sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Colecção Universo Marvel #10, #11 e #12: Vingadores, Dr. Estranho e Dr. Destino

Vingadores: Para Sempre Parte 1, Vingadores: Para Sempre Parte 2, Kurt Busiek, Roger Stern, Carlos Pacheco
Geralmente, e este caso em particular não fugiu à regra, tenho dificuldades em gostar destas "sagas" alargadas. 12 revistas dá para muita história, e do que tenho visto, nestas sagas isso corresponde a imensa palha, em que o grupo de heróis anda dum lado para o outro, a distribuir porrada mas sem propriamente rumo certo. Narrativamente, é muito difícil manter os olhos na bola numa coisa deste tamanho, e o resultado é ter engonhanço e imensas tangentes, que não contribuem para um todo mais coeso.

A minha falta de entusiasmo por esta história também pode passar por eu conhecer menos bem os Vingadores e as suas histórias. A premissa é que são reunidos Vingadores de várias épocas, o que é uma ideia intrigante, mas depois é difícil acompanhar os personagens, de onde vêm e para onde vão, quando não os conhecemos assim tão bem. A história pede que se conheça alguma backstory dos Vingadores, e se normalmente até lido bem com isso nos comics em geral, e não tenho dificuldade em acompanhar... aqui, o livro está tão cheio de referências, que ler com a consciência de que nos estão a passar ao lado não é propriamente animador.

Por outro lado, reconheço o esforço tremendo que terá sido incluir estas referências todas. Suponho que não é por acaso que os livros nesta colecção do Universo Marvel que têm pequenas notas a explicar as referências todas... são livros cujo argumento é do Kurt Busiek. Não sei se isto é uma "coisa" em mais livros dele, mas gabo-lhe a minuciosidade necessária para incluir tantos pequenos detalhes. Ignorando a parte em que é irritante ter tantos pormenores que desconheço, também é fascinante ver como ele os incorporou dedicadamente na história. (Sou capaz de ter morrido a rir, no entanto, quando reconheci no Rick Jones mais velho dois pormenores de fatos de heróis da rival DC:)

Creio que posso dizer que, apesar de tudo, a escolha dos personagens, os Vingadores que vêm de vários pontos do tempo, é interessante, ou pelo menos a lógica por trás dela (que, sim, nos é explicada mais no fim, quando um personagem discorre sobre o papel de cada Vingador na trama). É bastante divertida a dualidade Vespão/Gigante do Hank Pym, curioso ver o Capitão América mais inseguro (e no entanto, é a segunda vez que o vejo destruir uma pedra de poder imenso... bolas, ele tem mesmo queda para a coisa), e refrescante ver a Vespa tomar as rédeas e liderar a equipa. A Rouxinol e o Capitão Marvel não posso comentar, que não conheço, nem o Rick Jones (e por isso é difícil preocupar-me quando o objectivo do vilão é matá-lo); já o Gavião Arqueiro, encaixa com a ideia que tenho dele, apesar do uniforme dele ser a coisa mais ridícula que há.

Em termos de arte, são dois volumes visualmente impressionantes. Vejo porque é que o desenhador Carlos Pacheco é tão conhecido. Um traço detalhado, as vinhetas sempre cheias de pormenores. É qualquer coisa de se ver. O trabalho de cor é mais dinâmico que nas décadas anteriores, há mais nuance,o que me agrada, mas ainda temos chachadas como trocar a cor do cabelo a personagens. (Ou então, o Gavião levou uns pacotes de tinta para cabelo para o contínuo espaço-tempo, para poder mudar entre louro e moreno conforme estivesse para aí virado.)

Dr. Estranho e Dr. Destino: Triunfo e Tormento, Roger Stern, Gerry Conway, Bill Mantlo, Mike Mignola, Kevin Nowlan, Gene Colan
Este volume é singular, no sentido em que é um mix de várias histórias, sem uma ligação muito forte. Algumas têm em comum serem do Dr. Estranho, algumas têm em comum serem do Dr. Destino, algumas têm em comum serem desenhadas pelo Mike Mignola... mas isso não quer dizer que, à semelhança de um diagrama de Venn, haja sobreposição total entre todas.

A história titular, Triunfo e Tormento, é definitivamente a mais interessante. O início é um pouco fraco, porque é uma tangente que explica como o Dr. Destino consegue que o Dr. Estranho o ajude... e que podia ter sido resumida em poucas vinhetas, começando antes a história in media res. Mas assim que se vai desvendando para que é que o Dr. Destino precisa de ajuda, e porquê, a narrativa torna-se mais imediata e cativante.

