita durante a sua vida. Ela nem sabe o que a palavra significa. E aí é que está o cerne da coisa, ela pode ser pouco educada, pode ser inocente, mas é essencialmente boa pessoa, tolerante, até feminista.

E portanto, numa época em que ainda haviam pogroms em partes do mundo, não a choca nada trabalhar para judeus. Aliás, choca-a é descobrir que ainda existem pogroms; a sua incredulidade quando lhe contam o quanto judeus ainda sofrem, muitas vezes às mãos de católicos e cristãos, é quase adorável. Ela foi educada pela mãe para o catolicismo, num misto de amor e fé e compaixão e contrição, e por isso não cabe na cabeça dela o mal que as pessoas fazem em nome da religião.

E lá está, à parte um par de situações, a Joan convive excelentemente com os costumes judeus, e interessa-se muito por eles e por exercer a sua função o melhor que pode de acordo com o que é preciso fazer. A sua lealdade aos Rosenbachs é inspiradora.

Outra parte excelente do livro é o pendor feminista. Em momento algum passa pela cabeça da Joan que não vai conseguir fazer o que quer da vida por ser mulher. Era só o que faltava. Para ela, uma mulher pode ser médica, ou até presidente. Ela ambiciona instrução, e muito mais do que uma vida caseira ou uma a trabalhar como empregada.

Mais partes boas: os personagens. Toda a gente é caracterizada com um cuidado fantástico. A Malka é deliciosa, os Rosenbachs têm todos a sua personalidade e uma relação diferente com a Joan, e é fantástico de as ver desenvolver...

A própria Joan é uma pequena caixinha de surpresas. É pouco instruída mas não é burra, é inocente mas não é parva. Tem momentos de grande sensibilidade e percepção (foi bem esgalhada, a coisa da visão da Mimi), e momentos de ingenuidade de bater com a cabeça nas paredes. (Afinal, ela só tem 14 anos. Em 1911. Tendo vivido toda a vida isoladamente.) É frívola, mas preocupa-se com uma série de assuntos importantes. É ela que leva a narrativa avante, e sem ela não seria a mesma coisa.

Se tivesse de destacar algo negativo, diria que seria mesmo a ingenuidade da Joan. Às vezes mete-a em buracos que dão um novo sentido à expressão "vergonha alheia". E na maior parte dos casos não me importei nada de acompanhar esses momentos, por mais tolinha que ela tenha sido... mas na recta final, custou-me particularmente fazê-lo.

A Joan estava avisada que certa pessoa era assim e assim, e mesmo assim caiu na ratoeira e deixa-se enredar. Bem sei que é o ano que é, ela é a pessoa que é. Mas soou-me ingenuidade a mais, e tanto burburinho por uma paixoneta imerecedora soou-me mal, e tenho pena que a história termine a seguir a essa situação. Preferia que acabasse com um momento mais alto para a Joan. Que até existe, porque damos um salto no tempo, mas sabe a pouco.

A outra coisa é que o livro não soa como se ela tivesse evoluído alguma coisa ao longo da narrativa. É claro que aprendeu algumas coisas, mas termina a história ainda muito juvenil, muito ingénua; quase parece a mesma Joan do início, pelo menos a escrever. Acho que a autora poderia ter sido um pouco mais óbvia na demonstração da sua evolução, denotando isso até na maneira como ela escreve o diário.

É que mesmo depois do salto temporal, ela ainda soa ao mesmo. E quando está a falar do quanto aprendeu e de quão mais crescida está, soa a falso. Porque ela está a dizer-nos, não a demonstrá-lo. Não me parece que a autora tenha feito um trabalho bom o suficiente na coisa do show, don't tell.

Enfim, de qualquer modo, são pequenas objecções, num livro que tanto tem de bom e de delicioso. Diria que lê-lo foi como se estivesse a ler um clássico, um Mulherzinhas ou assim, o que denota que a autora até sabe imergir-nos na época e retratá-la como se fosse a sua época. Só se nota que é contemporâneo pelo tratamento respeitoso dos Rosenbachs. Foi uma pequena grande (e boa) surpresa, diria eu, e bastante recomendada.

Título original: The Hired Girl (2015)

Páginas: 368

Editora: In Edições (Zero a Oito)

Tradução: Susana Serrão

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