quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Curtas: BD

Este foi o último livro que li, dos vários que comento neste post, e foi uma boa coisa que o tenha guardado para último, porque foi the best for last. Depois da maneira trapalhona como o Jacques Tardi narra as suas histórias, foi um colírio para os olhos poder ler esta história de Alison Bechdel, que é tudo menos trapalhona.

O livro é uma espécie de autobiografia, ou memória, em que a autora revê a relação com o pai. Creio que usa a história como uma forma de exorcizar os demónios que a vida familiar e a educação que teve trouxeram, e ao mesmo tempo reflectir exaustivamente na relação com o pai e no tipo de pessoa que o pai era, como se estivesse a tentar resolver um mistério. Pode não chegar a uma conclusão concreta, porque aqueles que partem não nos deixam todas as respostas, mas é uma viagem interessantíssima de acompanhar.

A narração é deliciosa. As palavras de Alison Bechdel escoam tão bem pelos olhos, foi tão fácil deixar-me enredar na história, nas sucessivas camadas que constrói em torno da sua infância e juventude. A história não é linear, saltamos e retornamos a várias alturas da sua vida, descascando aos poucos as várias camadas, descobrindo mais pormenores e mais perspectivas únicas da autora sobre os eventos, muitos deles reconstruídos mais tarde, pois aquilo que acreditava em criança não encaixava exactamente com o que aconteceu realmente.

Gosto muito de como faz comparações, e liga eventos da sua vida uns aos outros, encontrando um elo único entre eles. Apreciei muito as comparações literárias, pois a relação com os pais foi bastante marcada pela literatura, e de certo modo, a autora sabe mais relacionar-se com eles pelos livros que liam e partilhavam, do que na partilha de afectos, algo que numa família tão fria e desligada não era comum. De certo modo, ela sabe relacionar-se melhor com os pais através da ficção, como se fossem personagens, e este livro é mais um aspecto disso.

No meio disto tudo a história ainda tem um certo grau de despertar sexual, em que a autora "sai do armário" para os pais a certa altura da sua vida... e quatro meses depois, o pai morre, num acidente que a autora suspeita que foi provocado pelo próprio, em jeito de suicídio. Acaba por ser fascinante acompanhar a sua reflexão acerca da sua sexualidade, de como se sentiu toda a vida, e quanto da repressão da sua identidade sexual está relacionada com a vida familiar e com a atitude sufocante, dominadora e até violenta que o pai tinha.

De certo modo, a autora faz um mea culpa, achando que a sua revelação precipitou os acontecimentos, ainda que não directamente, e o livro é também uma forma de lidar com isso, e de tentar encontrar uma ligação ao pai, um homem tão afastado emocionalmente, e de encontrar respostas para esse acontecimento trágico. No meio disto tudo, a personalidade de Bruce Bechdel é esculpida perante os nossos olhos, muitas das suas acções escrutinadas na página, mas quem ele era continua a ser um mistério que não é possível resolver.

A arte é simples, mas encaixa bem com a narração, e melhor, é tão interessante de acompanhar quando ela parece estar a falar dum assunto completamente diferente, mas que no fim se relaciona com o que estamos a ver. Há pequenos apontamentos muito interessantes, como as citações de livros, o uso do dicionário, ou o presença constante da cultura popular e dos eventos da época.

Li há dois anos um volume que continha duas histórias autoradas por Jacques Tardi, a terceira de Adèle Blanc-Séc, O Sábio Louco, e uma aparentemente não relacionada, O Demónio dos Gelos. Ao pesquisar os volumes de Adèle Blanc-Séc recentemente publicados em Portugal pela Asa, cheguei à conclusão que esse livro tem o conteúdo igual ao volume 2 que faz conjunto com estes dois que vou comentar.

Continuo a questionar o terem escolhido aquele livro para apresentar a personagem, porque fazia mais sentido começarem pelas histórias do volume 1, Adèle e o Monstro e O Demónio da Torre Eiffel. O Demónio dos Gelos tem uma ligação directa com a quarta história da Adèle, Múmias Loucas, presente no terceiro volume (a outra história que contém é O Segredo da Salamandra, a quinta história da personagem). Além disso, a terceira história pega em personagens das histórias anteriores, por isso não admira que tenha ficado confusa na altura.