Quem leva a narrativa aos ombros é mesmo o próprio Dr. Destino, uma narrativa trágica, que envolve uma tentativa de salvar a alma da mãe do Inferno uma vez por ano. Dá-lhe uma perspectiva diferente, que não a de vilão, e é uma boa ideia para explorar, porque o resultado é muito interessante. A personalidade do Dr. Destino ainda está lá, e a sua dualidade mantém-se ao longo da narrativa, mas é engraçado ver o Dr. Estranho confrontar-se com as ideias que tinha acerca dele.

A arte é muito boa, porque não só temos o Mike Mignola a desenhar, que nos traz umas cenas brutais no inferno; como o trabalho de cores é algo diferente, mais em estilo aguarela, e aprecio um tipo de trabalho diferente e bem executado quando o vejo.

As duas histórias seguintes têm como protagonistas o Dr. Estranho e o Dr. Destino, respectivamente. A primeira não tem muita consequência para Triunfo e Tormento, por isso a sua presença aqui é questionável, mas a segunda mostra uma das tentativas falhadas do Dr. Destino para salvar a mãe. Creio que até fazia mais sentido vir antes de Triunfo e Tormento, porque depois já não tem sentido vermos uma dessas tentativas falhadas.

As últimas duas histórias têm como protagonista o Namor e são desenhadas pelo Mike Mignola. Começo a achar que o Namor é mais interessante sozinho e em nome próprio, porque quando aparece noutras coisas, parece que é só para arranjar sarilhos a outros personagens, por isso mais valia estar quietinho. Mas são duas histórias curtas bem montadas, que exploram bem a premissa no pouco espaço que têm. Quanto ao Mike Mignola, estes não são bem os cenários que tenho visto dele, mas trabalha bem o mar e as ondas, gostei de ver.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Este mês em leituras: Setembro 2014

E com o fim de Setembro começamos a entrar no Outono, ainda que o clima ainda não se tenha apercebido disso. Lá se vão as tardes soalheiras de leitura, mas venham as tardes chuvosas de leitura, que eu também gosto delas. (Ou de qualquer altura em que eu consiga um tempinho para ler.)

Em Setembro, encontrei bons livros, e alguns mesmo fantásticos. Mas assumo que fui algo ambiciosa o mês passado, nem todos os livros do "A ler brevemente" me chegaram, nem eu tive tempo de ler alguns dos que chegaram de facto. Quero corrigir isso em Outubro, porque algumas destas leituras prometem.

Livros lidos


Opiniões no blogue


Os livros que marcaram o mês

  • Isla and the Happily Ever After, Stephanie Perkins - um livro há muito esperado, é um volume um pouco diferente dos anteriores da série, mas está escrito duma maneira que fez uma certa ressonância emocional comigo, por isso não pude evitar adorar a leitura e os protagonistas, Isla e Josh;
  • Heir of Fire, Sarah J. Maas - esta série é brutal (no bom sentido), e tenho adorado seguir cada volume da mesma, porque a autora tem evoluído fantasticamente a nível de escrita, caracterização e worldbuilding, e porque é uma saga a que me liguei muito, emocional e intelectualmente;
  • Fun Home - Uma Tragicomédia Familiar, Alison Bechdel - normalmente não destaco banda desenhada, não porque não há livros que merecem destaque, mas sim porque nem sempre me sinto à vontade a avaliar BD, mas este merece, pela relação que tem com a ficção, pelas camadas de significado, e pela reflexão e caracterização dos personagens... nunca pensei que uma memória auto-biográfica fosse tão interessante;
  • Um Caso Perdido, Colleen Hoover - este é pelo factor viciante, que devorei o livro em menos de nada, pois a autora consegue escrever duma maneira tão cativante, caracterizando bem os seus personagens, e combinando um romance com alguns temas mais fortes, sem deixar de apresentar um todo muito interessante.

Outras coisas no blogue


Aquisições

Os livros em inglês do mês. Dois muito esperados, Heir of Fire e Isla and the Happily Ever After, com os quais já me deliciei. Os da Meg Cabot são para o meu projecto de leitura que envolve os livros dela, e serão as leituras de Outubro. O Let It Snow e o Will Grayson, Will Grayson aproveitei para adquirir na Fnac, pois estavam a um bom preço, coisa que é raro nos livros em inglês com eles.

