sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A Química, Stephenie Meyer


Opinião: Um dia hei de reler a série do Crepúsculo. Tenho saudades da voracidade com que esses livros se liam, a tábua rasa que era lê-los quando ainda não tinha lido mais nada no género, a tortura que era esperar pelo próximo livro, passar esses tempos visitando a página web da autora. Mas depois os filmes foram feitos, os problemas que a história tem foram apontados e tornaram-se difíceis de não ver, e o fandom implodiu e eu fugi na direcção contrária porque não tenho paciência para gente a discutir por coisas parvas. (E havia muita parvoíce nesses dias. Oh, se havia.)

De qualquer modo, sei que não seria a mesma coisa. Ninguém me pode impedir de olhar para esses tempos com nostalgia, no entanto. Suponho que isso terá tido algum peso na minha decisão de querer ler este livro. Estava curiosa. Queria saber se ela ainda seria capaz de manter a sua audiência cativa, se teria evoluído alguma coisa desde então.

A resposta curta: sim, e mais ou menos.

A resposta longa: bem, sim, manteve-me cativada por toda a narrativa. Mesmo nos tempos mortos da história (e houveram alguns, um pouco longos até), li com vontade, sem morrer de tédio. É uma coisa boa na minha perspectiva. A premissa é interessante, e o enredo dá reviravoltas excitantes o suficiente para manter o leitor a virar páginas.

O enredo podia ganhar um bocadinho com um ajustar da narrativa, contudo. Há ali um interlúdio na quinta com os cães - e eu gostei dos cães, eu adorei a ideia dos cães -, mas reconheço que pouco faz para avançar a narrativa, e irritou-me que o enredo forçasse os protagonistas feminina e masculino a ficar para trás. Não me pareceu do feitio dela, pelo menos, fazê-lo. Sim, gostei de conhecer os cães e ver o que era ali feito com eles, e ver as potencialidades deles, mas esta parte podia ser afinada que não perdíamos nada com isso.

Também há ali uma parte antes do clímax em que os personagens andam a fazer COISAS para o preparar, e acho que essa parte podia ficar mais clara. A maneira como isto tinha de encaixar com aquilo e fazer aqueloutro assim e assado é um pouco confusa.

Por outro lado, a parte inicial e a final são bastante excitantes por si próprias. A final porque fecha a história e fez-me roer as unhas um bocadinho, apesar de calcular que tudo se resolveria a meu contento. A inicial porque estabelece a premissa rapidamente e duma forma brutal. A protagonista anda a fugir há três anos, e as medidas que ela toma para se proteger são duma paranóia tal que assusta. Mas foram o que a salvou de três tentativas de assassinato antes, portanto podemos ver que são efectivas, ainda que incrivelmente complicadas. (Não consigo imaginar dormir com uma máscara de gás, mas uau. Belo pormenor.)

Quanto à evolução, bem... tenho alguns problemas com a maneira como certas coisas evoluem. Acho a relação dos dois protagonistas assim muito para instalove, toda aquela coisa da ligação intensa e rápida que não lhes dá tempo para se conhecerem e isso. É um pouco cliché quando eles estão a jurar devoção mútua e tudo o mais.

A segunda parte do meu problema é que ela inicialmente, por uma manipulação bem feita, tortura-o. (Era o trabalho dela antes de andar fugida.) E portanto a Stephenie tem estômago para fazer a cena, e é impressionante, mas depois não tem estômago para lidar com as consequências dela. Seria genial partir dessa cena e lentamente reaproximar os personagens, fazendo-os lidar com as consequências da mesma.

Mas o que ela faz não é isso. O Daniel basicamente parece não se importar de ter sido torturado (e nem sequer por uma boa razão). Ele simplesmente compreende que a protagonista foi manipulada, e continua a fazer-lhe olhinhos. Vá lá, ninguém é tão ovelhinha como isso. Teria sido mais interessante vê-lo interessado na protagonista, mas ter de lidar com o medo e impotência que a tortura lhe tinha trazido. Isso é que seria um bom tema para os momentos mortos do livro. (Não a quinta dos cães. Se bem que, já disse, a quinta dos cães é um conceito fabuloso. Apenas não para este livro.)

