sábado, 13 de setembro de 2014

Maze Runner - Correr ou Morrer, James Dashner


Opinião: Sei que isto vai soar muito estranho, mas ler este livro foi doloroso. Porque doeu como o raio arrastar-me por uma história que eu achava que tinha potencial cinematográfico e cuja narrativa seria, achava eu, devorável de tão intrigante. Quando o que aconteceu foi eu ficar frustradíssima com a maneira incipiente como o autor escreve e desenvolve o enredo, e como é incapaz de dar respostas suficientes e satisfatórias às perguntas que lança na direcção do leitor.

Quero dizer, num tipo de enredo como este, em que o protagonista é lançado num mistério desconhecido para ele e para o leitor, o mais razoável é construir a história de modo a fazer algumas questões, dar algumas respostas ao leitor (e ao protagonista), fazer mais questões, dar mais respostas, questões, respostas, etc. num crescendo que cative o leitor e o faça virar as páginas para descobrir o que acontece a seguir.

O que acontece na verdade com o livro é que passamos as primeiras duzentas páginas com o Thomas, o protagonista, a andar dum lado para o outro completamente perdido, porque ninguém se digna a explicar-lhe em condições como é que a clareira e o labirinto funcionam, apesar de ele se fartar de fazer perguntas e acabar a fazer uma coisa mesmo, mesmo estúpida. Depois temos mais 100 páginas em que acontecem umas coisinhas, mas respostas sobre este mundo e o raio do labirinto nicles...

E finalmente nas últimas 100 páginas parece que o autor se lembrou que tinha de acabar o livro, e tumba! acontece tudo de repente, ele tira um deus ex machina e um info dump da cartola que a acontecer, bem que podia ter acontecido 150 páginas mais cedo para avançar em condições com a história, e respostas às minhas perguntas, não vou dizer nicles, mas foram muito poucas. Digam-me lá se isto não é frustrante.

Resumindo, o desenvolvimento do enredo foi o equivalente literário a um caracol, e creio que havia uma série de coisas sobre o labirinto e sobre o mundo em que o labirinto se insere que podiam ter sido reveladas, mantendo ainda o mistério suficiente para o próximo livro. Mas o fim é tão abrupto que a oportunidade que apresentava nesse aspecto foi perdida. E nem sequer posso pôr as culpas neste ser o primeiro livro do autor, que não era. Quando The Maze Runner saiu, ele já tinha publicado uma mão-cheia de livros, portanto não há justificação para me apresentar esta confusão pegada.

E depois tenho um grandessíssimo problema com a linguagem. É que o autor, creio eu, queria pôr rapazes adolescentes a praguejar. Porque, pronto, é realista. Mostrem-me lá um que não o faça, especialmente nestas condições. O problema é que se acobardou, e em vez de usar as palavras a sério que queria usar, inventa novas para as substituir, apesar de ser relativamente óbvio as palavras que os miúdos estão realmente a dizer. Só que a artificialidade destas palavras novas fez com que cada vez que eu tropeçasse numa, "saísse" da história, em vez de contribuir para que ficasse imersa nela.

E o resultado foi arrastar-me ainda mais pela narrativa. Quero dizer, se era uma questão editorial, é uma questão estúpida. Qualquer miúdo do público-alvo sabe estas asneiras ou pior, portanto fingir que não sabem é pateta. Preferia que o autor tivesse evitado o praguejar, se a alternativa era encontrar coisas tão ridículas como "chanco", "traca", "fu", "cara de fu", e "klunk".

Pondo de parte os grandes problemas que tive com a narrativa... nem tudo é mau, apesar de até agora eu só me ter queixado. A premissa é muito boa, mesmo intrigante, só peca por não ser mais e melhor revelada ao longo do livro. A ideia do labirinto, e do porquê de estarem ali, parece uma coisa tremendamente interessante, e é capaz de ser o que me vai fazer ler o segundo livro, possivelmente o resto da trilogia. Para além disso, o labirinto exuda mesmo aquela sensação de perigosidade e de mistério, e queria mesmo revelar esses mistérios, daí que tinha ficado tão frustrada quando tão pouco acontece nessa área.