O Eternal Dawn eu nem me tinha dado conta que já tinha saído, mas como ando há uns bons anos para descobrir o final da história da Lenah, era um livro que tinha de vir cá para casa. Tenho admirado esta colecção em capa dura dos livros do Terry Pratchett, por isso quando pus os olhos na edição de The Colour of Magic, aproveitei. E para terminar, Afterworlds e Jackaby são dois livros que me suscitam muita curiosidade.

Os livros em português do mês. Continua a colecção Sherlock Holmes do jornal Público, e o livro seguinte da pilha pareceu-me bastante interessante, e estava a um preço jeitoso. O da Ally Carter (fico tão contente por estarem a publicar a série a bom ritmo, continuem, por favor) e Uma Semana para Te Amar (estou a gostar, as editoras portuguesas acordaram para o fenómeno New Adult, há que aproveitar) ficaram-me a custo zero, com descontos em cartão. Os últimos dois livros são do Círculo de Leitores, e fiquei muito feliz pela boa surpresa que foi o lançamento do sexto livro da série da Charley Davidson da autora Darynda Jones.

Estes não são aquisições, são um empréstimo, mas fica aqui um muito obrigada à Elphaba do blogue As Histórias de Elphaba pelo mesmo. :)

A banda desenhada do mês. Primeiro um par de revistas Disney, depois o livro mais recente de Bryan Lee O'Malley, Seconds. Gostei bastante do trabalho dele na série Scott Pilgrim, por isso estou curiosa para ver o que vai sair daqui. Os três livros seguintes são Batgirl: The Darkest Reflection, Wolverine and the X-Men by Jason Aaron volume 5 e Hawkeye: My Life as a Weapon. Estou a tentar apostar na banda desenhada e em ler algumas coisas que me deixam curiosa há que tempos.

(Ou no caso de Wolverine and the X-Men, seguia as histórias que eram publicadas nas revistas brasileiras da Panini, mas cortei com isso, que não há pachorra para ler aos bocados histórias que às vezes ficam incompletas por falta de importação de algumas revistas do Brasil; prefiro ler assim, vários números de seguida. Divertia-me imenso com as trapalhadas que vão acontecendo na escola para mutantes.)

De seguida, tenho as revistas Marvel da Panini em português, e a colecção Universo Marvel da Levoir/Público, mais os dois volume de Adèle Blanc-Séc que li este mês. E por fim, não é um livro, mas merece destaque: é uma revista intitulada 100 All-Time Greatest Comics, que me pareceu uma boa aquisição, no espírito de encontrar mais coisas que me chamem a atenção ou que não conheça, no que toca a banda desenhada. Até tive algumas boas surpresas, ao encontrar coisas já lidas na lista que consta desta revista.

A ler brevemente

Em banda desenhada, tenciono continuar a acompanhar a colecção Universo Marvel da Levoir/Público, aqui não representada porque tudo o que tenho da colecção já está lido, mas durante o mês de Outubro sairão mais alguns volumes da colecção. Também gostava de ler Seconds, e os três volumes ali na esquerda, Batgirl: The Darkest Reflection, Wolverine and the X-Men by Jason Aaron volume 5 e Hawkeye: My Life as a Weapon.

Para o meu projecto da Meg Cabot, tenciono ler o 5º e 6º livros da série Mediator, Haunted e Twilight. Tenho muita vontade de ler Jackaby e Quem Vê Caras, Não Vê Espiões, por isso é provável que comece o mês com eles. E possivelmente continuarei o mês com Afterworlds, Eternal Dawn ou Uma Semana para Te Amar. E por fim, espero receber (e atirar-me a eles assim que chegarem) Winterspell e Every Breath.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Um Caso Perdido, Colleen Hoover


Opinião: Quase que sinto que devia fazer duas opiniões para este livro. A narração divide-se em duas partes que se complementam bastante bem, construindo um todo completamente devorável, mas ambas as partes têm um tom algo diferente, o que é surpreendente quando penso que ambas fazem parte da mesma história e que ambas contribuíram para o gozo que tirei da leitura.

A primeira parte - e vou ignorar o excerto que é inserido no início e que faz parte dum capítulo mais para a frente no livro, porque foi completamente inútil, não serviu para me atiçar a curiosidade, só me fez soltar um WTF? - apresenta-nos Sky Davis, uma jovem que até agora teve aulas em casa, numa existência algo reclusiva, sem acesso a tecnologias. Mas Sky cresceu feliz e passa parte do seu tempo com Six, a sua melhor amiga.