Acho o Jacques Tardi um péssimo argumentista, mais valia que outra pessoa fizesse os textos. Primeiro porque temos horrores como vinhetas a fio em que o texto/balão ocupa mais de metade da vinheta (às vezes temos uma página cheia deste tipo de vinhetas); depois, porque é um péssimo narrador. Mete dez personagens diferentes à procura da mesma coisa na história, todos muito iguais, sem características distintivas, atira-nos com os nomes deles e depois espera que consigamos acompanhar a narrativa e as motivações desta gente toda.

Faz ocasionalmente uns info-dumps do demo no fim da história, para explicar o que se esteve a passar, quem era quem e o que queriam. (O que não era preciso se a história estivesse melhor construída, mas pronto.) Nunca percebemos porque é que a Adèle se mete neste imbróglio, graças à tentativa do autor de fazer mistério sobre a personagem. (E uma menção fugaz a ela ser escritora não chega, lamento.) E enfim, toda a história é muito confusa, desnecessariamente, diria eu. Compreendo que o autor esteja a emular e parodiar um certo tipo de história que não primava pelo rigor narrativo, mas creio que haverá quem consiga fazê-lo sem tornar a própria história num desastre.

Os detalhes da narrativa são por vezes interessantes. Gosto muito da ideia de um início de século XX, uma era de divulgação e conhecimento científico, ser invadido por uma série de acontecimentos sobrenaturais, como um petrodáctilo pterodáctilo (piada interna, um dos personagens passa a vida a trocar o nome ao bicho), ou deuses sumérios que exigem sacrifícios, ou múmias que se erguem das tumbas e fogem para o Egipto, ou processos criogénicos e soros milagrosos que trazem personagens de volta à vida. A Adèle é uma personagem com potencial, só é pena que se afogue numa narrativa tão medíocre.

Só se salva a arte. À parte os personagens serem todos parecidos, os cenários são sempre detalhados, fantásticos de observar... é o forte do autor, e devia cingir-se a ele. Também devia pesquisar melhor a sua História. Há uma referência ao Titanic, cheia de buracos, e mesmo argumentando que isto é história alternativa ou um mundo paralelo, se não há razão ou explicação directa para mudar a data e o local de embarque, e a data da tragédia, não se percebe porque é que ele os mudou. O Titanic não partiu de Liverpool dia 8 de Abril, nem chocou com o iceberg dia 20 (partiu dia 10 de Southampton, chocou dia 14 e afundou-se já no dia 15)... basicamente só acertou no ano (1912). A ideia de envolver o Titanic na história é boa, e a explicação que o autor dá para o afundamento é interessante, mas esta invenção de datas e locais não faz sentido, especialmente numa narrativa que tem tantos saltos temporais e que nem precisa de mexer nas datas para fazer caber os acontecimentos.

Pequenos Prazeres, Pequenos Prazeres 2, Arthur de Pins, Maïa Mazaurette
Pronto, com estes dois livros (que recolhem o equivalente a 4 volumes em francês), diverti-me imenso. Retratam a vida social e sexual dum jovem, Arthur, e as suas peripécias, sempre à procura de mais uma moça para se enrolar, interessando-se e desinteressando-se pelas jovens que lhe passam á frente tão rapidamente como quem muda de camisa.

Os gags são muito divertidos, com um tom decididamente adulto, e com uma visão singular das relações entre homens e mulheres hoje em dia. Adorei quando entra em cena a Clara, que ainda é mais doida que o Arthur, e por isso apreciei quando o início do segundo livro (equivale ao terceiro em francês) se foca mais nas aventuras e desventuras dela.

Amei a segunda parte do segundo livro (quarto volume em francês), que é sobre dois amigos do Arthur e da Clara casarem-se, e como isso os leva a fazer uma aposta... e é tão hilariante ambos tentarem fazer o outro perder a aposta. Ainda melhor, é o caos que eles lançam no casamento em si... é de ir às lágrimas.

Os gags normalmente ocupam duas páginas (ocasionalmente mais, ou menos), e o desenho e o layout das páginas é simples, mas serve muito bem a narrativa. Gosto muito do uso de cores, e de como desenha os cenários e os personagens - que não têm nariz, mas o autor faz resultar o "boneco".

