sábado, 26 de julho de 2014

All Lined Up, Cora Carmack


Opinião: Muito se tem dito e escrito sobre o género New Adult, uma espécie de classificação artificial para livros que se focam em protagonistas a partir dos 18 anos, e que se debatem com as crescentes responsabilidades de ser adulto, aprendendo a lidar com os seus problemas de uma maneira mais madura (espera-se). Por vezes, o género ficou conotado com histórias excessivamente dramáticas, pois alguns autores entendem "lidar com problemas" como "despejar a maior quantidade de coisas horríveis de que me lembrar em cima dos pobres dos personagens".

Quero eu dizer com isto que se quisesse apresentar alguém ao género, particularmente alguém que tivesse receio de o ler por causa da fama dramática, abanava-lhe por debaixo do nariz um livrinho aqui da Cora Carmack. A autora consegue equilibrar uma história fofinha e doce, e com sentido de humor, com uma apresentação certeira da indefinição de chegar à idade adulta e dos problemas que traz, únicos a cada personagens, mas que permitem a vários leitores identificarem-se com os mesmos. É uma autora completa nesse aspecto, e tem uma boa sensibilidade para expor os problemas dos personagens - ainda não li um livro dela em que falhasse nesse detalhe.

Este é o primeiro livro de uma série focada na universidade de Rusk, envolvendo em específico a equipa de futebol americano. Coisa sobre a qual eu nada sei em absoluto, a não ser que parece tremendamente excitante (posso estar errada); nem um par de temporadas de Friday Night Lights me salvou da ignorância, porque parece também uma coisa bem complicada. O bom é que a autora usa o futebol americano universitário como suporte e cenário da história, mas não entra em detalhes demasiado técnicos. Mesmo quando ela descreve um jogo, não tive problemas em perceber o sentido geral do mesmo (como em, se eles estavam a ganhar ou a perder - vamos considerar isso uma coisa boa).

Os protagonistas são a Dallas e o Carson. A Dallas é filha de um treinador de futebol americano, que acabou de se tornar treinador da equipa da universidade onde ela estuda. Depois de um ex-namorado quarterback que se revelou tudo menos que perfeito, jurou nunca mais se envolver com jogadores deste desporto. O Carson é a nova adição da equipa, e esforça-se ao máximo para ser a opção principal do treinador para a sua posição, e um envolvimento amoroso pode distraí-lo do seu objectivo. Pouco disponíveis para uma nova relação, não conseguem no entanto resistir à atracção crescente entre os dois, indiferentes aos obstáculos.

São um par terrivelmente fofinho. Achei engraçada a maneira como ambos tentaram firmemente manter-se na friendzone quando descobriram que um era a filha do treinador e outro o novo jogador, mas como não conseguiram resistir e negar a atracção, cedendo aos poucos e ficando cada vez mais caidinhos um pelo outro. A interferência e comentários dos amigos também ajudam a conferir alguma piada à situação.

Por outro lado, achei a situação da Dallas bastante interessante e única. Para os outros a universidade pode ser um período de liberdade, mas para ela, nem por isso. A universidade foi escolhida por ela sob as condições do pai de não sair do estado do Texas, mas depois o pai aceita o lugar de treinador da equipa de futebol americano da universidade. E a sua vida tem sido assim, sob a sobreprotecção do pai, mas também sob alguma falta de supervisão dele, sentindo-se como se fosse secundária ao futebol.

É uma relação interessante, que a autora explora muito bem, talvez um pouco autobiograficamente, pois ela admitidamente escreveu parte da história inspirada na sua experiência de filha de treinador. Gostei muito de ver a Dallas perceber melhor a relação que tem com o pai, e perceber melhor a relação que ele tem com o futebol, e chegar a um entendimento mútuo com ele sobre as coisas e sobre a sua relação. Acredito que tudo vai correr melhor com eles.

O elenco secundário é tão interessante, e estou tão curiosa para os conhecer melhor. A Stella é tão divertida e uma melhor amiga fantástica, mesmo o que a Dallas precisa para sair da casca ocasionalmente. Achei o Ryan interessantíssimo, pela sua estabilidade e sentido de humor (e capacidades de adivinhação positivamente mágicas). O Silas caiu-me mal, de início, porque é mesmo o estereótipo do bonzão mais rodado que uma estação de autocarro, e parecia um idiota, mas apreciei a sua lealdade à equipa e o seu esforço para os levar para a frente. (Agora que penso nisso, faz-me pensar num Tim Riggins, de Friday Night Lights, com mais 4 anos em cima. Podia estabelecer alguns paralelos com essa série.)

O pai da Dallas, o treinador, é uma pessoa dura, mas esforçada e inspiradora, e quero vê-lo levar a equipa a bom porto. E a própria equipa é uma personagem de direito próprio, tentando melhorar sob a liderança do treinador. Fico com vontade de conhecer mais dos personagens que se movem nesta esfera, e acredito que a autora possa redimir um ou outro. (Talvez não o ex da Dallas. O tipo parece mesmo idiota. Bem, se ela lá chegar, e o conseguir fazer satisfatoriamente, vou ficar agradavelmente surpreendida.)

Foi uma leitura sofrida, não pelo conteúdo, mas porque o livro saiu e foi encomendado há dois meses, mas entre o primeiro exemplar não chegar, e o segundo levar quase mais um mês a fazê-lo, só agora consegui lê-lo. Com grande prazer, felizmente, e começo a pensar que a Cora Carmack não vai conseguir desiludir-me (*bate na madeira para impedir que tal acontece só porque o mencionei*). Com um equilíbrio emocional certeiro, ela escreve com uma honestidade refrescante e uma boa capacidade para representar o estado New Adult, sem exagerar no drama, mas sem tornar a sua história demasiado simples, demasiado leve. É uma autora a seguir.

Páginas: 320

Editora: William Morrow (HarperCollins)

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