sábado, 29 de novembro de 2014

Let It Snow, Maureen Johnson, John Green, Lauren Myracle


Opinião: Let It Snow é um livro escrito a seis mãos, juntando três escritores contemporâneos bem conhecidos - Maureen Johnson, John Green e Lauren Myracle -, dos quais só conhecia o John Green, por isso foi uma boa oportunidade para conhecer o trabalho das outras autoras.

Cada autor escreve uma história, com o tamanho aproximado de uma novela, decorrendo num espaço partilhado e acontecendo as três cronologicamente pela ordem em que as lemos. Os protagonistas de cada conto aparecem ou são apresentados nos outros, e quando chegamos ao fim damos conta que aquela gente conhece-se toda. O que é engraçado, a cidade parece pequena o suficiente para isso, mas grande o suficiente para ter uma auto-estrada, e os personagens terem de a apanhar para ir para outra parte da cidade. (O ordenamento do território em terras americanas passa-me completamente ao lado.)

Tudo acontece em Gracetown, sobre a qual se abate a maior tempestade de neve dos últimos anos, e que faz as estradas fiquem intransitáveis, comboios parem, e fique tudo coberto e enterrado em neve. E a neve acaba por ser a base para os sarilhos em que os personagens se metem em quase todas as histórias... o que se pode tornar um tudo-nada irrealista. (Se bem que sem as premissas estranhas não tínhamos histórias para ler, eu sei.)

Quero dizer, eu nunca vi neve, e até eu sei que nem é boa ideia sair de casa a conduzir sem correntes de neve no carro ou com ténis calçados (John Green), nem me parece a melhor das ideias ser obrigada a sair de casa pelos pais, para viajar de comboio, no meio duma tempestade de neve, ou sair dum café perfeitamente aconchegado com um estranho para o meio da neve, sem conhecer nada em Gracetown, só para fugir a um bando de cheerleaders (Maureen Johnson). Quanto à Lauren Myracle, o problema do conto dela é com a personagem intragável que apresenta, mas já lá vamos.

Por outro lado, é um conjunto de histórias bastante giras, que me deu gosto ler, e apesar de não serem obviamente natalícias (suspeito que se podiam passar numa tempestade de neve qualquer, sem ser no Natal), acho que é por isso que gostei delas, por não serem enjoativamente natalícias. O desejo de estar com a família e amigos, e um ou outro milagre de Natal estão lá, mas dum modo temperado, nada sentimentalão, e é só o que peço numa história de Natal.

The Jubilee Express de Maureen Johnson, já disse, tem uma premissa parva. Os pais de Jubilee não conseguem estar em casa a tempo do Natal, e então ela é mandada para os avós, na Florida, a meio da tarde da véspera de Natal. Isto para já comigo nunca aconteceria, porque ninguém me tirava de casa e me metia num comboio no meio duma tempestade de neve a meio da tarde da véspera de Natal, porque até o meu eu adolescente veria logo que ia dar asneira.

Adiante. O comboio fica parado junto a Gracetown, a Jubilee sai do comboio para não aturar um grupo de cheerleaders excitadas, dá por si na Waffle House, as cheerleaders vão para lá, e a Jubilee aceita o convite dum rapaz que não conhece de lado nenhum para se refugiarem na casa dele. (Mais uma parvoíce.)

Ignorando as patetices, o conto até tem algum sentido de humor, talvez um pouco sarcástico, e auto-depreciativo, mas divertido. O percurso da Jubilee até perceber o palerma que o namorado é, é um percurso interessante, porque vamos percebendo aos poucos o quão desligado ele é, a par com ela. As revelações sobre o Stuart também são bem feitas, atempadamente. E o fim é fofinho, um pouco alimentado a hormonas, mas suponho que ambos estavam ali um para o outro no momento e lugar certos.

A Cheertastic Christmas Miracle de John Green é tipicamente Greeniano, com o seu humor e singularidade habituais, mas no bom sentido, porque me diverti bastante com ele. A premissa é pateta, os personagens saem de casa a correr para a Waffle House, onde as cheerleaders estão, porque um amigo lhes telefonou, e basicamente andam a patinar com o carro no gelo, e a espetá-lo contra coisas. (O susto, credo, quando certas coisas acontecem...)

Contudo, gostei bastante da relação entre o grupo de amigos, o sentido de humor, as referências de cultura popular... nesse aspecto, foram melhor trabalhadas que o que li anteriormente dele. O par que se forma é giro, e já o via à distância, mas foi muito engraçado de acompanhar as suas aventuras e peripécias pela neve.

O/A protagonista tem uma coisa engraçada, não dá exactamente para perceber o sexo dele/a durante a narração, e mesmo quando o seu nome é revelado fiquei na dúvida porque é um daqueles nomes que dá para os dois sexos. Por isso, foi uma situação intrigante, ler o conto desse ponto de vista. Não sei se é deliberado, porque o autor põe o/a personagem em situações e conversas e pensamentos que apontam ligeiramente para um dos sexos, mas lá que passei o conto toda trocada, passei. No fim ainda acontece uma coisa que me manteve na dúvida, e só no conto da Lauren Myracle a esclareci.

The Patron Saint of Pigs de Lauren Myracle é o conto mais ingrato de avaliar, porque tem das personagens mais horríveis e mais detestáveis que já encontrei. É uma miúda tão egocêntrica, tão focada nos seus próprios dramas e ignorando os dos outros, que dá vontade de arrancar cabelos. O problema é que começamos com uma das amigas a apontar-lhe o defeito, mas não, sua excelência não lhe podia dar ouvidos. Só entra naquela cabeça dura quando toda a gente que ela conhece lhe diz aproximadamente uma variação da mesma coisa.

Detestei esta personagem, que ainda por cima faz uma coisa horrível ao namorado, vai-lhe contar, e nem lhe dá tempo para reagir (ele é que devia ter o direito a reagir e decidir o que fariam), não, sua excelência decide que as coisas têm de ser assim e pronto. (Mais comportamento egoísta.) Portanto, não, minha cara, não tenho pena nenhuma que estejas a sofrer no dia de Natal. Deita-te na cama que fizeste e não me aborreças.

Portanto, estou dividida. Até consigo louvar a maneira como a autora escreve, porque a sua caracterização é credível ao ponto de odiar a personagem, e consegue em certa medida criar um possível momento de redenção para ela. Ou pelo menos, um momento de viragem. Mas acho que foi um bocadinho apressado, ela passa grande parte do tempo em modo egocêntrico, e depois o questionamento do seu comportamento vem muito tarde, por isso a mudança do mesmo é repentina, e o ter feito uma coisa boa não apaga as asneiradas que já fez.

É um conto complicado, e não me parece que a protagonista mereça o final que tem. Final esse que só vale pela aparição de todos ou quase todos os personagens do livro. Contudo, no todo fiquei muito satisfeita com o mesmo, com o qual passei um bom tempo, e que me deu a oportunidade de apreciar os três autores, mesmo aquele que já conhecia. É uma boa leitura natalícia, e o melhor é que já a temos editada em português, com o título Quando a Neve Cai, mesmo a tempo para a época natalícia.

Páginas: 368

Editora: Penguin

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