Aprecio a ideia da Contraponto, de juntar dois volumes originais num para a edição portuguesa, porque os livros são devoráveis e saberiam a pouco. Só é pena que não o autor não tenha publicado mais nada com estes personagens, porque gostaria de continuar a ler as suas aventuras e desventuras.

domingo, 21 de setembro de 2014

Heir of Fire, Sarah J. Maas


Opinião: Cada vez mais o tempo entre o lançamento de cada livro desta série parece um looooongo intervalo em que eu tento entreter-me com outras coisas para não dar em doida à espera, a suspirar para ler só mais um bocadinho. Ainda há dias andava eu a saltitar de contentamento por ter o livro nas mãos, por ao fim de um ano de espera poder finalmente lê-lo (ó para o meu eu tão inocente e fofinho), e agora volto novamente à inevitável irrequietude da impaciência. Há de certeza uma lição qualquer aqui para ser aprendida. A gratificação instantânea de devorar uma das minhas séries e autoras favoritas é que não me deixa vê-la, quanto mais aprendê-la.

Depois do pequeno vendaval que foi o Crown of Midnight, e depois de um certo acontecimento trágico que prometia ajudar a mudar o curso da narrativa da saga, Heir of Fire foi mais como um furacão. Deixou tudo do avesso (no bom sentido), enquanto que o centro da história, o olho do furacão, é bem mais calmo, investindo no desenvolvimento e caracterização dos personagens, preparando-os para enfrentar o que ainda há de vir.

É esse um dos aspectos da Sarah como escritora que mais aprecio - a maneira como ela retrata emocionalmente os seus personagens, que é soberba e fabulosa. Sim, isto é fantasia épica, mas os personagens são humanos (bem, quase todos), e as suas emoções são humanas, e tão vívidas e bem exploradas que é tão fácil despertar a nossa empatia, e compreender aquilo que sentem e experienciam, mesmo que não tenhamos experiências comparáveis no mundo real. Foi por isso que a Celaena, a protagonista, me encantou desde o início. Uma caixinha de contradições com um mundo interior riquíssimo.

E pronto, esta é a história da Celaena. Especificamente, e é um pouco difícil falar sobre isso sem spoilar, sobre finalmente enfrentar os seus demónios. Basicamente ela escondeu-se num pedaço de si e da sua personalidade, a Celaena Sardothien, para evitar lidar com tudo o que está para além disso, o que é compreensível, pois passou pelo tipo de coisas que uma criança de 8 anos não devia ter de enfrentar, e sobreviveu. E o enterrar de tudo isso manteve-a viva este tempo todo, e permitiu-lhe fazer coisas e ganhar capacidades que não teria de outra maneira. Mas não é maneira de viver, e agora que chegou à idade adulta e que pode fazer algo para corrigir as injustiças, é bom vê-la lidar com o passado, aceitar o que não pode mudar, e assumir a responsabilidade para a qual agora está preparada.

Parte do interesse do percurso dela ao longo do livro relaciona-se com o ver respondidas imensas perguntas sobre o passado dela. A sério, diria que a Sarah fez caixinha no primeiro livro, Throne of Glass, no que toca a worldbulding e background, apesar de revelar bastante, porque desde então tem dado uma imensa riqueza de pormenores ao mundo em que Erilea se insere. Estou maravilhada com as pequenas e grandes coisas que tenho vindo a descobrir. E isso também se aplica à Celaena e ao seu passado. Tanto o trágico, e as razões pelas quais ela se tem mantido discreta, como o bom, conhecer aqueles que a rodeavam na infância (com direito a ler uma cena sobre uma vez em que a Celaena e o Dorian se cruzaram em miúdos, que é a coisa mais adorável de sempre).

A outra parte tremendamente interessante do percurso da Celaena é conhecer alguém que é igualmente casmurro e mal-humorado, com quem a Celaena pode andar às cabeçadas e insultar e (tentar) dar porrada, que vai responder na mesma moeda, no qual ela reconhece uma alma igualmente ferida e que a vai ajudar a sair do poço e a enfrentar as mágoas. É o Rowan, com o qual desenvolve uma amizade deliciosa e bem engraçada de acompanhar, e que tenho a certeza que vai ser um dos defensores mais acérrimos dela, e uma boa adição para o grupo que se vai juntando em torno da Celaena. Além disso, o Rowan é um Fae, e simplesmente adoro a maneira como a Sarah está a apresentar os Fae e semi-Fae. Muito territoriais e protectores, a lembrar-me do modo como os Sangue da Anne Bishop eram.

