sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Uma imagem vale mil palavras: The Giver - O Dador de Memórias (2014)

Li o livro conhecendo o filme e o elenco, e tendo essa informação li The Giver - O Dador de Memórias intrigada com a noção de envelhecer os personagens. Para o livro resulta relativamente bem que o Jonas tenha 12 anos, mas fui para o filme com a noção que era um conceito mais difícil de transmitir visualmente que qualquer outra característica singular do livro.

Primeiro porque é impossível termos actores mais velhos a fingir que têm 12 anos - é uma idade no limiar da puberdade e um ou dois anos fazem logo a diferença. E depois porque um actor de 12 anos não tem a experiência e possivelmente a capacidade para exprimir o tipo de coisas por que o Jonas passa. Além disso, mesmo que estas coisas fossem possível de concretizar, suspeito que é mais difícil convencer uma audiência de espectadores que um miúdo de 12 anos passa por isto - a cerimónia de atribuição de profissões, a sua reacção às memórias, o modo como se liga ao Gabe, os eventos finais.

Portanto, fui para o filme predisposta a aceitar o envelhecimento dos actores, e a aceitá-lo. Acabou por resultar bastante bem, como esperava. Neste caso, e nalguns outros também, aceito que se façam sacrifícios e modificações derivada de literatura e cinema serem dois meios bem diferentes.

Apesar disso, sei que as audiências normais de cinema vão à espera de coisas relativamente dinâmicas, e não vão encontrar isso aqui. Quem leu o livro vai à espera, mas quem não conhece pode ser surpreendido pelo ritmo calmo e lento da narrativa. É mesmo assim. Aí, não tive surpresas, e creio que o ritmo do desenvolvimento do enredo corresponde em ambos os meios.

Há algumas mudanças em aspectos do mundo, algumas para melhor, outras que nem por isso. É um pouco inútil o desenvolvimento do papel do Asher, porque serve ali meio de vela, sem nunca agir em relação a isso, e tornando-se a sua intervenção mais no fim do filme algo incongruente com os momentos em que ele parece ter ciúmes do Jonas e da Fiona.

Gosto da expansão do papel da Fiona e da Anciã. Da Anciã porque um papel mais antagonístico funciona dentro da história do Jonas, forçando-a agir nos momentos certos... ainda que nem sempre o seu papel flua completamente bem. (Só se safa porque, pronto, Meryl Streep, e não preciso de dizer mais nada.)

Da Fiona porque dá a perspectiva de alguém de fora, que não é Dador/Receptor de Memórias, que se perfila para ter uma vida normal na comunidade, e cuja vida é interrompida pelo Jonas e pelas suas descobertas. Além disso, permite ao Jonas explorar a questão dos afectos, uma que me parece importante tendo em conta que ele vai aprendendo muito sobre o espectro de emoções humanas. (E que é pouco explorada no livro, pelo menos no sentido mais romântico da coisa... porque lá está o Jonas tem 12 anos no livro. Nunca pensei que a coisa da idade fosse tão limitativa.)

Gosto de ver esclarecidos melhor certos pontos da construção deste mundo, como a sua inserção num mundo maior, e o que exactamente acontece no fim. (A Lois Lowry é muuuiiito ambígua quanto a isso. Na minha opinião, sem necessidade nenhuma.) Por outro lado, há coisas que não precisavam de ser exploradas/apresentadas, porque introduzem demasiado confusão e/ou quebram a lógica interna do funcionamento da sociedade.

Achei fascinante observar a estética da comunidade, o modo como as casas se organizavam, o ar perfeitinho, o modo como a casa do Dador não encaixava... e o uso da cor acabou por ficar bem trabalhado. No início, sem cor, e depois, à medida que o Jonas recebia memórias a sua visão da cor aumentava aos poucos. Para a audiência, a saturação aumentava gradualmente, e foi trabalhado de modo satisfatório.

O elenco parece-me um conjunto interessante, que gostei de acompanhar. A Meryl Streep é sempre aposta ganha, e o Jeff Bridges veste bem o papel do Dador, emprestando-lhe a sua voz característica, e equilibrando bem as diversas facetas do personagem. A Katie Holmes foi uma surpresa, ver num papel tão severo quando a conheço só de coisas fofinhas. Já do Alexander Skarsgård foi difícil não esperar que desse uma dentada em alguém. Pelo menos, é desconcertante vê-lo num papel mais calmo e menos agressivo que o de Eric Northman no True Blood. A Taylor Swift não tem tempo de antena suficiente para eu poder avaliar a sua capacidade, mas gostava de dar uma traulitada no responsável pelo cabelo dela, que parecia meio estranho.

Fiquei bem impressionada com o Brenton Thwaites, que não conhecia de lado nenhum (a parvoice do papel de príncipe no Maleficent não conta), e que me pareceu exprimir muitíssimo bem a sensação de maravilhamento, de espanto e surpresa, mas também horror e medo, com as memórias, ou o fascínio que redescobrir o seu mundo tem sobre ele. Agarrou bem no papel e até me convenceu com a preocupação com o pequeno Gabe. (Aquela cena com ele a fazer caretas para o bebé é bem engraçada.)

Gosto mais deste final, é como disse menos ambíguo, e provavelmente mais de encontro ao que a autora tinha em mente quando escreveu o livro. Mostra as consequências das acções do Jonas, e retira um pouco da malícia que encontrei no Dador no livro, e que me caiu mal. Gosto de ver o que se está a passar na comunidade ao mesmo tempo que acompanhamos o Jonas e o Gabe. E ainda consegue ser fiel ao espírito e a parte da letra do final do livro, que é uma cena tão gira que merece ser recriada.

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