sábado, 22 de fevereiro de 2014

O Oceano no Fim do Caminho, Neil Gaiman


Opinião: O Oceano no Fim do Caminho é um livro encantador e singular sobre a natureza da memória e o mistério da infância. Com uma estrutura original, a de um narrador adulto que navega nas águas da memória para recontar uma história da sua infância, acaba por se destacar por isso mesmo. A minha primeira experiência com o autor em ficção narrativa e a solo deixou por isso boas memórias, e provavelmente não será a última.

O narrador, encontrando-se numa encruzilhada da sua vida, dá por si a encaminhar-se para um local de infância onde tudo mudou, deixando uma marca indelével. E nesse local, o narrador revê um momento da sua infância, terrível e belo, que acabou por definir a sua vida a partir daí. Achei este enquadramento muito interessante, porque permite-nos questionar sobre a qualidade da memória. Sobre aquilo que nos lembramos da nossa infância e quanto dessa lembrança está colorido por uma série de factores.

Gosto do tom subtil de fantástico da história. Não é uma coisa óbvia, e faz parte do quotidiano. Não é alardeada nem nos bate na cara até reparamos nela. Simplesmente é. Apreciei a caracterização das Hempstock como a tríade mística da donzela, da mãe e da velha. E de conhecer coisas mais velhas que a própria terra, coisas que habitam os pesadelos e os recantos mais sombrios.

Outra coisa que apreciei é o retrato da infância. A sensação de liberdade e de impotência. O narrador vê-se numa situação complicada, e o pior é que não pode pedir ajuda aos adultos. Ninguém vai acreditar nele. Esse sentimento de impotência é muito interessante e dá uma maturidade ao rapaz de 7 anos que nos conta a história.

A sensação de nostalgia que a história deixa é significativa, mas também tenho a sensação que a conseguiria apreciar mais se fosse um pouco mais velha, se tivesse um maior distanciamento da minha infância. A história está construída como uma ode à nostalgia da infância, e não tenho ainda a idade suficiente para ter saudades da minha infância. Nesse aspecto, acho que gostaria de reler o livro daqui a uns bons largos anos, para ver se a minha perspectiva muda.

Título original: The Ocean at the End of the Lane (2013)

Páginas: 184

Editora: Presença

Tradução: Rita Graña

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