Isto leva-me a outro ponto que queria destacar: o foco nas relações não-românticas. Uma parte dos personagens está num ponto de viragem, a descobrir coisas sobre si mesmo ou a perceber onde vão ficar no grande esquema das coisas, ou simplesmente a lidar com demasiada turbulência interna para manterem uma relação romântica saudável. O que não é mau, já houve espaço para esse pedaço da experiência humana na saga, e tenho a certeza que vai voltar a haver. Mas essa ausência dá espaço para a Sarah J. Maas desenvolver um verdadeiro hino à amizade, mostrando vários tipos e estados de amizade, o que é tão bom de ver. Pessoas que foram afastadas pelas circunstâncias, seres que desenvolvem uma afinidade sem palavras, vidas que se cruzam e ligam indelevelmente ao ponto de se compreenderem a um nível primitivo. É uma bela mensagem, a transmitida pela observação destes vários tipos de relações.

Isto leva-me a comentar o Dorian e o Chaol. O Dorian, diria eu, é uma daquelas personalidades bem-dispostas, com uma capacidade fantástica de encaixe. O que, tendo em conta quem é o pai dele, é maravilhoso. Nem quero pensar no que terá sido a infância dele, crescer com aquele homem horrendo. E o Dorian tem sobrevivido, crescendo para se tornar numa pessoa decente, com o potencial para ser um bom monarca. A sua história tem avançado aos poucos, mas com certos focos de interesse. É claro que a Sarah tinha de me roubar o único personagem feliz da vida em tudo isto, porque depois do que ela faz ao Dorian no fim, tenho muitas dúvidas que voltarei a ver o rapaz bem-humorado. Fiquei mesmo preocupada com o destino dele, e o Dorian era personagem que me deixava mais ou menos indiferente.

E depois o Chaol, que se mantém bastante ambivalente. Não por medo por si, mas por todo o seu país, por reconhecer que quando as coisas explodirem, as pessoas comuns vão sofrer. A sua relutância em agir prende-se também com o seu papel num certo evento do livro anterior, que imagino que o tenha tornado ainda mais cauteloso nas acções. E sendo o único que é um, er, comum mortal no trio, e o mais conservador dos três, creio que certas mudanças o assustem um bocado. No entanto, tudo isto não o impede de agir lealmente para com a Celaena e o Dorian, tentando fazer o que pode com a informação que tem. Tudo isto afasta-o do Dorian, porque para o proteger não lhe revela uma série de coisas, e o Dorian fica com a percepção errada dos acontecimentos, e pronto, custou-me ver os dois zangados por uma parvoíce destas. Não desejaria o percurso do Chaol a ninguém, porque é o mais complexo e mais difícil de aceitar, mas acredito que era um que ele precisava de percorrer para perceber onde é que devia estar.

Falta-me falar da Manon Blackbeak, que é uma nova adição à história, e uma com direito a POVs no livro. A Manon é uma bruxa Ironteeth, feroz e impiedosa e uma predadora. Como a autora a descreve, bem que podia ser um cruzamento entre o Capuchinho Vermelho e o Lobo, tudo ao mesmo tempo. E o seu percurso, apesar de não se cruzar com o dos outros personagens, é válido, porque mostra o que o vilão anda a preparar em várias frontes, uma deles sendo a das bruxas. E é um percurso tão bom de acompanhar. Adorei ver a ligação que a Manon criou com o Abraxos, um wyvern (é complicado de descrever, mas é a modos que uma espécie de dragão), e fiquei bem impressionada com o que vislumbramos da personalidade da Manon, e de como ela está a mudar.

Entre os personagens secundários, destaque para o Aedion, que esteve este tempo todo a segurar o barco, e a fazê-lo duma maneira impecavelmente badass, arrogante e determinada. (Hmm, lembra-me alguém.) E para o Ren, que numa pequena conversa a autora consegue revelar tanto sobre ele. Fez-me apreciar o valor desta geração de jovens e adultos, que há dez anos eram crianças e jovens, e cuja infância foi hipotecada pela ganância e malvadez de um homem. Lutando por reconstruir um país em ruínas, esta geração ainda há de penar muito, e é verdadeiramente trágico pensar no seu percurso.