Sky convenceu finalmente a mãe, Karen, a fazer o 12º ano na escola secundária, para estar mais tempo com a Six, conviver com jovens da sua idade e fazer algumas actividades extracurriculares, mas Six troca-lhe as voltas e vai fazer um intercâmbio para Itália. Sky não se acobarda e continua determinada a ir para a escola, nem imaginando a reviravolta que a sua vida vai dar.

Entra em cena Dean Holder, um rapaz misterioso que a atrai muito, mas que lhe envia sinais mistos, e que desafia Sky como ela nunca tinha sido desafiada. E, pronto, esta parte dos inícios românticos do par é assim para o cliché. A Sky nunca se sentiu assim, ele é tão giro e misterioso e perigoso, uuhhh que bom.

Honestamente, ele emite uma vibe um bocado esquisita em certos momentos. Mais à frente vemos que há uma explicação razoável para o comportamento dele, mas a sério, a autora precisava de levar certas cenas e reacções a certos extremos? Podia perfeitamente atenuado a coisa e ainda assim dar pistas para a segunda parte da narrativa - aqui o problema, parece-me, é mais edição do que outra coisa.

Outra coisa singular é a declaração de Sky que, sim, se envolve com rapazes, mas nunca chegam a vias de facto, porque, não, ela não é uma galdéria. Vou dar-lhe um desconto, porque acho que isto é mais a Sky em modo auto-depreciativo a papaguear o que o resto da sociedade nos quer fazer acreditar... no entanto, preferia que a autora escolhesse outros modos de mostrar a auto-depreciação, porque a coisa é ambígua e não se percebe se está a validar esta falácia ou não. Vou também atribuir o problema a má edição, porque alguém com dois dedos de testa que fosse beta-reader dizia-lhe que isto era uma parvoíce. (O livro foi auto-publicado, originalmente.)

A piada da coisa é que... apesar dos clichés e dos revirares de olhos, o raio do livro devora-se enquanto o diabo esfrega o olho. Passei o último Domingo agarrada a ele, a virar páginas, a dizer para mim própria que tinha de continuar a ler, porque precisava mesmo de ver o que ia acontecer a seguir. A escrita da Colleen Hoover prende uma pessoa, e ela tem um modo de criar personagens vívidos e singulares, com pequenas características únicas. E apesar do início da relação da Sky e do Holder me fazer torcer o nariz, o resto foi absolutamente delicioso de seguir. A química está lá, as cenas íntimas são intensas, e dei por mim a torcer para que estes dois palermas se entendessem.

A segunda parte da narrativa é bem mais séria, e foi a minha favorita por causa disso. (Bem, está empatada com o desenvolver da relação da Sky e do Holder, suponho, que quando passou a parte inicial até foi bem divertida.) Não me posso alongar, porque parte da piada é descobrir aos poucos as coisas com os personagens... desconfiei quase desde o início qual era a "revelação" que vinha aí, mas isso não me estragou o gozo que tirei da leitura.

Posso dizer que gostei muito da descrição da situação e das repercussões que teve nos envolvidos. Achei realista e fez sentido com algumas singularidades dos personagens, para além de haver uma espécie de ressonância dos acontecimentos que acaba por ligar toda a gente mais do que se pensaria. E gosto que a autora tenha mostrado as nuances da situação, especialmente no fim. As coisas não são a preto e branco, e gostei de acompanhar o dilema moral apresentado com aquela situação final.

O elenco de personagens secundários traz algumas personalidades interessantes. A Karen, que é uma mulher mais forte e reservada do que se pensaria, mas que parece ter tido um percurso de vida interessante e duríssimo. A Six, que é uma doida no melhor dos sentidos, muito divertida, e uma óptima amiga para a Sky; e que mesmo não estando presente fisicamente, mantém a sua presença em espírito de modo muito resoluto. E o Breckin, que é o melhor tipo de nerd (livros), e o melhor tipo de amigo (oferece um e-reader à Sky, coisa que ela nem sabia bem o que era, graças a viver numa casa livre de tecnologia, mas na qual fica rapidamente viciada). Gostava que o Breckin tivesse um livro para ele. Sei que a Six teve direito a uma novela, por isso não é demais esperar pelo mesmo.

