quinta-feira, 29 de junho de 2017

Fala-me de Um Dia Perfeito, Jennifer Niven


Opinião: Ah, estão tão cansada das comparações ao John Green. Pior, estou cansada dos livros que são escritos à moda do John Green, tentando preencher um nicho. John Green só há um, que faz o que faz com relativo sucesso e mestria, e tentar imitá-lo só vai, na minha opinião, dar asneira.

Digo isto porquê? Porque apesar de ter apreciado em parte a leitura, passei demasiado tempo a exasperar-me com a tentativa da autora de seguir a fórmula Greeniana. Ora vejamos: os dois protagonistas conhecem-se num cenário inusitado - ambos estão na torre da escola, a contemplar o suicídio. Só que o Finch vê a Violet ali mesmo ao lado e distrai-a e demove-a de seguir com um plano que ela própria não tinha pensado em toda a sua extensão.

Depois, temos a maneira como o enredo se desenvolve: é vazio. Não se pode propriamente dizer que alguma coisa acontece. E os personagens são pequenos flocos de neve preciosos, excêntricos só pelo objectivo de serem diferentes, não por terem uma personalidade rica.

A Violet, por exemplo, pareceu-me vazia, como personagem. O que a determina é a tentativa de suicídio, o seu processo de luto, e a suposta depressão que terá por causa disso. No entanto, ela é caracterizada de forma tão fraca que nunca, bem, achei credível qualquer parte deste processo.

Adoraria poder ter visto uma caracterização de depressão bem feita, mas lamento, quando a rapariga é inspirada a melhorar pelas interacções com o Finch? Não que a interacção com os outros não permita que alguém no estado da Violet não melhore, mas o processo mental de a pessoa melhorar por si mesma nunca é sublinhado, e assim parece que o Finch é o motor disso. O que é totalmente errado. Não são os outros que nos curam, não é o amor que resolve tudo.

Pronto: enredo fraco (durante um bom bocado no início falha em captar a atenção), caracterização fraca e a soar falsa, uma escrita pseudo-bonita a soar a vazia. Que tem este livro a favor dele?

Maioritariamente, o Finch como personagem. Aliás, este livro seria dez vezes mais interessante se o Finch fosse o protagonista e se nos focássemos na sua caracterização. Ele é intenso e demasiado in your face no que toca à Violet, sendo desconfortavelmente impositivo. Mas a maneira como se interessam pelo outro, a sua química, é cativante de ver (ou ler).

Além disso, a sua caracterização no que toca à sua saúde mental é algo muito interessante de ler. As descrições do que lhe acontece, do que a sua mente lhe faz... e a envolvência de ele ter uma doença mental e ninguém o reconhecer. É assustador ver o desleixo da família, o bullying que sofre, a incompreensão de que a doença mental também existe nos jovens, e a incompreensão da doença em específico que o Finch sofrerá (nunca é diagnosticado, mas o livro sugere que é doença bipolar, e a caracterização aponta para isso).

(É claro que com isto algumas atitudes dos que o rodeiam são um pouco extremas e incredíveis. Com a mãe e o pai há razões para não verem que está doente, mas e a irmã Kate, que encobre os seus momentos depressivos? Faria sentido vê-la tentar ajudar o irmão. Ou a sério que ninguém na escolta tenta parar os extremos a que vai o bullying? Quer dizer, o jornal extraoficial da escola publica um artigo sobre as pessoas mais prováveis de se suicidarem na escola. Não me tentem fazer crer que pelo menos alguns dos professores não estariam cientes do mesmo. Em suma, acho altamente incredível que não houvesse alguém que tentasse ajudar o Finch, ainda que sem sucesso.)

O final, apesar de tudo, é chocante e cru, é triste. É inevitável e envolvente. É o reconhecimento que o amor não resolve tudo. Apreciei que a Violet tentasse ajudar da maneira que pudesse, que no caso, vendo-se incapaz de ajudar directamente, consistiu em pedir ajuda aos pais. É um bom reconhecimento que nesta idade não somos capazes de tudo, e podemos e devemos pedir ajuda quando estamos assoberbados.

Sofre de alguma Greenite na recta final, mas é marcante. E franzo o sobrolho um pouco às implicações de que o Finch mudou a Violet, a transformou e colocou no caminho do melhoramento - de novo, não são os outros que nos salvam, somos nós mesmos que o fazemos.

Contudo, redime-se em parte das muitas fragilidades que apresenta. Podia estar melhor escrito, ser uma melhor história? Podia. Mas é o livro que temos em mãos. Só me resta desejar que a autora aprenda e tenha escrito um melhor segundo livro YA. (Que também já está publicado, e se chama O Universo nos Teus Olhos.)

Título original: All the Bright Places (2015)

Páginas: 360

Editora: Nuvem de Tinta (Penguin Random House Grupo Editorial)

Tradução: Isabel Veríssimo

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