A Sorscha, bem, é uma personagem que podia estar melhor construída, porque é das poucas que está ali para desempenhar um papel na narrativa, e não a sinto como independente e ricamente caracterizada, como acontece com os outros personagens. Quase que podia nem estar ali. As Thirteen da Manon, e mesmo as bruxas Ironteeth, são um grupo fabuloso, com vislumbres de pequenas coisas mesmo interessantes. O Emyrs e o Malakai são um casal adorável, e com os outros demi-Fae de Mistwood fazem um grupo bem curioso. A Maeve aparece pontualmente, mas promete arranjar sarilhos quando tiver oportunidade disso, e por isso foi tão bom ver a Celaena dar-lhe uma lição lá mais para o fim.

Diria que este é o ponto de viragem na saga. A escala aumentou, e agora a luta é por todo um continente, e aconteça o que acontecer, não há como voltar atrás. E vai ser uma viagem magnífica, a que Sarah J. Maas tem para continuar a contar. A sua escrita está mais madura, a sua caracterização de personagens é tão certeira e emocional, a construção do mundo está a caminhar a um bom ritmo, com detalhes intrincados e fascinantes a ser adicionados a todo o momento, a fasquia foi elevada no enredo geral da saga. Não posso imaginar uma série que me dê tanto prazer seguir, ou que me faça sofrer tanto a esperar pelo próximo livro.

Páginas: 576

Editora: Bloomsbury

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Uma imagem vale mil palavras: The Giver - O Dador de Memórias (2014)

Li o livro conhecendo o filme e o elenco, e tendo essa informação li The Giver - O Dador de Memórias intrigada com a noção de envelhecer os personagens. Para o livro resulta relativamente bem que o Jonas tenha 12 anos, mas fui para o filme com a noção que era um conceito mais difícil de transmitir visualmente que qualquer outra característica singular do livro.

Primeiro porque é impossível termos actores mais velhos a fingir que têm 12 anos - é uma idade no limiar da puberdade e um ou dois anos fazem logo a diferença. E depois porque um actor de 12 anos não tem a experiência e possivelmente a capacidade para exprimir o tipo de coisas por que o Jonas passa. Além disso, mesmo que estas coisas fossem possível de concretizar, suspeito que é mais difícil convencer uma audiência de espectadores que um miúdo de 12 anos passa por isto - a cerimónia de atribuição de profissões, a sua reacção às memórias, o modo como se liga ao Gabe, os eventos finais.

Portanto, fui para o filme predisposta a aceitar o envelhecimento dos actores, e a aceitá-lo. Acabou por resultar bastante bem, como esperava. Neste caso, e nalguns outros também, aceito que se façam sacrifícios e modificações derivada de literatura e cinema serem dois meios bem diferentes.

Apesar disso, sei que as audiências normais de cinema vão à espera de coisas relativamente dinâmicas, e não vão encontrar isso aqui. Quem leu o livro vai à espera, mas quem não conhece pode ser surpreendido pelo ritmo calmo e lento da narrativa. É mesmo assim. Aí, não tive surpresas, e creio que o ritmo do desenvolvimento do enredo corresponde em ambos os meios.

Há algumas mudanças em aspectos do mundo, algumas para melhor, outras que nem por isso. É um pouco inútil o desenvolvimento do papel do Asher, porque serve ali meio de vela, sem nunca agir em relação a isso, e tornando-se a sua intervenção mais no fim do filme algo incongruente com os momentos em que ele parece ter ciúmes do Jonas e da Fiona.

Gosto da expansão do papel da Fiona e da Anciã. Da Anciã porque um papel mais antagonístico funciona dentro da história do Jonas, forçando-a agir nos momentos certos... ainda que nem sempre o seu papel flua completamente bem. (Só se safa porque, pronto, Meryl Streep, e não preciso de dizer mais nada.)

Da Fiona porque dá a perspectiva de alguém de fora, que não é Dador/Receptor de Memórias, que se perfila para ter uma vida normal na comunidade, e cuja vida é interrompida pelo Jonas e pelas suas descobertas. Além disso, permite ao Jonas explorar a questão dos afectos, uma que me parece importante tendo em conta que ele vai aprendendo muito sobre o espectro de emoções humanas. (E que é pouco explorada no livro, pelo menos no sentido mais romântico da coisa... porque lá está o Jonas tem 12 anos no livro. Nunca pensei que a coisa da idade fosse tão limitativa.)

Gosto de ver esclarecidos melhor certos pontos da construção deste mundo, como a sua inserção num mundo maior, e o que exactamente acontece no fim. (A Lois Lowry é muuuiiito ambígua quanto a isso. Na minha opinião, sem necessidade nenhuma.) Por outro lado, há coisas que não precisavam de ser exploradas/apresentadas, porque introduzem demasiado confusão e/ou quebram a lógica interna do funcionamento da sociedade.

