domingo, 19 de outubro de 2014

Maze Runner - Provas de Fogo, James Dashner


Opinião: Eu sou masoquista. E um bocado parva, de certeza. É a única explicação para eu ler os livros desta série, passar o tempo a ranger os dentes porque o autor faz um conjunto de coisas de que eu não sou fã, e no fim, ainda me sujeitar a mais uma dose disto, porque caramba, eu preciso de saber que há um objectivo por trás de tudo na história, ou atiro os livros da janela. (Eu moro bem alto. A viagem até lá abaixo não vai ser bonita.)

Acho que depois do primeiro livro já estava mais ou menos mentalizada para encontrar outra vez as coisas que não gostei no mesmo, porque a história de Provas de Fogo fluiu melhor. Ou talvez seja porque desta vez, ninguém sabe que raios se está a passar, por isso fui poupada às primeiras 200 páginas de Correr ou Morrer, em que o Thomas anda dum lado para o outro a tentar perceber o que se passa no Labirinto, e ninguém lhe explica. (Talvez porque era divertido gozar com a cara do caloiro? Não faço ideia.)

Enfim, os jovens que saíram do Labirinto são manipulados e colocados novamente numa situação que exige que passem por uma série de provas arbitrárias e aleatórias, só para a CRUEL, essa organização misteriosa e cujos propósitos se mantêm obscuros, retirar uma qualquer informação não revelada ao leitor, a não ser por meias palavras e palavreado vago. Quero dizer, a este ponto eu consigo fazer uma estimativa do que se está a passar, lendo nas entrelinhas, mas não é por falta de tentativas do James Dashner de me manter no escuro. O homem parece que se diverte com deixar o leitor frustrado.

A escrita também não melhorou. Já bem basta o facto de o autor não saber dosear revelações e novas perguntas que coloca (muito peso nas últimas, e não põe peso que chegue na primeiras); um livro deve bastar por si próprio, digo eu, na história que apresenta, percorrendo um arco que coloca questões, responde-as, e coloca mais questões, em jeito de gancho para manter o leitor interessado no livro seguinte.

O problema é que em termos de técnica o autor não é muito bom. Há muito dizer-nos como o Thomas se sente, em vez de nos mostrar como ele se sente. (Show, don't tell.) Alguém diz alguma coisa, o autor diz-nos como o Thomas se sente. Alguém diz outra coisa, o autor diz-nos novamente o que o Thomas sente em relação a isto. Bah.

Além disso, há muita repetição de acções que nada contribuem para a narrativa. Perdi a conta às vezes em que o Thomas adormeceu no livro; às vezes, acordava a meio da noite, só para nós termos o prazer de voltar a vê-lo adormecer. E pior, muitas vezes o adormecer era o que fechava o capítulo. Muitos autores preferem colocar no fim de um capítulo um acontecimento inesperado para agarrar o leitor e fazê-lo continuar a ler; o James Dashner prefere terminar o capítulo com o Thomas a adormecer, para nos matar a vontade de continuar a ler e nos dar vontade de adormecer também.

Vale a pena acompanhar alguns personagen secundários, penso eu. Gosto bastante do Minho, que não tem queda para choradeiras e incita toda a gente a continuar a andar e a esforçar-se para chegar ao fim, apesar de inicialmente estar relutante em assumir a liderança. O Newt também me parecia interessante no primeiro livro, mas aqui o coitado não tem muito tempo de antena, e demonstra outra das fraquezas do autor, que é criar personagens memoráveis, credíveis e tridimensionais.

O autor é mais enredo que personagens, o que não é a minha preferência, mas desde que fosse bem escrito, não me importaria. É um bocado triste quando os personagens estão ali mais para encher - o próprio autor o reconhece, quando depois dum evento particularmente mortal o Thomas pensa algo do género "ai ainda bem que não foi alguém que eu conhecesse (e gostasse)".

Acho curioso o caminho que a Teresa tem que tomar, e compreendi as razões e o pensamento dela, bem melhor que o tolo do Thomas, diria eu. Fiquei intrigada com alguns dos personagens novos: o Aris e as raparigas, um paralelo do Thomas e dos rapazes, por exemplo, e que eu gostaria de conhecer melhor, de saber o que aconteceu com eles. O Jorge também é marginalmente interessante, pela sua linha de pensamento meio doida, se bem que podia ser um pouco menos estereótipo do latino.

