sábado, 7 de março de 2015

Sete Minutos Depois da Meia-Noite, Patrick Ness, Siobhan Dowd, Jim Kay


Opinião: É um pouco difícil explicar este livro. O tema central é algo que é extremamente subjectivo, dependendo muito das experiências pessoais de cada leitor, que hão de colorir a sua percepção da história. No entanto, acredito que é uma história com a capacidade de cativar e comover, e que vale a pena apostar nela, pela abordagem única que faz.

Recomendaria Sete Minutos Depois da Meia-Noite porque a maneira como é escrito e contado lembra-me um conto de fadas, daqueles à antiga. No sentido daquelas histórias sombrias e cruas, que falam de verdades terríveis que carregamos cá dentro. Aquele tipo de coisas que não nos atrevemos a verbalizar, e por isso criamos histórias, como esses contos de fadas, para tentar lidar com isso.

O protagonista Conor é um miúdo de (apenas) 13 anos. E no entanto, as circunstâncias obrigaram-no a crescer. Um pai ausente e absorvido pela nova família. Uma avó distante e dura. Uma mãe fragilizada pela sua condição. Uns miúdos da escola que se metem com ele.

Diria que a mais-valia deste livro é que Patrick Ness escreve honestamente. Não infantiliza o Conor. Por vezes é demasiado fácil esquecer do rico mundo interior que uma criança porta; eles compreendem mais do que lhes damos crédito, apenas não tiveram a oportunidade de desenvolver mecanismos para se protegerem de realidades terríveis, do sofrimento e do luto, e o que parece inocência e desconhecimento pode esconder uma forma de tentar lidar com a questão.

Adorei ler o percurso do Conor na história, passei o tempo com o coração a espremer-se de aflição, de impotência por não poder ajudá-lo e protegê-lo, porque ninguém merece passar por este tipo de experiência, apesar de eventualmente nos acontecer a todos. Só que ele é tão novo, e a noção de que isto ia marcá-lo pelos seus anos formativos é aflitiva.

Achei tão interessante a presença do monstro, a transfiguração do teixo que Conor e a mãe vêem da janela da cozinha. Gostei muito da dúvida que deixa sobre a sua natureza, mas ainda mais sobre como é um reflexo e uma manifestação dos problemas e dúvidas interiores que Conor enfrenta, e como lhe permite exteriorizar (nem sempre de maneira saudável, mas ao menos está a deitar cá para fora) tudo o que sente.

O fim, bem, podia dizer que é perfeito, mas soa-me mal, tendo em conta o conteúdo, por isso vou dizer que é adequado tendo em conta o desenvolvimento do enredo até aí. É triste, mas também é catártico, e nesse aspecto quase que deixa um bocadinho de esperança.

È verdadeiramente trágico que Siobhan Dowd não tenho podido desenvolver a história que desejava antes de morrer, mas espero que fosse algo como isto. (A ideia original é dela, mas depois da sua morte a ideia foi apresentada a Patrick Ness para desenvolver numa história.) Por outro lado, vale muito a pena destacar o trabalho de Jim Kay nas ilustrações, cruas, primitivas, mas belas e fascinantes, e acompanhando perfeitamente a história.

Uma última menção à edição portuguesa. Comprei porque queria ler o livro, e porque ainda vou acreditando às vezes em comprar em português para incitar as editoras em publicar mais coisas do género da que estou a adquirir. Contudo, gostava mesmo que a edição fosse um pouco melhor. O papel é daquele brilhante/de toque avernizado (nunca sei como se chama) - o que já é bom, não terem tentado imprimir as ilustrações no papel normal que a editora usa.

Só que esse papel também tem uma gramagem maior, fazendo o livro bem mais pesado que alguns com o dobro do tamanho. Sinto que o livro precisava de uma encadernação melhor, de algo que suportasse melhor o papel. Nem badanas tem! Além disso, dei por mim com muito medo de abrir bem o livro nas ilustrações em dupla página. Não por não querer dobrar a lombada, mas achei que o livro era frágil o suficiente para estar em perigo de se desfazer nas minhas mãos se o tentasse abrir mais.

Acabei por ficar a desejar ter comprado em inglês em hardcover, porque com esse eu teria toda a confiança para abrir o livro à vontade. É uma pena, porque merecia uma edição das boas. Além disso, que raios é aquela tralha toda na capa? A citação do John Green é completamente desnecessária (podia ser relegada para a contracapa), e as bolinhas azuis dos prémios só entopem e ajudam a distrair da arte de Jim Kay (again, deviam estar na contracapa). Que péssimo trabalho de design.

Por outro lado, apesar de ter torcido inicialmente o nariz a terem mudado o título, acabei por ficar a gostar bastante dele, especialmente depois de compreender o seu significado - é bastante adequado. E em nota final, louvo o pequeno extra que o livro traz, um poster com uma das ilustrações de Jim Kay. Muito bom.

Título original: A Monster Calls (2011)

Páginas: 216

Editora: Presença

Tradução: Ana Cristina Pais

5 comentários:

  1. Olá :)
    Este livro já está na minha wishlist, estou extremamente curiosa em relação a ele. Sou ouço e leio maravilhas sobre este livro.
    Beijinhos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá! :D

      Se tiveres oportunidade de ler, vale bem a pena aproveitar, é uma história bonita, triste e marcante. Imagino que não deixe ninguém diferente. :)

      Boas leituras! ;)

      Eliminar
  2. Acho que por norma a Presença não costuma fazer mau trabalho com as edições. Nunca tinha ouvido falar deste livro mas fiquei com curiosidade :) beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Normalmente acho que trabalham bem, e por isso é que me espanta que não tenham tido um cuidado especial com este livro, já que tem moldes diferentes do que costumam publicar (tem texto+ilustrações, e um papel completamente diferente). :S

      Se chegares a ler, espero que gostes. ;) Boas leituras.

      Eliminar
  3. Comprei e vou mesmo querer ler em breve :)

    ResponderEliminar