Achei fascinante observar a estética da comunidade, o modo como as casas se organizavam, o ar perfeitinho, o modo como a casa do Dador não encaixava... e o uso da cor acabou por ficar bem trabalhado. No início, sem cor, e depois, à medida que o Jonas recebia memórias a sua visão da cor aumentava aos poucos. Para a audiência, a saturação aumentava gradualmente, e foi trabalhado de modo satisfatório.

O elenco parece-me um conjunto interessante, que gostei de acompanhar. A Meryl Streep é sempre aposta ganha, e o Jeff Bridges veste bem o papel do Dador, emprestando-lhe a sua voz característica, e equilibrando bem as diversas facetas do personagem. A Katie Holmes foi uma surpresa, ver num papel tão severo quando a conheço só de coisas fofinhas. Já do Alexander Skarsgård foi difícil não esperar que desse uma dentada em alguém. Pelo menos, é desconcertante vê-lo num papel mais calmo e menos agressivo que o de Eric Northman no True Blood. A Taylor Swift não tem tempo de antena suficiente para eu poder avaliar a sua capacidade, mas gostava de dar uma traulitada no responsável pelo cabelo dela, que parecia meio estranho.

Fiquei bem impressionada com o Brenton Thwaites, que não conhecia de lado nenhum (a parvoice do papel de príncipe no Maleficent não conta), e que me pareceu exprimir muitíssimo bem a sensação de maravilhamento, de espanto e surpresa, mas também horror e medo, com as memórias, ou o fascínio que redescobrir o seu mundo tem sobre ele. Agarrou bem no papel e até me convenceu com a preocupação com o pequeno Gabe. (Aquela cena com ele a fazer caretas para o bebé é bem engraçada.)

Gosto mais deste final, é como disse menos ambíguo, e provavelmente mais de encontro ao que a autora tinha em mente quando escreveu o livro. Mostra as consequências das acções do Jonas, e retira um pouco da malícia que encontrei no Dador no livro, e que me caiu mal. Gosto de ver o que se está a passar na comunidade ao mesmo tempo que acompanhamos o Jonas e o Gabe. E ainda consegue ser fiel ao espírito e a parte da letra do final do livro, que é uma cena tão gira que merece ser recriada.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A Vingança, Há Horas Más, Meg Cabot

A Vingança, Meg Cabot
Há Horas Más, Meg Cabot
Estes livros marcam a parte central da narrativa da série Mediadora, e por isso já estão mais confortáveis a contar a história, apresentar o mundo e caracterizar a heroína, conseguindo ainda plantar algumas pistas para os próximos acontecimentos.

Em retrospectiva, diverti-me imenso com o enredo de A Vingança, e com as reacções da Suze ao Michael Meducci, o totó residente, ter uma paixoneta por ela. É um livro que aumenta o nível de perigo, porque os fantasmas neste estão à procura da titular vingança, e não vão parar até a obter... por outro lado, a Suze cede ao desejo de deixar fazer vingança, quando compreende o que o vilão fez e o quão emperigou-a e à sua família e amigos.

Aliás, esse é um dos meus pontos favoritos do livro, a cresente relação da Suze com a família. É uma coisa que ela ainda não está confortável em trabalhar, mas os filhos do padrasto, o Andy, começam a tratá-la por irmã, e à mãe dela como mãe. Não que haja tentativa de substituição da mãe deles, que morreu, é mais como a família estar a começar agir como uma unidade. E a mãe da Suze tem uma cena adorável com o David, o mais novo.

Além disso, sabemos uma pequena coisa sobre o padre Dominic, que não parece ser bom sinal para o futuro da Suze. Dá-lhe mais dimensão (ao personagem do padre), e faz-me apreciar melhor a sua personalidade, como se tornou padre e o tipo de mediador que escolheu ser.

Contudo, ainda adoro mais Há Horas Más. Porque acontece uma coisa ao Jesse e deliciei-me com a Suze que se revela nesse momento. Ela sempre foi um bocado descuidada, com uma atitude devil may care, mas muito pragmática, em relação às coisas. Só que basta roubarem-lhe o Jesse, e ela perde completamente a cabeça. Foi interessante vê-la de cabeça perdida e lançar-se para as coisas já não em modo devil may care, mas em modo algo suicida. Acho que nunca esperaria vê-la reagir assim, ficar meio louca com os acontecimentos, e suponho que é por isso é que é tão cativante de acompanhar.

