segunda-feira, 10 de abril de 2017

A Culpa é Minha, Louise O'Neill


Opinião: Ah, este livro... é complicado, mas vale a pena. As primeiras 80 páginas são bastante mansas, até aborrecidas, mas são o pedaço de caracterização mais importante da narrativa. A Culpa é Minha começa por nos apresenta o dia-a-dia de Emma, uma adolescente irlandesa típica, bonita e popular.

A pescadinha de rabo-na-boca é esta: a Emma é uma pessoa extremamente difícil de gostar. Na vida real, sei que não seria amiga de alguém com o feitio dela. Manipuladora, sempre a colocar as amigas umas contra as outras, a rebaixá-las subtilmente, tudo para se sentir melhor, para se sentir como a mais bonita, a maior em tudo de todas elas.

E é exactamente por isso que Louise O'Neill a caracteriza assim. A Emma é representativa de uma boa fatia das adolescentes por aí - fomos todos egoístas e auto-centrados, a certo ponto -, mas o seu feitiozinho é o que força o leitor a confrontar-se com o preconceito. É mais difícil não pensar que "estava a pedi-las" quando a vítima é alguém difícil de gostar, não é?

Ah... a secção da festa e do que acontece à Emma é bastante dolorosa de ler. A primeira parte do que lhe acontece, bem, ela nem se consciencializa do que aconteceu, realmente, e depois numa espécie de competição consigo própria, entra numa espiral descendente que é aproveitada por jovens da idade dela, que ela conhece, para fazer algo que é tão extremo que é um desafio ler o resto do livro, ler sobre as consequências dos actos deles, sem ter vontade de uma pessoa se lançar numa fúria destruidora. Só que não podemos defrontar personagens ficcionais, não é? E na vida real, as coisas também não funcionam exactamente assim.

O Depois... é uma secção fragmentada. É sobre as consequências daquela noite, é narrada pela Emma. E é uma secção aterradora. É uma narração do ponto de vista da vítima e do que as acções de outros lhe fazem, e continuam a fazer. O caso da Emma vai parar aos media porque envolve fotografias colocadas no Facebook. E ainda é mais enfurecedor: porque as consequências são bastante públicas, e no entanto a opinião pública vira-se maioritariamente contra a vítima.

O que causa mais horror nisto tudo... é que é um retrato muito fiel do que vemos acontecer na vida real. Quantos casos vemos nas notícias, intensamente mediatizados, mas em que o agressor se safa com uma pena leve "porque ai coitadinho não lhe vamos estragar a vida".

E de caminho ele (e nós, sociedade) estragámos a vida à vitima, que não só perdeu controlo da sua vida e autodeterminação às mãos de outra pessoa, que tem sequelas graves, físicas e mentais, de lidar com tal situação, que tem de enfrentar o constante bullying da sociedade porque há sempre quem não acreditará nela, quem lhe chame todos os nomes e a culpabilize e diga que "estava a pedi-las".

Dos crimes julgados em sociedade, nenhum é tão estúpido como a violação. É o único em que a pessoa julgada como culpada em tribunal é a vítima.

E por isso o relato da Emma no Depois é triste. Torna-nos pequeninos perante o sofrimento, a sensação de nunca escapar às acções dos outros, perante as consequências grandes e pequenas que tal momento tem na vida da vítima e dos que a rodeiam. A vida familiar da Emma fica um cenário completamente irreconhecível, e isso também é entristecedor.

Compadeço-me do que os pais dela passaram, mas o que fica é uma falta de entendimento da parte deles, uma falta de apoio. A sensação de alívio que emana deles quando a Emma toma a decisão no final? Ahhhh, não lha posso perdoar-lhes. Soa a como se estivessem só a pensar no que passaram e a esquecer dos problemas da filha.

No final fica a impotência, a noção de que nada podemos mudar na situação dela. Podemos mudar como sociedade e no futuro tratar outras Emmas de forma diferente, mas é enfurecedor. O final não é feliz, e é muito em aberto, algo insatisfatório... mas é realista. Quantas vezes isto não acontece também na vida real? E no fim de contas é uma decisão da Emma.

Numa situação em que ela nunca teve uma palavra a dizer sobre o que lhe acontecia, aqui ela tomou as rédeas e escolheu fazer o que lhe parecia ser melhor para si e para os seus. Entristece-me, mas fico satisfeita por ela. Ninguém podia pedir a esta personagem ficcional, como ninguém pode pedir a uma vítima na vida real, para carregar a tocha da verdade e da justiça. É um fardo pesado de carregar.

Título original: Asking for It (2015)

Páginas: 256

Editora: IN Edições (Zero a Oito)

Tradução: Rui Azeredo

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