segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Passenger, Alexandra Bracken


Opinião: Gosto tanto de estar enganada sobre um livro. Ainda mais quando mudo de ideias a meio da leitura. Reservo-me o direito de ser inconstante, porque há livros que merecem. É que por um lado, a sinopse não dá nem de perto nem de longe uma boa ideia acerca da história. Nadinha. E por isso gostei de ser surpreendida.

Por outro lado, quando comecei o livro achei que ia ser um pouquinho frustrante. Levou algum tempo a arrancar, por duas razões: primeiro, a escrita da Alexandra neste livro é bastante complexa, o bastante para desacelerar esta leitora em inglês inveterada - e no entanto isto é incrivelmente adequado, devido ao cenário ser histórico em parte da narrativa e devido a esta lidar com a questão do tempo; depois, o enredo em si leva algum tempo a arrancar, levando a protagonista por uma série de obstáculos antes de lhe apresentar o desafio principal - no fim acabei a gostar desta parte, que me ambientou neste mundo, mas na altura, já estava a trepar às paredes quando finalmente conhecemos o antagonista.

E isto é a história de como um livro me apresenta obstáculos para me dificultar a vida e ainda assim acaba a cativar-me e a fazer-me adorá-lo. Difícil, mas não impossível.

Passenger é a história de Etta, uma jovem violinista do século XXI, e que se prepara para debutar como artista quando é arrastada para uma intriga que não compreende e no centro da qual se vê: é que Etta tem a capacidade de viajar no tempo (e não sabia), e a mãe foi acusada de roubar um artefacto importante a uma família de viajantes que domina a linha temporal, certificando-se que se mantém intacta.

Ponto favorito número um: a questão das viagens no tempo. Esta coisa toda tem de fazer sentido para mim num livro/filme, ou perco-me e lá se vai o meu gosto por paradoxos temporais. E gosto mesmo de como a autora conceptualizou a coisa: passagens temporais que só os viajantes conseguem encontrar, e a forma como saltam de ano para ano, mas sempre no dia em que partiram. Obriga os viajantes a envelhecer, a lidar com as consequências das suas capacidades. Obriga-os a ser algo responsáveis com os seus actos. E gosto da ideia de mexer nas linhas temporais, e do que acontece a pessoas que ficam "órfãs" do local e tempo de onde partiram.

Ponto favorito número dois: o ambiente e a envolvência. Nunca tive dificuldade em me sentir exactamente onde a escritora queria que eu estivesse, nem em manter-me interessada no enredo. Depois de me habituar à escrita, embalei na narrativa que foi uma maravilha. Fiquei mesmo investida na evolução da história e dos personagens.

Ponto favorito número três: a Etta. Gostei mesmo de como é dedicada ao seu talento, o violento, e de como acredita nas suas capacidades. É uma atitude madura e refrescante. E gostei de como ela lidou com o cair de pára-quedas no meio da intriga temporal: confusa, mas sem dar uma de florzinha. Ela quer compreender o que se passa, mas não se deixa dominar pelos outros. E está decidida a fazer a coisa certa, mesmo que traga consequências para si e para os seus. Mas ama fervorosamente e tenta fazer o melhor que pode por eles.

Ponto favorito número quatro: o Nicholas. O protagonista masculino é um jovem do século XVIII - 1776, mais precisamente. (O ano não é inocente. Independência dos EUA e tal. Não é particularmente importante para a história, mas é um belo pormenor.) O Nicholas é um homem negro livre. Com tudo o que esse estatuto lhe traz na época em que vive. A única maneira que tem de ser verdadeiramente livre, sem estar preso pelas ideias e preconceitos dos outros, é no mar: o rapaz começou desde jovem a navegar, e está posicionado para capitanear o seu próprio navio.

Gostei muito de como a Alexandra escreveu o Nicholas. Tenta mostrar o terrível que é viver nas circunstâncias dele, lembra como o racismo é por vezes subtil e universal, e como nem hoje em dia as coisas são espectacularmente melhores. É fácil ficar horrorizado com o tratamento que recebe; e a noção de que o século XXI seria um espaço mais acolhedor para ele é reconfortante; mas é fácil não lembrar que as acções dos outros para com ele têm ecos nos dias de hoje e estamos longe de um mundo perfeito nesse aspecto.

E gostei de como o Nicholas lida com a diferença, com as expectativas dos outros. Fez um esforço tremendo para avançar na vida, para se cultivar e ter uma educação esmerada, para saber argumentar com aqueles que o vêm como pouco mais que um animal. A fúria e o desapontamento por ter de ser o alvo de certas atitudes estão lá, mas ele não se deixa dominar por eles. Gostei sobretudo de como o Nicholas está perfeitamente ambientado no seu mundo, mas está ciente que há muito mais, e merece mais.

Ponto favorito número cinco: os dois juntos. Não sei explicar. Não há nada de especial no par, acho eu. Ficam logo fascinados um pelo outro mal se conhecem, o que tresanda a instalove. Que eu normalmente detesto. Mas talvez a chave esteja na maneira como as coisas são contadas. O fascínio é compreensível, porque são de tempos e espaços e mundos diferentes, e o choque de culturas aproxima-os.

Contudo, a noção de que estão separados pelas suas circunstâncias muito diferentes faz a coisa avançar incrivelmente devagar, e isso foi delicioso e excitante de acompanhar. Todo o suspirar um pelo outro. Todas as conversas consigo próprios, a desencorajar-se de pensar num mundo em que poderiam estar juntos. Isso imprime uma urgência e um quase desespero à situação que finalmente os atira para os braços um do outro, e que divertido que isso é. A autora escreve uma aproximação e evolução bastante lenta deliberadamente, para contrapor o interesse inicial, e funcionou mesmo bem.

Eh, simplesmente gosto de amores impossíveis. É tão giro ver pessoas a torturar-se deste modo. Ehehe. Além disso, adorei a atitude deles a certo ponto. O Nicholas era todo "não sou merecedor de ti" e a Etta toda "cala-te lá e dá-me um beijo". Adoráveis.

E pronto, para variar o fim tinha de ser uma tortura. Credo. Este pessoal adora fazer-me sofrer. Acontece simplesmente uma coisa... drástica e chocante, e o Nicholas fica deprimido, e eu fiquei deprimida com ele, e raios, era preciso deixar-nos pendurados desta maneira? Quero dizer, o fim não fica assim tão indefinido, a situação ainda é explicada e a cena final até ata bem as pontas e prepara o terreno para o segundo livro...

... mas acho que ainda estou a recuperar do choque. Bem, o bom disto tudo, de só ter colocado as minhas mãos neste menino agora, é que o segundo livro já saiu. Posso lê-lo já de seguida. Com a ressalva que "de seguida" significa: quando o Book Depository e a péssima distribuição de correspondência que tem havido por estes lados o permitirem. Mas em breve. Estou tremendamente curiosa para ver o que me espera.

Páginas: 496

Editora: Disney Hyperion

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