O Thomas é um protagonista que consegue levar a narrativa a bom porto, apesar de ela resistir muito, conseguindo fazer mudar as coisas na clareira e no labirinto. Fez-me revirar os olhos uma ou outra vez, quando o autor decide que tem de o pôr com pressentimentos, ou a fazer uma coisa para finalmente descobrir o que se passa, e despejar o que se passa em cima dos outros e do leitor. Mas é inquisitivo, parece ter um bom fundo e um bom senso de certo ou errado, e luta para resolver as coisas.

O grupo de personagens conseguiu manter o meu interesse, cada um tendo o seu perfil distinto, e conseguiram fazer-me preocupar com eles e com o seu destino. Tenho pena de ter perdido alguns pelo caminho. A Teresa é uma personagem que não se destaca muito, e que podia não existir que a história continuava a ser a mesma, mas pode ser que o autor se lembre de a desenvolver e à sua ligação com o Thomas nos próximos livros. A sugestão do que haverá já é intrigante.

E já fico feliz por o autor ter decidido não a tornar numa vítima. Outros autores palermas na mesma posição não teriam resistido, com uma rapariga sozinha no meio de um bando de rapazes, a inventar um ataque a ela só por acharem que tinham de tornar as coisas interessantes. Demasiadas vezes os autores funcionam na base de que as mulheres numa narrativa estão ali para decorar e servir de vítimas. A Teresa mantém-se a sua própria pessoa, apesar do pouco destaque, e bastante capaz, por sinal.

Em suma... tenho um grande, grande problema com a narrativa e com o modo como foi desenvolvida... mas como tenho uma costela masoquista, isso não vai ser impedimento para eu ler o segundo livro, pelo menos. Apesar da inépcia do autor, o meu interesse foi atiçado e mantido o suficiente para eu estar curiosa, e querer saber e ler mais. Suspeito que o filme vai trabalhar melhor o ritmo do enredo, por isso vou esperar que me faça esquecer um pouco esta trapalhada. E, ei, estou mesmo com vontade de ver como é que eles vão apresentar os Magoadores/Grievers. São umas coisas meio difíceis de imaginar.

Título original: The Maze Runner (2009)

Páginas: 400

Editora: Presença

Tradução: Marta Mendonça

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Marvel NOW! em Portugal - Homem-Aranha Superior números 1 a 6 (Superior Spider-Man #1-18)

Capa do número 01 de
Homem-Aranha Superior.
Admitidamente, torci o nariz ao ouvir falar desta premissa do Homem-Aranha Superior. Quando é explicada, não soa nada bem. Peter Parker a ser substituído pelo Doutor Octopus como Homem-Aranha? Ehhhh... Além disso, têm feito tanta parvoíce ao pobre do personagem ao longo dos anos, que mantenho o meu cepticismo constante em relação a estas coisas.

Capa do número 02 de
Homem-Aranha Superior.
Só que estranhamente, até tem resultado. Os arcos de história têm sido algo lentos a desenvolver-se (anda para acontecer uma coisa qualquer com o Duende Verde há que tempos, e suspeito que ainda vai levar um bom bocado), mas tenho-me divertido imenso a ver o Octopus a lidar com a questão de estar no corpo do seu inimigo, Peter Parker, e ser o novo Homem-Aranha, um super-herói.

Talvez em parte tenha a ver com o sentido de humor com que a história está a ser escrita. O Peter Parker tem um humor bem divertido, meio adolescente, o do Doc Ock vem da sua arrogância e do seu modo diferente de ver o mundo. Geram-se situações engraçadas, como o choque do Otto quando descobre que o Peter não tem um doutoramento, e então vai fazer um para poder voltar a usar o título de "doutor". É muito interessante vê-lo dizer, acerca de outrém, que um assassino não muda de um dia para o outro, para a seguir perceber a ironia da afirmação e calar-se, por causa da sua situação actual.

