terça-feira, 27 de junho de 2017

Isto Acaba Aqui, Colleen Hoover


Opinião: Portanto, mais um para a minha história dos Altos e Baixos Com a Colleen Hoover. Neste caso, orgulho-me de dizer que é um alto. Muito alto. Emocionalmente, criativamente, tecnicamente, é o livro mais complexo e mais completo que lhe vi. Tem um par de coisas que gostava de ver mais desenvolvidas, mas é extraordinário na maneira como dá nuance a uma situação que tão frequentemente é (erradamente) simplificada.

Estava aqui a perguntar-me... é suposto fazermos caixinha acerca do que o livro é? Porque a sinopse original é muito vaga, sim - enquanto que a portuguesa é bastante óbvia -, e de qualquer modo, acho que eu já sabia do que tratava só de ler opiniões por aí. E de qualquer modo não acredito que se ganhe nada por ser uma surpresa. (Até é interessante o leitor ir com os seus preconceitos para a leitura, para os ver desafiados.)

Lily é uma jovem que acabou de se mudar para Boston, para recomeçar a vida. A vida familiar não era de sonho, e a morte recente do pai tornou mais presentes memórias passadas. Um dia, sentada num telhado dum prédio, a pensar, Lily cruza-se com um jovem neurocirurgião, Ryle, que à primeira vista aparenta estar a descontar um mau dia numas cadeiras, que pobrezinhas, não lhe fizeram mal nenhum.

Ryle é encantador e misterioso, e Lily faz clique com ele. Um momento partilhado faz com que seis meses depois, com uma ajudinha da serendipidade, se cruzem novamente e decidam encetar uma relação. É intenso, é emocionante, e absorvente.

A parte interessante de ver a sua relação desenvolver-se, no entanto, é poder fazê-lo de fora. Desde o início que Ryle mostra alguns sinais alarmantes no que toca à sua personalidade - a sua cena inicial podia ser desculpável, qualquer pessoa tem momentos de frustração... mas pareceu-me que ele tinha demasiado gosto em deixar a Lily pendente com a sua coisa de não ter relações mas andar sempre atrás dela, tipo abelha em torno do mel. Há certas atitudes meio controladoras que ele tem no início da sua relação, que são preocupantes para quem vê de fora - mas que facilmente passam ao lado para quem está enlevado, nos píncaros da paixão.

E é esse, creio eu, precisamente o objectivo, o argumento do livro. (O que a autora estaria a tentar mostrar, quero eu dizer.) É muito fácil julgarmos de fora. ("Porque é que ela continua com ele?") Vejamos a Lily, que teve um exemplo muito claro em casa do que não é uma relação amorosa estável e saudável em casa... ela conhece os sinais. E mesmo assim cai na armadilha. O amor faz-nos coisas estranhas. Coloca-nos umas palas nos olhos que nos deixa cegos a muito, e oferece-nos uns óculos de lentes cor-de-rosa que nos fazem teimar em ver sempre o melhor.

Gosto de ver a Colleen pôr as coisas nestes termos. Todos podemos cair na armadilha. Todos podemos decidir perdoar e perdoar até a situação se tornar incomportável. Mas só nós podemos reconhecer o ciclo vicioso e quebrá-lo.

Outras duas coisas que achei interessante de ver: como a Lily entende melhor a mãe depois de passar por tudo isto. Há um respeito extraordinário pela senhora, e uma cena no fim com ela é bem tocante. E como toda a situação é descrita com nuance: entendemos porque o Ryle reage como reage, mas isso nunca é uma desculpa para o seu comportamento, que é descrito de forma muito clara como errado. E quando a Lily entende que não pode tolerar mais a situação, porque o amor não é suficiente e tem a quem dar um melhor exemplo que recebeu da mãe... não há desculpas. Há um entendimento que nada é simples, que haverá sempre ali uma ligação, mas que isso não justifica tudo o resto.

Gostava ainda de fazer uma menção à Lily... fora desta situação, ela tem um sonho, e segue-o. E é bem-sucedida a fazê-lo. Nada é mais inspirador que isso. E outra menção aos personagens secundários... adorei a Alyssa e o marido, tão amorosos e engraçados.

(E já agora, aiaiai, a Colleen e a sua paixão por nomes estranhos. Ryle, Alyssa, Rylee, Atlas... a sério? As pessoas na vida real não se chamam assim.)

Uma última menção para o Atlas. Não bastava ter um tema inspirador, era preciso dois. Atrevo-me a dizer que a Colleen foi demasiado ambiciosa. Gosto muito que ela tenha abordado a história do Atlas. Chama a atenção para uma situação por que demasiada gente passa, e que é tão fácil se perderem nos meandros do sistema...

Pergunto-me no entanto se não daria para escrever um segundo livro com a sua história. o que ele andou a fazer quando se separou da Lily, e acho que faria mais sentido nesse volume eles se reconectarem a sério.

Uma menção para a tradução, e não é das melhores... não aprecio quando os tradutores deixam que a cultura popular lhes passe ao lado e façam algumas asneiras a lidar com as menções a ela. Exemplo: traduz-se SpongeBob (o que me parece desnecessário), mas depois não se traduz Dory (há muitas menções a À Procura de Nemo) por Dóri, que é como a personagem é conhecida em Portugal. Entre outras coisas... enfim.

Título original: It Ends With Us (2016)

Páginas: 336

Editora: Topseller

Tradução: Dina Antunes

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