Acho que posso terminar dizendo que não era bem a história que estava à espera, mas que foi uma bela surpresa. Foi uma leitura mais leve e mais pesada do que pensava que ia ser, equilibrando os seus dois aspectos duma boa maneira. Posso dizer que a escrita da autora pegou em mim e arrastou-me ao longo de todo o livro, só me deixando respirar quando terminei; e fiquei com vontade de ler mais qualquer coisa dela.

Título original: Hopeless (2012)

Páginas: 352

Editora: Topseller

Tradução: Priscila Catão

domingo, 28 de setembro de 2014

Uma imagem vale mil palavras: The Maze Runner (2014)

Nem acredito que estou a dizer isto, mas o filme foi mesmo melhor que o livro. É raro, mas acontece, e este é um dos casos. Em geral, a adaptação cinematográfica de The Maze Runner foi uma experiência muitíssimo mais satisfatória que a leitura do livro, e conseguiu trabalhar melhor os aspectos que me irritaram (que ainda foram alguns), resultando numa história melhor contada. Portanto, cuidado, que este comentário vai ser dominado pelas comparações.

O filme mexe em imensos detalhes, rearranjando um pouco os eventos, mas as coisas principais estão lá, a sequência de acontecimentos cruciais estão lá. Aquilo que as mudanças permitem fazer é mexer no ritmo do enredo, que era um dos grandes problemas que eu tive com o livro. As coisas correm a um ritmo menos "caracolesco", mais adequado a uma história de acção. Enfim, há menos "enrolanço". E uma vantagem de se mexer nos detalhes é que puderam tirar aqueles aspectos que não fazem sentido nenhum, ou que não contribuem nada para a história. O filme ainda sofre um bocadinho da fraqueza narrativa do livro, porque é impossível corrigirem todos os problemas, mas em geral soube-me melhor, a história.

Esta mudança no ritmo, combinada com a falta da narrativa interna do Thomas, acaba por conferir uma maior tensão dramática aos acontecimentos, o que acaba por melhorar a história geral. Cheguei à conclusão que a narrativa do Thomas não ajuda nada. Para além de ser muito tell, pouco show, o Thomas pelas suas circunstâncias singulares, mesmo não se lembrando de nada, conhece o labirinto, e nada que aconteça o espanta ou assusta. Para mim leitora, foi difícil que os acontecimentos me surpreendessem ou assustassem por causa disso. O filme, ao afastar-se da cabeça do Thomas, foca a experiência no espectador, e foi muito mais fácil manter-me investida no desenrolar dos acontecimentos.

Continuam a usar a infantilidade das "palavras substitutas de asneiras", mas curiosamente usam-nas muito pouco, e depois mais à frente os personagens dizem uma ou outra asneira de viva voz, por isso: a) os produtores viram que isto era parvo ou b) esqueceram~se de continuar a usá-lo. De qualquer modo, não me posso queixar da inconsistência, porque foi uma das coisas mais patetas que encontrei no livro.

Como filme em geral, eu gostei do trabalho na acção e nos efeitos especiais, que ajudaram a que entrasse na história. Fiquei fascinada com o conceito diferente do labirinto, mas que resulta muito bem visualmente, e as cenas no labirinto não deixam de ser excitantes. (Algumas cenas na Clareira também estão à altura.) Os Magoadores são finalmente assutadores - é que o autor no livro fez-me imaginar uma lesma gosmenta que lançava uns espigões de vez em quando, e bem, isso não é propriamente assustador. A solução da produção do filme é bem melhor e mais interessante.

Entre o elenco, acho que não tenho queixas, os miúdos fizeram um bom trabalho a fazer-me acreditar na história, e encaixam bem no que imaginava. Tenho pena que o Chuck não tenha tanto destaque como no livro, porque as cenas dele acabam por não ter tanta ressonância emocional; mas o Gally está melhor. No livro o seu antagonismo é levado ao exagero, aqui é mais subtil, mas continua a fazer resultar o seu papel na história. A Teresa continua a ter pouca relevância, mas tem uma ou outra cenas bem giras, como aquela em que ela acorda e deixa os rapazes todos da Clareira a tentar perceber como hão de lidar com uma rapariga.