É claro que isto me faz apreciar melhor o padre Dominic, que deve ter uma paciência de santo para a aturar. Coitado do homem, sempre com o coração nas mãos à espera da próxima coisa estranha de que a Suze se lembra e com a qual ele naturalmente não concorda. E na qual ele acaba por ter de entrar, porque a Suze leva tudo à frente, e o melhor é ajudar e certificar-se que ela está a fazer as coisas perigosas do modo mais seguro possível. Espero que alguma vez ela lhe dê ouvidos.

Conhecemos dois novos mediadores. Um é o pequeno Jack, que Suze tenta ajudar a entender o seu dom, já que até agora isso só o tem afastado dos outros. E o Paul, que vai ter importância nos eventos daqui para a frente; e que até neste livro tem uma certa influência que só se torna óbvia no fim. E, tenho de acrescentar, o Paul arrepia-me, por já saber do que é que ele é capaz.

Continuo a achar que a Suze é uma espécie de irmã mais nova da Charley Davidson (personagem dos livros da Darynda Jones), não só pela atitude, pelo humor e pela inclinação para os sarilhos, mas também para a maneira como reagem a muitas coisas, incluíndo situações traumáticas.

Nota não muito positiva para a tradução, que nos primeiros livros traduziam mediator por mediadora, e agora lembram-se de traduzir por médium. O que é hilariante e confuso, quando a Suze fala no texto de médiuns, e os médiuns de médium confundem-se com médium de mediadora. Ugh.

Aquele fim do Há Horas Más foi de morrer e chorar por mais. Um tudo-nada cliffhangeresco, muito excitante, e super animador para os livros que vêm a seguir. Só não percebo como é que a Bertrand achou que era boa ideia deixar os leitores pendurados assim. Not cool.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Isla and the Happily Ever After, Stephanie Perkins


Opinião: Isla and the Happily Ever After foi uma criança de parto difícil. Passaram-se quase três anos desde a publicação do último livro da série, Lola and the Boy Next Door (dois anos desde que o li), e desde então a autora tem-se debatido consigo própria, com problemas pessoais e com o próprio livro para fazer dele algo à altura dos dois livros anteriores. É que, já aqui me tenho queixado, as expectativas são terríveis, e compadeço-me da Stephanie, que deve ter passado este tempo todo aterrorizada, receosa de não corresponder ás expectativas dos seus leitores, de não atingir a fasquia muito alta colocada pelo Lola e pelo Anna and the French Kiss.

Quanto a esta leitora, não precisava de se preocupar. Isla é uma história bem diferente dos seus antecessores, mas isso não é uma coisa má. Apreciei o tipo de história que Stephanie Perkins estava a tentar contar, adorei lê-la e deixar-me imergir nela, vivi os acontecimentos com os personagens intensamente, identifiquei-me com eles e compreendi os seus problemas e dilemas. Não podia pedir mais.

Isla é uma jovem introvertida e tímida, sem rumo na vida. Uma parte dos seus últimos anos tem sido guiada por uma simples paixoneta pelo Josh, pela observação de longe, sem nunca se atrever a meter conversa, a aproximar-se dele. E no entanto, durante o Verão em Nova Iorque, um encontro acidental aproxima-os, atira-os para os braços um do outro quando descobrem uma atracção mútua, que evolui para uma paixão intensa e consumidora.

E pronto, está aqui a razão pela qual gostei tanto do livro. Nos anteriores, os personagens debatiam-se com os seus problemas, que os afastavam até bem ao final; aqui a Isla e o Josh nada têm que os separe, aparentemente, e embarcam numa relação amorosa que lhes leva todos os minutos do dia, porque o foco está no outro, nada mais há que o outro, que conhecê-lo em todas as suas facetas. É esta intensidade que foi tão deliciosa de ler e acompanhar, e tão difícil de resistir.

Outro aspecto de eu ter gostado da história prende-se com a reflexão que a autora faz, de um amor adolescente que consome, e da falta de perspectiva que o acompanha. Há um momento de separação a meio da história, e parece o fim do mundo para ambas as partes, e é tão difícil não nos deixarmos envolver nesse sentimento, não deixar de compreender a dor da separação.

