terça-feira, 10 de março de 2015

Entre o Agora e o Sempre, J.A. Redmerski


Opinião: Esta é uma opinião estranha e complicada de fazer. Gostei muito do primeiro livro. Foi uma história cativante, com uma escrita absorvente e realista, que me fez virar as páginas vorazmente. No entanto, um certo desenvolvimento no final fez-me comichão. Para uma história tão realista, sobre quebrar com o que é esperado que se faça, acabou por tomar a via convencional, usou o cliché. Esticou um bocado a corda nesse aspecto. Além disso, a sinopse deste livro sempre me fez pensar que esse desenvolvimento seria desfeito, o que me fez na altura questionar ainda mais a sua presença.

O que tenho a dizer é que este último sentimento se estendeu a boa parte desta leitura. Oh, continuo a gostar muito da J.A. Redmerski e da sua escrita, de como ela escreve a sua história e os seus personagens, e posso dizer que apreciei voltar a acompanhar a Camryn e o Andrew. Apenas... questiono a existência deste livro. Não sei se trouxe algo de novo, e dentro da história que conta podia ter inovado. Assim, parece mais do mesmo, em partes. (Irónico se tomarmos em atenção que os personagens neste livro se tornam quase doutrinários ao falar de não fazer o esperado. Não era preciso tanta veemência para depois dar um tiro no pé.)

É que depois da "tragédia", a Camryn e o Andrew voltam à estrada, para se "reencontrarem", e os caminhos que percorrem são diferentes do livro anterior, mas a viagem é feita nos mesmos moldes. A certo ponto voltam a New Orleans, e a Camryn comenta, ao fim de um dia de visita, que devem partir, porque em NO só vão tentar reviver as emoções fortes da visita anterior, em vez de recordá-las e fazer novas memórias.

Curioso, foi assim que me senti durante boa parte do livro, especialmente nesta fase da viagem. A Camryn e o Andrew falam de viajar para fora, ver o mundo, e eventualmente acabam por fazê-lo mais à frente, noutro contexto, mas pergunto-me se viajar pelo mundo não teria sido uma boa aposta para esta viagem principal deles no livro. Seria uma inovação em relação ao livro anterior, e poderia servir o mesmo propósito.

Uma coisa que me deixa na dúvida são os saltos temporais. O fascínio do primeiro livro consistia em viver o momento, sem interrupções. Neste livro, há alguns saltos no tempo. Durante a viagem principal, e a parte inicial do livro, até fazem sentido; não precisamos de ver tudo, apenas os destaques. Mas mais tarde o par protagonista chega a viajar pelo mundo, e com um novo elemento presente, e adorava poder ter visto mais disso. Teria sido verdadeiramente interessante de acompanhar, é um novo desafio para eles.

Outra coisa que me desanimou é o contexto em que os saltos temporais são feitos na parte final do livro: para nos mostrar flashes da vida futura da Camryn e do Andrew, e nessa medida são bastante convencionais, parecem feitos para satisfazer a autora e os leitores, não porque a história os pedia. Claro, é muito bom ver o que lhes aconteceu, mas como não são mais preenchidos, não sinto que a história necessitasse mesmo deles. A certa altura dei por mim cansada, porque o livro nunca mais acabava, e sentia a repetição.

O capítulo final, com uma nova personagem, não é particularmente importante, porque não tivemos oportunidade de a conhecer, saber quem é como pessoa, preocupar-mo-nos com o que lhe acontece. Só lá está pela relação que tem com o casal protagonista. Gostava mesmo que a autora me tivesse feito ficar mais investida na personagem.

Nem tudo é mau, no entanto. Na verdade, se tivesse de o classificar, daria a este livro uma boa nota. A única razão para me queixar tanto é porque me sinto frustrada por não lhe poder dar uma nota excelente, como teria dado ao primeiro livro. Porque as coisas de que gostei anteriormente estão lá. Uma escrita emocionante e emocional. Personagens realistas e que dá gosto conhecer e acompanhar. Uma história que cativa e apela ao bichinho viajante dentro de todos nós.

Passei muitos bons momentos com estes personagens anteriormente, e por isso dá um gozo enorme voltar a estar com eles, saber o que lhes aconteceu, encantar-me e emocionar-me com o que enfrentam, divertir-me com as suas peripécias ao viajar. A noção das mudanças na sua vida neste livro é bem intrigante e gosto bastante da ideia de os ver neste novo papel.

Enfim. Continua a ser um bom livro, e uma autora fantástica, e uns óptimos personagens. Apesar de todas as lamúrias, posso genuinamente dizer que passei um bom bocado com a leitura; só me sinto frustrada porque queria e esperava mais e melhor, o que creio que a autora é capaz de fazer.

Uma nota para a tradução. Há uma palavra que é usada ao longo da história e descreve a situação da Camryn e do Andrew, mas que não posso dizer qual é por ser um spoiler. O meu problema é a palavra que a tradutora usa em português para ela - é uma palavra tão antiquada, dos tempos da minha avó. Parece-me que ninguém da geração da Camryn e do Andrew a usa, por isso gostava de saber porque raios é que a tradutora a foi usar, esquecendo-se da audiência-alvo do livro. Bolas, é que é um termo tão arcaico e inadequado, e dei por mim a ranger os dentes cada vez que tropeçava nela.

Título original: The Edge of Always (2013)

Páginas: 400

Editora: Presença

Tradução: Fátima Andrade

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