O Thomas tem um pouco menos aquela aura de "uh, ele é perfeito, sabe tudo sobre o labirinto", talvez porque não temos presente a narrativa do livro, que nos esfrega vezes de mais na cara esse aspecto. E o actor tornou bem mais fácil de acreditar nas emoções pelas quais o personagem estava a passar, ao ser exposto a uma miríade de situações (aparentemente) novas para ele, alguém sem memória e que acorda num sítio completamente novo e desconhecido...

E pronto, sendo o filme uma adaptação do livro, continua a revelar pouco, muito pouco sobre o mundo e os porquês de isto estar a acontecer, que foi uma coisa que me desapontou no livro. Das duas pessoas que foram comigo ver o filme, ambas não tinham lido o livro, e ambas também acharam isto algo frustrante. (Uma delas é a Patrícia do Chaise Longue, podem ler a sua opinião aqui.) E é pena, porque a premissa é super interessante e tem tanto potencial, mas a falta de revelações enfraquece-a.

Em suma, não fiquei lá muito bem impressionada com o James Dashner como escritor e contador de histórias, porque vendo o filme ainda fiquei mais ciente das fraquezas do livro. O filme não é perfeito, e sofre com alguns problemas narrativos, mas consegue melhorar a história e tornou-a numa melhor experiência para mim. Não garanto que toda a gente vá gostar, possivelmente quem não conhece a história pode ficar mais frustrado com ela, mas recomendaria mais facilmente o filme que o livro. Bem, de qualquer modo só com o livro eu ainda estava disposta a ler o segundo livro, precisamente por causa da falta de respostas quanto à premissa, mas o filme deixou-me bastante mais animada para o The Scorch Trials/Provas de Fogo.

sábado, 27 de setembro de 2014

Sexta Campa Além do Abismo, Darynda Jones


Opinião: Mal posso acreditar que já passou quase um ano desde que li o último livro da Darynda Jones. Desta vez não por engonhanço da editora, felizmente, apenas porque estavam à espera que o sexto livro da Charley Davidson saísse na edição original, em Maio. O que, pensando nisso, foi um trabalho bastante rápido, tendo em conta que já o tinham disponível na revista de Agosto do Círculo de Leitores. E nem me posso queixar que a rapidez tenha dado asneira... não notei propriamente erros de tradução ou revisão, por isso desta vez foi um trabalho bem feito.

Neste sexto volume da série, Charley não tem mãos a medir. Um idoso nu que não sabe dizer pelo que é que está à espera para partir, um fantasma no seu apartamento que deixa toda a gente nervosa, um cliente que vendeu a alma a um demónio num jogo de póker, um grupo de mafiosos que quer que Charley encontre alguém, uma mãe que desconfia que o seu filho ainda está entre nós, um pai com uma crise de meia-idade que diz que vai velejar, um tio e uma melhor amiga que não têm coragem para se convidar um ao outro para sair, um par de miúdos falta às aulas e o seu paradeiro está incerto, um novo demónio está no horizonte, e mais ameaças futuras revelam-se.

Que mais é que Charley podia pedir? Na verdade, a miríade de enredos que a autora envolve nos livros é uma das razões pelas quais eu gosto tanto da série. Normalmente, a Darynda Jones consegue equilibrar muito bem os vários fios do enredo e revelar as coisas no momento certo, intercalando muito bem os vários assuntos, nalguns casos resolvendo tudo no mesmo livro, noutros plantando as sementes para os próximos livros.

Achei bem interessante a razão pela qual o cliente do jogo de póker tinha vendido a alma. É algo até bastante valoroso e dá nuance à situação. A Charley é uma mole e está sempre a tentar salvar toda a gente, e por isso tenta ajudar este cliente mesmo com o potencial de perigo. O enredo do idoso nu também é engraçado, por causa das piadas inapropriadas que gera, mas também da razão pela qual ele estava à espera. (Teve uma história de vida bem gira.) O enredo do Angel, que tem vindo a ser exposto ao longo de vários livros, finalmente resolve-se, e é uma história bem comovente - gostei de como a senhora Garza lidou com a situação.

Ri-me tanto com o esquema que a Charley arranja para o tio ter ciúmes e finalmente convidar a Cookie para sair. Eu desconfiei logo como é que aquilo ia terminar, tendo em conta algumas reacções do tio, mas nem por isso deixei de me divertir com o resultado final. Também gostei muito dos pedaços com a Amber e o Quentin, que são uns miúdos adoráveis, e porque ficámos a ver o Quentin a tentar lidar com as suas capacidades. (E voltamos a ver as freiras, que se preocupam tanto com o miúdo, tão fofas!) Além disso, os miúdos são o mote para um pedaço de enredo mesmo triste, que lança a Charley noutra missão de salvamento, pela qual eu estava mesmo a torcer.