Além disso, a separação traz à tona algumas inseguranças da Isla, para quem esta é a primeira relação séria, e apesar de criarem um fosso entre ambos, e de ser frustrante esta parte da história... eram inseguranças que precisavam de ser expressas. A Isla precisava de ver o Josh não só como o objecto da paixoneta, paixão e amor que lhe tinha, mas como outra pessoa de carne e osso, com problemas e bagagem próprios. Por isso, apesar de todo o dramatismo da segunda parte do livro, senti que era uma coisa que precisava de acontecer, para que se tornasse mais fortes e mais maduros, como casal e como pessoas.

Suponho que outra das razões para ter gostado tanto do livro é o facto de, como pessoas, os protagonistas Isla e Josh serem aqueles mais próximos de mim, aqueles com os quais mais me identifico. Oh, identifiquei-me e compreendi os problemas dos protagonistas anteriores (provavelmente mais a Anna e o Étienne do que propriamente a Lola e o Cricket), mas sou inclino-me mais para as personalidades introvertidas e introspectivas da Isla e do Josh.

Entendi a incapacidade de escolher um rumo da Isla, e a frustração do Josh com o rumo que escolheu. A necessidade de aventura da Isla e de um meio de expressão do Josh. A insatisfação indistinta da Isla e a solidão do Josh. Adorei que a Isla tivesse pilhas e pilhas de livros pelo quarto fora, e que o Josh estivesse a trabalhar numa novela gráfica que detalhava os seus anos na escola secundária em Paris. (Matava para ler essa novela gráfica.)

Por falar na novela gráfica, quase sempre vemos o Josh pelos olhos da Isla, mas na dita cuja aquilo que ele escreve e desenha fala por si, e deu para apreciar a sua frustração com o estar a estudar em Paris, a solidão e separação escolhida por si quando se dá conta que vai perder o seu grupo de amigos, a felicidade que estar com eles traz, o furacão que foi a relação com a Rashmi... compadeço-me do rapaz, com tanto potencial para ser brilhante, mas decidido a enterrar-se o mais fundo possível. Foi preciso o ataque de insegurança da Isla para lhe dar um empurrão para ele ganhar juízo, e mais uma vez este ponto do enredo revela-se necessário, apesar de ser bastante espinhoso.

Desta vez, o local não é tão importante, porque o caso amoroso da Isla e do Josh domina toda a história, mas temos pequenas visitas a Nova Iorque e Barcelona, das quais gostava mesmo de ter lido mais. E devido ao quão consumidor o enredo Isla-Josh é, também não há tanto destaque para os personagens secundários... gostava de conhecer melhor o Kurt (talvez um livro só para ele? por favor, mil vezes por favor), e apreciei a dinâmica familiar entre a Isla e as irmãs - a Isla apercebe-se de algumas coisas que podia trabalhar, não só com as irmãs mas com o resto da sua vida, e aí o seu período de reflexão foi muito frutuoso.

Sou capaz de ter morrido de felicidade um pouco, quando vi antigos personagens, recordados com carinho, voltarem para uma visitinha. Sou capaz de ter guinchado um bocadinho quando uma certa coisa muito feliz acontece, que infelizmente não posso spoilar. Mas pronto, foi bom ver a Anna, o Étienne, a Lola, o Cricket, e a Meredith, e a sua dinâmica de amizade com o Josh. (Por falar na Meredith, não há um livro para ela, que bem merece? A moça está em Roma, vá lá, está uma história mesmo romântica a pedir para acontecer.)

O fim é sofrido, mas merecido. Apreciei a reavaliação de certas coisas, e uma certa releitura que levou a um final bem mais feliz. A novela gráfica toma um rumo que salta um bocadinho da ficção para a realidade, e foi engraçado de tentar prever o que ia acontecer.

Em suma, pode não ser um livro consensual, porque a história da Isla e do Josh é mais espinhosa, mais complicada de acompanhar e entender... mas sinto que era o que precisava de acontecer, e aprecio mais a Stephanie Perkins por contar uma história mais difícil, mas mais satisfatória por isso mesmo. A espera de dois anos valeu mesmo a pena, não me arrependo de ter esperado e de ter apostado na série (só me arrependo desta capa, mas já me queixei disso aqui), pois fez de mim uma fã da Stephanie, e tenho vontade de continuar a espreitar o que quer que ela tenha nas mangas para os seus próximos livros.

Páginas: 352

Editora: Dutton (Penguin)