Capa do número 03 de
Homem-Aranha Superior.
Além disso, adoro como lida com o J. Jonah Jameson, primeiro cativando-o, fazendo-o de parvo, e depois chantageando-o (o JJJ a ser manipulado! incrível!). Há também algum humor na sua mudança de atitudes no que toca às pessoas da vida do Peter, primeiro integrando-se perfeitamente (até demais), depois afastando-as, uma a uma, quando não lhe apetece lidar com elas.

Outra parte curiosa do Octopus tomar o papel do Homem-Aranha é o modo como se apropriou do fato e se tornou mais... eficiente. Lida com as ameaças em termos de prioridades, planeia o momento em que vai atacar, e espalhou pela cidade aranhas-robôs que o avisam dos problemas na cidade de Nova Iorque. O resultado é que acaba por ter mais tempo para as pessoas na vida do Peter. Não há mais Parker sempre atrasado para as coisas, e que falta a encontros e combinações com os outros.

Capa do número 04 de
Homem-Aranha Superior.
É claro que apesar de ser um Homem-Aranha melhor que o Peter Parker em certos aspectos, noutras o Otto é muito, muito pior. É assustadora a maneira como ele está disposto a tudo... matar criminosos com as próprias mãos, dar um enxerto de porrada a quem o humilha, espiar Nova Iorque inteira, divulgar a identidade de um vilão para o apanhar mais depressa, sem pensar no caos que vai criar... há tanta coisa errada no que ele está a fazer, que é arrepiante pensar na possibilidade do Peter voltar e ter de assumir este legado.

Capa do número 05 de
Homem-Aranha Superior.
Por outro lado, apesar do Octopus se dar ao trabalho de manter as relações pessoais de Peter Parker, no início, aos poucos tem vindo a descartar pessoas e ligações, e isso é preocupante. Vai isolar o personagem duma forma brutal. Conto que arranjem uma maneira louca qualquer de fazer o espírito do Peter voltar ao seu corpo, mas vai voltar para quê?

Uma das coisas que mais me espanta é que ninguém dê conta da troca, à parte dois personagens (a Carlie, e o Rei do Crime diz que "a voz é a mesma, mas não é o Aranha que conheço"). Por favor, as duas personalidades do Homem-Aranha não podiam ser mais diferentes. Até um polícia comenta algures que ele "dantes era mais divertido". E no entanto, os palermas dos Vingadores examinam-no e não encontram nada, apesar de estranharem a mudança. (O Doc comenta que é uma sorte que o Tony Stark não esteja por ali para notar uma diferença nos padrões cerebrais do Homem-Aranha, que denotariam a sua presença. Tem piada, o Homem de Ferro está disponível para aparecer em todas as revistas e mais algumas... excepto naquelas em que não dá jeito a sua presença aos argumentistas.)

Capa do número 06 de
Homem-Aranha Superior.
Entre personagens secundários, gostaria de destacar a Carlie Cooper, que é uma jovem esperta e que topa logo que há algo de errado com este Peter. O Robbie Robertson, que na altura do desmascarar do Phil Urich manteve a cabeça fria e tentou evitar um motim. A Norah Winters, que sabe dar porrada e que é uma injustiça ser despedida por causa do Phil. E a Anna Marie, que é uma moça adorável, e tem química com o Octopus-Peter, curiosamente. Gostava de continuar a vê-la nas histórias. E o Doc tem o seu interesse, quando vamos algumas das suas memórias do passado e aquilo por que passou quando era jovem. (Não justifica que se tornasse vilão. Mas é interessante.)

Gostava de destacar duas situações da narrativa até agora. Uma é aquela em que o Doutor Octopus enfrenta o espírito do Peter ainda presente, para o tentar eliminar e purgar as suas memórias. É uma cena impressionante, em que o Peter convoca aqueles que fazem parte do seu mundo, os que já partiram e os que ficaram, para o ajudar, e em que tenta manter-se ligado às suas memórias, para garantir a manutenção da sua existência.