Por outro lado, gosto da inversão de papéis entre eles. A Alex é a predadora, a alfa na relação, o Daniel o beta, inexperiente no jogo de espionagem, sempre a meter a pata na poça. (O Daniel é basicamente a Bella, em muitos aspectos.)

E tenho a dizer que a descrição da psicologia da protagonista é algo impressionante. A Alex (é o nome que ela usa na maior parte do livro, mas não o seu nome real, e nem sequer o único que usa - e a narrativa faz um bom trabalho a mostrar quando ela veste a pele duma nova personagem) está fugida dos patrões há três anos, e como disse ali em cima, a paranóia com que toma cada acção é impressionante. As trocas e baldrocas que ela faz só para se aproximar dum antigo patrão são fantásticas.

Melhor, gosto imenso da premissa do que ela é. A Alex foi contratada no passado para trabalhar para o governo, numa agência secreta sem nome que a pôs num laboratório hipermoderno, a criar todo o tipo de substâncias - com o propósito de serem usadas em tortura, sem deixarem marcas. De início era só no laboratório, e a perspectiva de ajudar o país, travar crimes e mortes era apelativa.

Mas depois ela começou a ser escalada para aplicar as substâncias, e um dia ouve algo que não devia ouvir. Ela nem se apercebe da importância, anos mais tarde nem sabe que é por isso que está a ser perseguida. Mas um dia uma tentativa de assassinato põe-na em fuga, e três anos depois aqui estamos.

Gosto mesmo desta ideia, é fascinante e talvez um pouco mais inteligente do que daria crédito à autora. Não é o tipo de coisa que se veria habitualmente num thriller, creio eu, e por isso, pontos bónus. Permite que a personagem seja uma heroína de acção, sem ser necessariamente uma espia - o que lhe permite cometer erros e meter os pés pelas mãos de vez em quando.

Destaque ainda para o Kevin. A revelação da relação dele com o Daniel parece uma coisa saída de uma telenovela mexicana, de tão óbvia que é. Mas são giros juntos. E gostei da personalidade dele e de andar sempre às turras com a Alex. Algumas cenas com ele são tão divertidas. E claro, a ideia dele de treinar os cães da maneira que treinou é fabulosa. Só me partiu o coração quando as coisas descarrilam na quinta. Espero que eles tenham voltado pelos cães.

Oh, e já agora? Alguém que escreva um livro para a Val. Parece ter uma vida imensamente excitante. Seria interessante ler algo do ponto de vista dela.

Por fim... acho que posso dizer que não é a reinvenção da roda, mas também não é tão mau como pensava. Suponho que as minhas expectativas eram bastante baixas, mas posso dizer que pelo menos é capaz de proporcionar um bom bocado em termos de leitura. Comprei este inteiramente com um vale e ainda bem que o fiz, porque se tivesse sido mesmo mau estaria a chorar o meu rico dinheirinho, mas depois de ler não me importaria de o ter apanhado com uns 20% de desconto.

Uma nota final, em que questiono a decisão da editora original de publicar este no dia em que publicou. 8 de Novembro, data da eleição mais histórica que os EUA poderão ter tido. A sério que foi boa ideia publicar isto nesse dia, tivesse dado a eleição para qualquer um dos lados? É a Stephenie Meyer, eu sei, mas nem ela move multidões desta maneira. Já não. Passaram-se semanas até começar a ver algumas opiniões de jeito no Goodreads. Parece que não estavam à espera de muito, nem sequer vi um marketing muito agressivo nem nada. Suponho que teriam as expectativas baixas e a partir daí tudo era lucro, mas mesmo assim...

Título original: The Chemist (2016)

Páginas: 544

Editora: Presença

Tradução: Maria de Almeida, Cristina Carvalho, Fátima Andrade

Sem comentários:

Publicar um comentário