sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Curtas BD: (auto)biografias e relatos históricos

Persépolis, Marjane Satrapi
Ah, este é enganador. Marjane Satrapi tem um estilo simples no traço, mas nada há de simples ou simplório na sua história. Persépolis é um relato autobiográfico e histórico; a autora conta-nos sobre a sua infância durante os anos 80 no Irão, entrelaçando histórias pessoais com o ambiente social e político da época.

A maior razão pela qual este livro merece ser lido é porque a autora conta a sua história com clareza e com distância. Da época e dos acontecimentos, o que lhe dá alguma objectividade sobre o assunto. É um relato de como a instabilidade no seu país afectou a vida das pessoas comuns, e isso tem muito valor. É muito fácil reduzir um país com uma história recente tão complicada a estereótipos, e este livro faz um trabalho incrível em recordar o contrário.

É também incrivelmente triste ver um país com uma história tão rica refém da sua instabilidade política e social. Mas é bem recompensador ver Marjane apresentar-nos as pessoas que passaram pela sua vida, e que à sua maneira mostram facetas das vivências das gentes iranianas na época. Em adição, também gostei de poder ler as partes mais pessoais do seu relato, durante a adolescência e início da idade adulta, e de como não tem receio em se expor e analisar os seus erros.

Are You My Mother?, Alison Bechdel
Adorei o livro anterior que li da autora, Fun Home. Gostei muito de como explorou e analisou a sua relação com o pai, e de como entrelaçou a sua narrativa com referências literárias. Neste novo volume, Alison explora a relação com a sua mãe, ainda viva, e entrelaça-a com a sua própria história romântica e relacional, e com o seu interesse por psicanálise.

Em toda a honestidade, o Fun Home é mais bem sucedido no que se propõe a fazer. É denso, mas é mais claro. Terminei o livro completamente satisfeita e com uma boa ideia do tema. Neste caso, acho que este pode ser excessivamente denso. A autora analisa a sua relação com a mãe à luz de um par de teorias psicoanalíticas pelas quais ficou cativada, e o jargão técnico a certa altura é tão pesado e complexo de navegar que dificulta muito a compreensão. Acho que apanhei a ideia geral, mas sei que me passou muito ao lado e é custoso não ter as ferramentas necessárias para compreender.

De qualquer modo, gosto bastante dos paralelos que ela estabelece entre a relação com a mãe e com as suas terapeutas/psicanalistas. Gosto daquilo que subentendo da sua análise (as observações sobre a relação mãe-filho em geral são... perturbadoras), e gosto do aspecto meio meta de toda a coisa. Gosto que se enterre a fundo no tema sem receio de assustar o leitor, e que explore temas universais sobre um prisma pessoal. E gosto da arte, a preto e branco e cinzento, desta vez com destaques de vermelho/rosa pastel.

Pyongyang, Guy Delisle
Bem... este foi o menos apreciado por mim do grupo. Acho que falha um pouco pelo tom do autor, que descreve as situações sempre com um tom superior, do género "olhem para mim, pessoa do Ocidente tão iluminada, no meio destes Orientais totós tão pouco iluminados que não se libertam desta ditadura". Pronto, talvez o tom não seja tão óbvio, mas está definitivamente lá.

Até acho que o autor tem consciência do mesmo, e que reflecte possivelmente o que pensava na altura da sua visita à Coreia do Norte, mas não necessariamente o que pensava quando escreveu e desenhou este livro. Também há momentos em que ele tem uma certa intuição sobre as situações que descreve, portanto...

De qualquer modo, a visão de um Ocidental sobre a sua visita a um país Oriental seria sempre apenas isso mesmo. Limitada precisamente pelo choque de culturas. Tendo isso em conta, até achei um conjunto de situações idiossincráticas engraçadas, curiosas. A Coreia do Norte é tão isolada e tão circunscrita a um modo de ser que é fascinante ver isso descrito por alguém de fora.

Nunca daria a imagem geral da coisa, mas dá uma perspectiva minimamente interessante. Especialmente porque a narrativa se mantém curiosamente apolítica. Não me parece fazer avaliações nesse sentido, à parte a subversão do autor levar o 1984 para o país, e conseguir meter um coreano a ler o livro. (E a embaraçá-lo.)

Maus, Art Spiegelman
É por isto que eu raramente acabo a ler relatos da Segunda Guerra Mundial. Seja como for a maneira como é contada, o tema (Holocausto) é tão pesado e tão difícil de gerir, de tentar entender. É uma época tão próxima e tão distante de nós...

Apesar de tudo, a abordagem do autor neste volume é extraordinária e positivamente mágica. Qualquer pessoa que tenha lido vai destacar o antropomorfismo e animalização dos personagens - numa metáfora não-tão subtil assim, os judeus são ratos, os alemães gatos, os polacos porcos, e os americanos cães (os judeus israelitas, é dito de passagem, seriam porcos-espinhos, o que é hilariante para mim).

A genialidade da coisa é que isto permite ao leitor um distanciamento a acompanhar a história, mas ao mesmo tempo é tão imersivo que paradoxalmente consegue facilmente atrair empatia e envolvimento por parte do leitor. É extraordinário.

Outro aspecto que muito apreciei é a exploração da personalidade de Vladek, o pai do autor, e da relação que este tem com ele. É impossível não ficar assoberbada com a capacidade de sobrevivência e de desenrascanço do senhor. Acredito que isso lhe permitiu sobreviver a situações muito difíceis. E gostei muito de ver como o autor lida com a culpa de não ter vivido isto, de não poder partilhar esta dor com os pais; mas também de acompanhar o conflito geracional.

Vladek não tem um feitio fácil, e Art parece lidar com ele de forma impaciente com ele por vezes (leio algum arrependimento para com a sua postura), mas é realista e ao mesmo tempo retrata de forma algo carinhosa e saudosista essas atitudes do senhor mais velho. Acima de tudo, este é uma homenagem de um filho à história do seu pai; o valor histórico e humano é riquíssimo, mas o ângulo pessoal é inestimável.

Sem comentários:

Publicar um comentário