A outra é a questão da quebra temporal, que faz o Homem-Aranha de 2099 vir ao passado. Gosto de toda a ideia de esse futuro estar a ser quebrado por algo que acontece no tempo presente, e em como os Laboratórios Horizonte estão no centro disso. (É uma das minhas partes da vida do Peter favoritas. Espero que não desapareçam.) E acho muito piada a como o Aranha do presente está a tentar matar uma certa pessoa, que é um vilão, e o Aranha do futuro está a tentar manter essa pessoa viva, para que o seu futuro continue a existir. Vai criar uns confrontos engraçados, creio eu.

Capa variante do #1 de Superior
Spider-Men
; adicionei ao post

porque achei imensa piada ao
estilo chibi do super-herói.
Enfim, para um enredo que parecia mesmo estranho, tem gerado uma narrativa que me tem mantido interessada. Não é algo que eu queira que dure para sempre, mas vou acompanhar com gosto enquanto durar - especialmente porque já sei que tem fim à vista. Gostava que isto fosse uma lição para o Peter Parker, para nunca agir como o Ock em termos morais e éticos (a pessoa que o Peter é não o deixaria agir assim), mas que pudesse aprender com a eficiência dele, porque definitivamente melhoraria a sua vida. Demasiado tempo o personagem tem sido mantido num estado de Peter Pan, sem nunca crescer e evoluir, e gostava de o ver num momento melhor, como estava antes de Superior Spider-Men, mas ainda com espaço para crescer mais. Estou expectante de ler o que aí vem.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

A rainha manda...: leitura para Setembro

E depois de um breve interregno para o Verão, eu e a Patrícia voltamos à carga com recomendações mútuas na nossa rubrica, A rainha manda...; este mês promete, com as nossas respectivas recomendações. A Patrícia escolheu para mim Os Pilares do Mundo, da Anne Bishop. Ela explica porquê:

Ao rever a lista de livros que temos em conjunto mas que ela não leu, dei-me conta que algo de estranho se passava... A p7 tem esta trilogia por ler! Como é possível alguém ter Anne Bishop na estante por ler?? Como?? É impensável, por isso quero dar-lhe o prazer de regressar a esta autora fabulosa que ambas adoramos, já que eu não o posso fazer (até posso mas isso é outra conversa). Basta dizer que é Anne Bishop, eu sei que ela sabe aquilo que tem estado a adiar. Não o fará mais.

Bem... estava a guardar coisas boas para um momento especial como este? A verdade é que entretanto não saiu mais nada dela em português, e tendo em conta que durante tanto tempo havia sempre qualquer coisa dela já publicada para eu ler, vai ser estranho quando isso deixar de acontecer. De qualquer modo, Anne Bishop é Anne Bishop, por isso calculo que vá ser uma leitura deliciosa. Obrigada pelo empurrão. ;)

Podem descobrir o livro que escolhi para a Patrícia, e o porquê da escolha, aqui.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Colecção Universo Marvel #7, #8 e #9: Universo Marvel, Thor, X-Men

Universo Marvel: Marvels, Kurt Busiek, Alex Ross
Há uns anos ouvi falar deste livro, e fiquei interessada em lê-lo, especialmente porque sabia que tinha havido uma edição recente em português. Só que como o meu timing para estas coisas é sempre genial, o livro já não se encontrava nas livrarias, e vi a minha tentativa de o ler gorada. Por isso, fiquei muito animada quando vi que o livro ia ser publicado nesta colecção, porque era agora a minha oportunidade de o ler.

E fiquei fascinada. Normalmente, os super-heróis metem-se em sarilhos com os vilões, destrói-se tudo na luta, e no fim os heróis vencem, e não há um momento para contemplarmos a destruição, e raramente vemos os seres humanos comuns e a sua perspectiva no meio disto tudo. Quero dizer, Nova Iorque é rotineiramente destruída, ou transformada numa Ilha das Aranhas, ou outra coisa igualmente bizarra, e nunca vemos os Nova Iorquinos a passarem-se da cabeça e expulsarem os super-heróis de lá, pois não?