A Brenda, bem, não sei que dizer. Por um lado gosto dela e da sua atitude, e acho interessante e credível o modo como o Thomas se sentia em relação a ela. Por outro, a tentativa de introduzir um triângulo amoroso é um bocado batida e patética. Quero dizer, o Thomas e a Teresa não têm memórias, e não se lembram do que se passou entre eles antes do Labirinto, o que já de si é complicado (e nas mãos de alguém mais habilidoso, daria pano para mangas), e ainda há as coisas que acontecem neste livro, que também não ajudam nada, e ainda precisamos mesmo dum terceiro elemento a complicar mais? A sério?

Um problema de manter os desígnios da CRUEL no escuro é que é muito difícil perceber a lógica do que andam a fazer. A este ponto, começo a achar que têm a tortuosidade e os requintes de malvadez dum Jigsaw Killer, dos filmes Saw, nas "provas" a que submetem os miúdos. Quero dizer, se a ideia parece ser estudar o maior número de indivíduos, e escolher os melhores, num género de selecção artificial Darwiniana, não compreendo o que é que coisas como aquela bola metálica estão ali a fazer. A bola metálica não era apresentada a toda a gente do grupo, e não lhes foi dado verem o que fazia para tentarem livrar-se dela, estudando-se aí quem era mais "capaz"; portanto, qual o propósito?

E espero que a reacção dos miúdos a algumas das coisas seja parte da sua importância. Neste livro e no outro, ninguém fica assustado, acagaçado com as porcarias que lhes acontecem. Há quase que uma falta de reacção; e depois limitam-se a continuar. Além disso, a este ponto qualquer outra pessoa ter-se-ia revoltado contra a CRUEL e recusado a fazer o joguinho deles; estes miúdos continuam ali, como ovelhas. Sei que há um incentivo neste livro para que eles continuem a fazer o que lhes dizem, mas seria expectável pelo menos mais revolta.

A parte final é exactamente igual à do livro anterior. Uma luta contra bichos estranhos e bizarros (pela descrição do autor, imaginei uma coisa parecida com um dos Anjos de Evangelion, o que pelo menos é um melhoramento em relação às lesmas gosmentas dos Magoadores); e uma recolha pela CRUEL, com a promessa de respostas (finalmente), mas ainda não é neste livro que as receberemos. Meh. Até gostei do truque que o Thomas tentou arranjar para ajudar a Brenda e o Jorge, apesar de aquilo quase ir resultar mal.

O fim é entre intrigante e frustrante. Acho curiosa a coisa que acontece no sonho que o Thomas tem... mas o que vem a seguir é tão patético. Está o Thomas a prometer-se que não vai fazer o jogo da CRUEL... e depois faz exactamente o que eles querem que faça. Quero dizer, ele sabia que eles queriam que se sentisse assim no fim de tudo, e esquece-se disso? Não lhe passa pela cabeça que a atitude que teve era precisamente a que eles queriam? Que esquecer, e tentar compreender e perdoar era talvez mais de acordo contra fazer o joguinho da CRUEL? Enfim, eu já não espero muito da inteligência destes miúdos.

E sim, sou capaz de me sujeitar a um pouco mais de tortura e ler o terceiro livro; ainda quero ver o que o autor tem em mente para este mundo e os desígnios dos personagens. Há a promessa de pelo menos algumas respostas, mas não vou ser optimista e esperar que ele me diga tudo. Quero dizer, há duas prequelas para a trilogia. Uma já publicada, sobre como o mundo ficou assim; e outra prevista para 2016, sobre os personagens da trilogia antes de irem parar ao Labirinto. Assumo que seja aí que estão as respostas que realmente quero. *suspiro* Se isto não é uma tentativa óbvia de fazer dinheiro à conta dos leitores, não sei que seja. Ainda mais agora, quando o filme teve algum relativo sucesso...

Título original: The Scorch Trials (2010)

Páginas: 368

Editora: Presença

Tradução: Marta Mendonça

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