sexta-feira, 9 de maio de 2014

Prisoner of Night and Fog, Anne Blankman


Opinião: Gretchen Müller é uma jovem de 17 anos que cresceu na Munique dos anos 20 e 30 rodeada de militantes do partido Nazi. O seu pai participava numa tentativa de golpe de estado organizada pelo partido, 8 anos antes, quando em confrontos com a polícia se lançou na frente de Adolf Hitler e o protegeu das balas. Lembrado como um mártir pelo partido, o seu sacrifício permitiu que a sua família ficasse bem considerada no partido, e que Gretchen crescesse a tratar Hitler por tio, a receber educação dele e a ser doutrinada na propaganda Nazi. Surge então um jovem jornalista judeu, Daniel Cohen, que afirma ter provas de que a história da morte do pai de Gretchen não é bem como tem sido contada... e Gretchen vê-se na difícil posição de duvidar de tudo o que sempre conheceu.

Prisoner of Night and Fog é um livro cuja premissa se baseia em personagens e acontecimentos fictícios (a família da Gretchen e o mistério em torno da morte do pai), mas que está firmemente ancorado em personagens e acontecimentos reais. É um livro repleto de detalhes históricos, mas posso dizer que gostei que assim fosse, porque sinto que me deu uma ideia muito boa da época e do local, Munique em 1931, das dificuldades pelas quais a sociedade alemã passava e da crescente popularidade do partido Nazi. Além disso, a presença de múltiplas personagens históricas reais acabou por fazer um bom trabalho em apresentar o seio do partido Nazi e o funcionamento das coisas.

A protagonista, Gretchen, começa por ser uma jovem bastante ingénua, quase um papagaio da propaganda Nazi, mas que cresce e evolui. Ao perceber que há algo de errado com a história da morte do pai, com o comportamento do "tio Dolf", e com as filosofias do partido Nazi, Gretchen começa a repensar tudo em que acreditava. Parte disso passa pela convivência com o jovem jornalista, Daniel Cohen, que é judeu. É quase embaraçoso, a Gretchen tem uma série de preconceitos devido ao modo como foi educada, e passa o tempo todo com o Daniel a meter as mãos pelos pés por causa disso. O Daniel também tem alguns preconceitos, por ela ter crescido no seio do partido Nazi, por isso é bom vê-los libertarem-se dos seus preconceitos. Acabam por fazer um casal bem giro, um par de intrépidos determinados a descobrir a verdade.

O mistério em si, sobre a morte do senhor Müller, não toma tanto tempo da narrativa como seria de esperar. Talvez por ser a parte ficcional do livro, talvez por ceder tempo ao crescimento da Gretchen e à relação com o Daniel. Acaba por ser a parte mais frágil do livro. Estive quase sempre à frente da Gretchen no que toca a adivinhar as várias peças do puzzle, mas a verdade é que ela é um pouco ingénua... e por outro lado parte do mistério tem a ver com conceitos que não eram muito conhecidos na época, e aí tenho uma certa vantagem sobre a Gretchen.

Um aspecto que é abordado e que é muito curioso é a disciplina da psicanálise, uma disciplina em desenvolvimento na altura e que aparece personificada num médico inglês que veio à Alemanha estudar a personalidade de Hitler. A autora especula um bocadinho sobre a personalidade dele, e sobre o seu estado psicológico e mental, mas o mais interessante é ver as suas relações pessoais, e o modo como se comporta com os outros. É fácil encaixar alguém como ele na categoria de monstro, difícil é lembrar que era humano, e a autora faz um bom trabalho em manter o equilíbrio entre o encantador e o repelente.

Ainda no seguimento desta questão, tenho de falar do Reinhard, o irmão da Gretchen. É óbvio desde o início que há algo de errado com o rapaz, pela descrição que a Gretchen faz dele, mas caramba, quão errado! É um pouco assustador ver a reacção dele, ou falta dela, a certas coisas. É uma pessoa perigosa, e não consigo imaginar como é que a Gretchen suportou a convivência com ele tanto tempo. Entristece-me a reacção da mãe deles. A senhora diz que não poderia escolher entre os dois filhos, mas ao permitir que as coisas continuem como estão, está essencialmente a escolher um em detrimento do outro e do seu bem-estar. Compreendo a culpa e a dor envolvida, mas negou egoisticamente ao Reinhard a hipótese que tinha de tratamento e, pronto, não concordo com as escolhas dela.

Falando do final da história, foi a tempos preocupante e entusiasmante. Adorei quando a Gretchen confronta o "tiozinho" sobre o que aconteceu com o pai dela, e só tenho pena que não lhe tenha dado um AVC, mas enfim, as liberdades artísticas não se podem estender infinitamente. Já a perseguição foi um tudo-nada enervante... as coisas são deixadas um pouco em suspenso, e contentar-me-ia com um final mais fechado, porque a Segunda Guerra está ali a rebentar, e fico preocupada com o destino dos personagens. Fiquei mais animada quando vi na Nota do Autor que estava prevista uma sequela, a acontecer em 1933, um ano muito interessante.

A Nota do Autor em si é muito útil, por rever o que é facto e ficção, e comentar alguns personagens e acontecimentos. É muito rica, o que não é muito comum, mas é recompensador. Já o título, apesar de bem giro, não sei se será o mais adequado, já que o conceito de Noite e Nevoeiro é mais pertencente a uma altura mais avançada, já dentro da Segunda Guerra. Creio que haveria outras hipóteses igualmente poéticas mas mais adequadas ao enredo.

Páginas: 416

Editora: Balzer + Bray (HarperCollins)

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