Portanto, Marvels apresenta a perspectiva de um homem comum, Phil Sheldon, fotógrafo cujo trabalho vai frequentemente levá-lo a seguir estas maravilhas titulares e as suas aventuras. Desde os primeiros heróis da Marvel, antes da Segunda Guerra Mundial - o primeiro Tocha Humana, o Namor, o Capitão América -, até ao aparecimento dos mutantes nos anos 60, até à trágica morte da Gwen Stacy nos anos 70.

E é muito interessante ver sugerida uma possível reacção de um homem comum a estes eventos. O maravilhamento com as capacidades destes seres, e o receio do que serão capazes de fazer. O medo dos mutantes, ou a frustração com o resto do mundo por oscilarem entre agradecimento aos super-heróis quando fazem uma coisa boa, para logo a seguir crucificá-los por uma coisa menos boa. Aquilo que perdeu ou ganhou por ter dedicado a vida a seguir e fotografar estas maravilhas. O desapontamento com um fotojornalista freelancer por vender fotos do Homem Aranha ao J. Jonah Jameson (o jornalista, é claro, é o Peter Parker).

A minha parte favorita é a da recta final, em que o Phil conhece a Gwen Stacy, primeiro porque lhe é dada a ela a oportunidade de respirar como personagem, e depois porque marca a vida do Phil duma grande maneira, que fica destroçado com a morte trágica desta miúda, num acidente estúpido e às mãos destas maravilhas que tem seguido. Muda-lhe a vida, porque ele deixa de acreditar nestes super-heróis e neste mundo, deixa de se maravilhar com ele.

Gosto muito das referências e do modo como os autores incorporaram pequenos detalhes do mundo Marvel e do curso dos acontecimentos ao longo da história. Diverti-me tanto ao descobrir o J. Jonah Jameson mais novo, ou ao vislumbrar o Peter Parker apenas numa cena, ou ao ver juntar tantos heróis na cena do casamento da Sue Storm e do Reed Richards, ou ver como o fascínio pelos heróis neste mundo. se estende a haver uma colecção de roupa inspirada na Vespa. Pequenos detalhes que torna a obra rica.

Por fim, só tenho de fazer uma menção à arte do Alex Ross, tremendamente detalhada, linda, fantástica de observar por muito tempo. É um estilo único, mas que me delicia estudar, e que é tão realista, e tão interessante de ver num meio como o dos comics.

Thor: Renascido, J. Michael Straczynski, Olivier Coipel
Ok, a premissa é que o Ragnarok aconteceu, o ciclo foi quebrado, e os deuses nórdicos estão livres de voltar a encenar o ciclo. Para isso, Thor volta à Terra, numa ressureição que tem como objectivo uma demanda para encontrar um local para Asgard, e os outros asgardianos, que vivem dormentes em humanos por esse mundo fora.

É uma ideia interessante, e gostava de vir a ler o enquadramento deste livro. Ou seja, gostava mesmo de ver o ciclo anterior de Ragnarok, e como a Marvel o interpretou, e como este ciclo foi quebrado. E também gostava de ler para a frente, que o fim do livro termina num certo cliffhanger, que não me diz nada sobre o destino do Thor ou dos deuses asgardianos.

Adoro a ideia de Asgard se reconstruir no meio de nenhures, no Oklahoma, e em como os habitantes da cidade vizinha lidam com isso. Há uma certa burocracia, e um certo humor na maneira como o argumentista descreve a reacção dos comuns mortais à presença de Asgard. Aliás, gosto bastante do modo como ele desenvolveu a história neste volume. Adoro como ele escreve o reencontro do Thor com o Homem de Ferro, que ocorre mesmo após a Guerra Civil. Convenhamos que o Tony se mete mesmo a jeito para levar do Thor, quero dizer, toda a porcaria que fez na Guerra Civil, e ainda vir com uma atitude arrogante para um deus asgardiano... *facepalm* Estava a pedi-las.

