domingo, 9 de abril de 2017

Conta-me Três Coisas, Julie Buxbaum


Opinião: Ok, aqui vão três coisas:

1) Adorável, mas não memorável;

2) Não sendo nada de especial, não entendo porque teve tanto destaque no panorama literário YA o ano passado... quer dizer, não inventa a roda nem nada que se pareça no que toca aos temas que aborda;

3) É fácil esquecer isso, no entanto, com o charme do admirador/correspondente secreto e o mistério da sua identidade que é oh-tão-óbvia.

Conta-me Três Coisas é a história de Jessie. A mãe morreu há dois anos, o pai voltou a casar recentemente e mudou-os para Los Angeles, para viver com a madrasta e o filho dela. Uma situação que compreensivelmente perturba a Jessie, arrancada de tudo o que conhece, ainda a fazer o luto. No entanto, depois do seu primeiro dia, começa a receber e-mails de um anónimo que animam os seus dias...

Provavelmente este livro ter-me-ia cativado mais se a sua protagonista se tivesse revelado mais interessante aos meus olhos. Quer dizer, em muitos aspectos ela até faz a coisa certa na caracterização da protagonista. A Jessie é tão interessada, e awkward e resmungona, como o adolescente típico. Mas talvez fosse isso que lhe falta: aquele extra que torna um protagonista inesquecível.

As partes do luto pela mãe são interessantes, mas acho que tinha ganho mais em ler em inglês, curiosamente. Senti um desligamento do texto, algo que não me permitiu sentir as emoções no todo. Normalmente sinto isso só quando estou a ler em português; algo na tradução não me permite ligar ao texto inteiramente, e isso é uma pena, que eu acabe a estar mais confortável a ler em inglês do que na minha própria língua graças à barreira que a tradução me põe.

Achei irritantes um par de coisas na narração da Jessie: uma, os clichés em demasia. Todo aquele ódio às pessoas de Los Angeles, como são focadas na aparência e podres de ricos e nhénhénhé... ugh. Um pouco mais de imaginação, por favor. O mesmo se aplica à Gem e ao irritante que é ainda termos de recorrer ao estereótipo da mean girl para agitar as coisas.

Dois, aborreceu-me de morte a Jessie queixar-se tanto da mudança e fazer esforço zero para aproveitar a nova vida. Talvez porque já tenha estado na mesma situação (mudar de casa e cidade sem achar piada nenhuma à coisa), mas que nervos, tanta lamúria. (Está bem que não tive que lidar com luto, felizmente, mas por outro lado era três vezes mais atadinha que a Jessie, e não tive tanta dificuldade como ela a aceitar a nova realidade. E era mais jovem e provavelmente menos madura que ela. Ok, já chegar de partilhas pessoais.)

O elenco de personagens secundários é incrivelmente mais interessante. A Scarlett, a amiga que ficou para trás, e compreendi bem o seu lado. A Dri e a Agnes são uma fantástica adição ao seu grupo de amigos. O pai da Jessie tem uma posição curiosa, ainda a adaptar-se à nova vida, o que deixa-a algo desamparada. O Theo é o irmão-por-casamento, com uma personalidade fantástica e que até tenho pena de não ver mais explorada. A Rachel (a madrasta) também tem uma posição interessante na narrativa, e é pena que só tenha uma cena (no final) com nuance.

Uma das coisas mais interessantes de toda a narrativa, no entanto, é o mistério do correspondente anónimo. Oh, é bastante óbvio, pelo menos para o leitor, qual é a sua identidade desde o início. Para a Jessie não, e até que é divertido vê-la vacilar e tentar adivinhar e encher-se de esperanças quanto à identidade dele e vê-las morrer quando acha que é um rapaz que não é aquele pelo qual tem uma paixoneta na vida real.

A sério, as inseguranças e dúvidas dela quanto à coisa são amorosas (totós, mas amorosas), mesmo quando já é óbvio para ela também. E devo acrescentar que os momentos dela com a paixoneta da vida real e com a pessoa online são bastante fofos. São o que fizeram este livro valer a pena para mim.

O final é mesmo à filme, tipo comédia romântica, com uma série de trocas e enganos que se resolvem num ápice, libertando os foguetes metafóricos para a protagonista e terminando num tom feliz e com tudo encaminhado a seu contento. (E a meu também.) Gostei. Às vezes é preciso que a história termine exactamente como o esperado, como o habitual, o cliché. Aqui soa bem melhor assim.

Título original: Tell Me Three Things (2016)

Páginas: 304

Editora: Topseller

Tradução: Cláudia Ramos

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