terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A Chave de Bronze, Holly Black, Cassandra Clare


Opinião: Oh, céus. As coisas ficaram MESMO sérias de repente. Ou talvez não tão de repente, mas raios, aquele final? Estão a tentar matar-me do coração, é? Ainda estou um pouco traumatizada, mais de duas semanas depois. Isto é suposto ser MG/juvenil! Não é suposto ficar tão pesado e descarrilar sem aviso!

Ah, quem é que estou a enganar? Gostei mais dele por isso mesmo. Nas opiniões anteriores queixei-me um pouco de achar os livros "simples" no desenvolvimento do enredo e dos personagens... este volume compensa muito.

Quero dizer, o enredo resumido ainda assim pode ser considerado "básico"... o Call, o pai e os amigos vão ser homenageados pelos mágicos por trazerem provas de que o Constantine Madden está morto; contudo, na cerimónia, torna-se claro que alguém persegue o Call, e que a sua vida poderá estar em perigo - pior, a sua outra identidade poderá também estar em perigo, já que Call pode estar a ser perseguido por causa dela. O enredo centra-se nas tentativas do trio e companhia de descobrirem quem é o culpado.

Só que finalmente a história está a ficar um pouquinho mais complexa. A identidade do Call é um ponto de conflito fascinante - é-lhe difícil confiar em quem seja além da Tamara e do Aaron, e agora até tenho pena que ele nunca tenha contado ao mestre Rufus. A questão da identidade também gera uma boa dose de tensão, na incerteza de vir a ser revelada. Foi muito excitante acompanhar esta situação.

Também há certos aspectos dos personagens e das relações entre eles que estão a ficar mais complexos. Acho muito interessante esta situação de como o Call "lê" a relação do trio: ele acha que a Tamara escolhe sempre/prefere o Aaron. E eu até percebo porque é que ele pensa isso, mas pergunto-me se será pela razão que o Call acha que é - que a Tamara está/pode vir a estar interessada no Aaron. Não será mais ao contrário? Ela dá-se melhor com o Aaron porque o vê apenas como um amigo, o que poderia não acontecer com o Call, e sentir-se mais tímida com ele?

Porque quando as coisas ficaram sérias, ela protegeu-o a ele, o que me parece significativo, apesar de certamente vir a ser um ponto que os vai separar no próximo livro. De qualquer modo, os ciúmes do Call são adoráveis. Do género "depois eles vão fazer um casal e eu vou ficar sozinho a fazer de vela", apesar de eu achar que ele está a saltar para conclusões precipitadas. E talvez o Call tenha ciúmes por causa da Tamara. Ou talvez não. Talvez seja pelo Aaron. Seria igualmente fofo. Não preciso que se forme um casal entre o trio, mas as circunstâncias até me parecem interessantes.

Estou muito curiosa para vir a descobrir um pouco mais sobre o Aaron, já agora. As autoras, num tom MG nada subtil, lembram-nos que não sabemos muito sobre ele, e lançam suspeitas sobre o seu passado. Tenho a certeza que, depois do que aconteceu no final, este tema é inteiramente adequado (eh) para explorar no próximo livro.

E já agora, adoro o Jasper. Tão, tão divertido. É o mote para algumas cenas divertidas do livro, e acho-lhe tanta piada, ele é tão egocêntrico e tão determinado a fazer um papelinho de frenemy para com o trio, mas curiosamente é-lhes leal. Não conta o que sabe sobre a identidade do Call, e acho que nem sequer ficou chocado. Há pessoas que realmente descobrem neste livro, e ui, é o fim do mundo. Mas o Jasper? Apenas mais um dia na escola.

Diria que as autoras plantaram umas coisinhas aqui e ali sobre personagens e aspectos do mundo a que tencionam voltar, e que possivelmente poderão afectar o futuro da série. Estou muito intrigada com algumas delas. E tenho a dizer que adorei algumas das revelações deste livro. (A Anastasia? Brilhante. O vilão? Previsível a algumas páginas de distância, mas chocante. Aquilo que os makars de serviço aprendem a fazer? Muito curioso. É um prelúdio para o que Call é capaz de fazer, e vai vir a fazer, provavelmente.)

O final, como disse... oh, dói, tenho o coração apertadinho por causa do que acontece. Tenho a certeza que é algo potencialmente reversível; calculei que acontecesse algo do género algures na série, porque é o acontecimento óbvio que vai colocar o Call no caminho do Constantine Madden e das loucuras que este se atreveu a fazer. Espero que consiga fazer o que o Constantine nunca fez, no sentido de ser mais bem sucedido a reverter esta situação. Imagino que seja difícil de o fazer, mas tem de ser feito. É um desenvolvimento demasiado bom para ser ignorado.

Depois disso, ainda temos um par de cenas chocantes, porque algumas pessoas descobrem o segredo do Call... e ninguém questiona, ninguém fala com ele, ninguém tenta perceber o que se passa. Simplesmente é colocado em isolamento, e depois chega uma certa personagem para lhe deitar uma bomba em cima, e fim. Acaba ali.

Não sou particularmente fã desta cena final, porque as autoras estão a fazer caixinha. É claro que há de haver alguém que vai falar com o Call - o mestre Rufus tem de ir, pelo menos, ele merece entender a verdade -, elas simplesmente estão a seleccionar o que lhes interessa mostrar e a torturar-nos com o resto. O salto para a revelação final não é bem orgânico e preferia que as coisas não acontecessem assim, porque deixa um cliffhanger, mas não um em aberto - um escancarado, mesmo. Do género "é isto? é isto o fim? não faltam folhas ao meu livro?".

Ainda assim, e por causa disto e do que enumerei aqui na opinião, estou tão excitada e animada pela perspectiva de ler o próximo livro. Ainda que tenha de esperar um ano. Agora é que isto está a aquecer e a tornar-se interessante.

Duas notas para a edição. Uma é que gostava mesmo que a Planeta parasse de trabalhar com esta tradutora. Não há um livro que leia dela que não aconteça encontrar uma mão-cheia de coisas que me soam mal, e um trabalho consistentemente sub-óptimo não merecia continuar a ser feito pela mesma pessoa.

A segunda é que a Planeta devia ganhar juízo e recompensar os leitores por esperarem pela edição em português. Quero dizer, uma pessoa já paga o livro a peso de ouro (para o tamanho e tipo de edição que é, é muito, muito caro), e depois venho a descobrir que as ilustrações que começam cada capítulo são só assim um bocadinho maiores (na edição portuguesa são do tamanho dum selo - um dos grandes, mas um selo) na edição original (ocupam algo como metade da página, talvez um pouco menos). A sério? Que falta de respeito pelo ilustrador. E que falta de respeito pelos leitores. Francamente.

Título original: The Bronze Key (2016)

Páginas: 256

Editora: Planeta

Tradução: Catarina F. Almeida

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