Estou muito curiosa para ver como os deuses asgardianos vão interagir com o resto do mundo, agora que estão a voltar, e que mudanças vão provocar nele, e na pequena cidade de Oklahoma que os acolheu. (Espero que não queira dizer que a pequena cidade vai ser destruída rotineiramente como Nova Iorque consegue ser...)

Não tenho muito a dizer sobre a arte, geralmente é agradável ao olho, e tem alguns planeamentos de pranchas e vinhetas interessantes. A imagem de Asgard é fantástica. Não sou muito fã de como o artista desenha o Thor (muito... compacto e largo? não sei, fica estranho), gosto mais do Donald Blake. Não achei piadinha nenhuma a uma prancha no início, com uma cena de guerra, em que uma mulher/deusa asgardiana tem apenas uma armadura de metal... nos seios, como biquini. Até pode ser uma personagem conhecida (não a reconheci), com design definido, mas a sério, todos os artistas de comics americanos deviam ser obrigados a usar umas cuecas feitas de ferro até perceberem o quão desconfortável é, e pararem de desenhar armaduras ridículas às mulheres.

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, Chris Claremont, John Byrne, John Romita Jr.
Já conhecia a história titular, creio que a li num dos livros duma colecção dos clássicos da banda desenhada do Correio da Manhã há uns anos, mas esta é uma boa colecção de histórias, que acaba por incluir o Dias de um Futuro Esquecido.

Gostei muito de ler a primeira história, Elegia, porque se passa após a morte da Jean Grey como Dark Phoenix, e faz um bom resumo da história dos X-Men desde o início até ali. Apreciei aperceber-me que até conheço grande parte das histórias mencionadas, e que tenho quase todas os livros que são referenciados nesse capítulo como contendo essas histórias.

A história titular é interessante pelo seu estatuto icónico, e por apresentar o conceito de futuros paralelos que nunca se concretizarão, coisa em que os X-Men parecem exímios em explorar. A ideia de um futuro distópico em que os mutantes morreram ou são controlados no território dos EUA, e em como a presença dos Sentinelas está prestes a lançar o mundo numa guerra nuclear... gosto. Tem o grau certo de tensão e drama, e equilibra bem futuro e presente, mostrando o que acontece com os personagens em ambos.

Entre as outras histórias, gosto daquela dedicada ao Nocturno, e à sua incorporação do inferno de Dante, gosto da apresentação dos super-heróis mutantes canadianos, especialmente a Pássaro de Neve, que tem um poder intrigante, e que daria para escrever uma história muito boa - aquilo que é explorado já é bem cativante -; e em geral, gosto muito de como a Kitty Pryde é apresentada e explorada, de como esta menina vai crescendo e aprendendo com os X-Men - a última história, em que ela luta contra um monstro na Escola Xavier, sozinha, é tão boa - go, Kitty!. Faz-me feliz ver que ela evoluiu para uma jovem segura e decidida, professora e directora (pelo menos, assim o é por estes dias) da Escola (agora) Jean Grey.

domingo, 7 de setembro de 2014

The Giver - O Dador de Memórias, Lois Lowry


Opinião: Passei esta semana a debater-me com a composição de uma opinião sobre este livro. Por um lado, gostei bastante, foi uma história com temas provocantes e um mundo fascinante. Por outro, sinto-a como incompleta, e como se não tivesse muito a dizer sobre ela. Nada de importante, pelo menos, a não ser lamentar-me por achar que a história podia estar melhor apresentada.

Jonas vive num mundo de Igualdade. Não há conflito nem guerra, e cada aspecto da sociedade é altamente regulado, desde quem forma uma Unidade Familiar com quem, até aos bebés que recebem, às mulheres que concebem esses bebés, às profissões que cada um toma, ou à partida final de alguém quando se torna demasiado velho.