Acho que o enredo menos necessário era o dos mafiosos, mas sem uma situação que colocasse a Charley em perigo mortal, isto não era um livro das Campas, pois não? E permitiu voltar a ver a agente Carson, do FBI, que por outro lado já tinha dado um certo dossier de um certo caso à Charley, relacionado com alguém que ela conhece. E creio que a Charley, sem revelar muito, põe a agente Carson na pista correcta, por isso espero ver este ponto explorado no próximo livro.

Entre coisas que não ficaram resolvidas, temos o Mr. Wong, que uma série de gente anda a vê-lo e a ficar nervosa com o que vê dele, o que me deixa a mim nervosa só de pensar no que a Darynda tem em mente para ensarilhar ainda mais a Charley. (Ou então pode ser uma Chekov's gun, pronta para resolver algum problema mais tarde.) De qualquer modo, estou intrigada. Assim como gostava de saber o que é que o pai da Charley está a tramar... tendo em conta o que ele já fez, não me parece que seja propriamente coisa boa.

Gostei da introdução do Dealer, um antagonista cuja posição é ambígua, e que pode ou não vir a ser útil à Equipa Charley nas ameaças sobrenaturais vindouras. Parece-me um personagem interessante e com potencial. Falando nas ameaças vindouras, a mitologia da Ceifeira e dos problemas que esperam a Charley é algo desenvolvida neste volume, o que me deixa sempre um pouco nervosa. Tenho a sensação que se está a preparar tudo para este grande evento no futuro, e só espero mesmo que seja grandioso, e não desaponte.

Continuo a adorar o elenco de personagens secundários, que compõem um belo ramalhete, cheio de idiossincrasias próprias, sempre fantasticamente caracterizado, e que me diverte imenso. Não há personagem que eu não me divirta a seguir, e todos merecem um bónus por terem de aturar o humor pateta e por vezes inapropriado da Charley. É outra coisa em que a autora se tem especializado, trabalhar bem múltiplos personagens secundários com mestria.

Quanto à Charley... continua com o mesmo humor bizarro que me põe a rir que nem uma perdida, se bem que assumo que o humor dela não é para todos, é consumido melhor em pequenas doses, e que quem não a conhece há de ficar a olhar a tentar perceber o que lhe saiu da boca. Um gosto adquirido, portanto. Mas é tão divertida, e tão dedicada a ajudar tudo e todos, mesmo com prejuízo próprio.

Que é uma das coisas que o Reyes lhe aponta, e aqui tem mesmo razão. E por falar nele, estou a gostar finalmente mais do Reyes, porque finalmente percebeu que a melhor maneira de lidar com a Charley não é tentar pará-la ou esconder-lhe coisas, mas sim dar-lhe espaço e ajudar quando é necessário - o que acaba por ser mais frequente do que se esperaria. Diverti-me com a parte do enredo em que a Charley o fez sofrer um bocadinho no que toca a um certo assunto, mas o Reyes também aproveitou a situação para se meter com a Charley.

É satisfatório vê-los finalmente a encontrar um território comum enquanto casal (heh, tendo em conta o que acontece aos respectivos quartos...), a habituar-se aos ritmos um do outro, e a trabalhar em equipa (quando a Charley não se lança às coisas sem pensar, isto é). Também vejo o Reyes mais bem humorado, a integrar-se nesta grande família que gira à volta da Charley Davidson, e a lidar relativamente melhor com o seu passado, sendo um pouco menos reclusivo nesse assunto. Tendo em conta que isto eram aspectos da sua personalidade que achava problemáticos e que me faziam não gostar muito dele, está a subir na minha consideração.

O fim é um pouco ominoso, não por terminar mal ou em cliffhanger, mas é revelada uma situação que não sei muito bem como é que a autora vai explorar. De qualquer modo, estou super curiosa e intrigada com toda a coisa. Aguardo por novos desenvolvimentos.

E pontos bónus para a edição, que inclui no fim uma cena do livro sob o ponto de vista do Reyes. Não é sempre que incluem estes extras, por isso fico contente.

Título original: Sixth Grave on the Edge (2014)

Páginas: 312

Editora: Círculo de Leitores

Tradução: Ana Lourenço