Neste mundo, os jovens vêem-lhes atribuida uma profissão ou actividade essencial para esta sociedade quando chegam aos 12 anos. Na Cerimónia do Jonas, ele recebe uma honra particular. Vai acompanhar o Dador de Memórias, e será o seu Receptor; e a maneira como vê a sua sociedade e o seu modo de viver nunca mais será o mesmo.

Em grande parte, achei tremendamente interessante a maneira como a Lois Lowry construiu este seu mundo. As pessoas não retêm as memórias do passado, à parte o Dador e o seu Receptor, e não conhecem certos conceitos como guerra ou conflito. Os problemas e mau comportamento são imediatamente resolvidos com um pedido de desculpas que é imediatamente aceite. As emoções são abafadas, particularmente as mais fortes; e as Unidades Familiares discutem as suas emoções do dia como forma de as processarem. Os sonhos são perigosos. A singularidade também, porque introduz conflito num mundo de Igualdade.

E no entanto, passei o tempo a questionar tudo. Queria saber mais. Perceber como esta sociedade evoluiu para isto. Compreender como é que nela coexistem o desprezo por sentimentos e emoções, a falta de respeito pelo valor da vida humana, a insistência no rigor e igualdade; com a presença de anomalias expressadas por personagens que rodeiam o Jonas, o carinho do pai dele pelos bebés que cuida, o desastre ambulante que é o Asher, a impaciência da Lily. Suspeito que é propositado da parte da autora, mas tenho também receio que parte disto seja desleixe dela, o que estragaria para mim boa parte do encanto do livro.

Adorei o conceito de haver alguém que guarda as memórias do antes, do que era bom e mau, porque é uma posição verdadeiramente trágica. Alguém que se apercebe do que há de errado com a sua sociedade devido às memórias que carrega, mas que não é capaz de fazer algo para o mudar. E será que o deve? Estes pessoas são autênticos zombies, mas vivem uma vida salutar e segura, sem doença ou problemas.

É interessante ver como o Jonas é apresentado a novos conceitos e como literalmente o seu mundo se expande ao começar a receber as memórias. O conceito de cor entra aqui, e é apresentado duma maneira deliciosa. Acho que ele muda demasiado rapidamente, e começa a recusar certas coisas da sua sociedade demasiado rápido, para quem foi toda a vida doutrinado num certo sentido. Sinto que as memórias que tinha recebido não era causa para essa reacção.

A autora escreve duma maneira mesmo cativante, introspectiva, bonita, mas acredito que não deixará de interessar os mais jovens. Os conceitos que apresenta são provocadores e vão pôr os miúdos a pensar. Creio que em partes ela é um pouco doutrinária, e dá as respostas às perguntas que faz, em vez de deixar o leitor responder por si próprio. E sei que retirei mais do livro por o ler agora, do que retiraria se o tivesse lido com a idade do Jones. Pude apreciar melhor o trágico que é certas coisas serem como são nesta sociedade.

Não estou completamente satisfeita com o fim. Gosto da ideia de ficar em aberto, e permitir a cada um interpretá-lo do modo que preferir. (Tenho as minhas próprias ideias acerca do assunto.) Mas não gosto muito do que sugere, que a revolta do Jonas em relação ao que ia acontecer, e a sua tentativa de corrigir o assunto, era infundada, e que mais valia ter ficado quietinho. Para um livro que pede aos miúdos que questionem o mundo e promove a singularidade, este fim vai muito na direcção oposta.

Ainda assim acho que vale a pena ler, em qualquer idade, por apresentar uma bela história e que pode fomentar a discussão. É bem interessante ver conceitos que se reconhecem doutras distopias seminais (a preocupação com a linguagem e como esta controla o pensamento das pessoas, de 1984, ou o controlo da natalidade, e de grande parte da vida das pessoas, de Admirável Mundo Novo), entrelaçados com uma nova perspectiva sobre memórias e o seu lugar no mundo emocional das pessoas.

Nota para a edição, que é lindíssima, bem encadernada, robusta. Gosto muito destas edições da Everest. (E afinal tinha muito para dizer. Ainda bem.)

Páginas: 240

Editora: Everest